13 Dezembro 2008, Berlin (steglitz overflow)

olha nem sei por onde nem como comecar. atencao q esta historia constitui caso veridico embora admitidamente eu, por afunilamento sensorial na altura, invalidez mnemesica agora, nao a reconheca como real no meu universo privado. alias ate prefiro assim. gostava que outra pessoa visse as coisas da mesma forma mas o clima de consternacao asfixiante que temperou os meus primeiros momentos de semi-consciencia esta manha/tarde em schöneberg serviram para clarificar o grau de realidade (e seriedade) que a ultima noite teve para todos quantos nao eu. ate porque eu nao existi ontem.

Alexanderplatz Warmup

a tarde foi gira, alexanderplatz é a loucura humana, vagas de ost berliners, nenhuma gota igual à outra (ao contrario da paradigmatica seriacao fordiana do oeste de berlim) mas todas distintamente provenientes da mesma fornada emancipativa, cada um como que uma celebracao individual, atraves da sua unicidade, da libertacao da cinzenta era da demokratische deutschland republik (curiosa contextualizacao da palavra demokratische...). Falam alto, saltam, gritam, riem, skateam, patinam e assemelham-se a seres humanos. é a antítese do robótico oeste. neste cenário e já com uma intimidade relacional quase ao nivel de namoro solido surfamos melancolicamente o oceano alex e por lá permanecemos, encharcados na pluralidade de costumes e disfarces durante um par de horas, ao ponto de nos esquecermos que tinhamos combinado a 4D com a laura, coordenadas julius-leber-brücke às 1900.

Intro: Jim Beam, Ballantines

chegados à JLB decidimos dar um pulo à residencia para consumo mínimo duma garrafa de whisky. tinhamos uma de ballantines que ia a meio (cortesia minha) e, previsivelmente, durou poucos instantes. decidimos ir a uma festa privada dum colega de turma da mais bela do universo (se nao concordarem considerem uma hiperbole) mas era estritamente necessário que se levasse alcóol segundo ele. como se fosse preciso alguém me obrigar a levar alcóol, penso eu, no meu cinismo quadrático vermelho. e ajo, a mim nao bastam palavras e pensamentos, ha que agir, e foi neste espirito que arrastei as chicks germanicas a comprar uma de whisky (o mais barato - 16€ jim beam straight bourbon) pra party. escusado sera dizer, em retrospectiva, que nao foi de grande utilidade para quem esteve na party. sempre soube isto mas na altura simulei genuinamente que se tratava duma oferta à comunidade festiva. assim, armados alcóolicamente para o que desse e viesse (se nao concordarem considerem uma hiperbole) lá fomos de encontro a outro grupo que também se dirigia para a mesma festa, perdendo 20 minutos com isso, mas em toda a honestidade foi a melhor opcao, ja que nunca se sabe que tipo de ambiente poderemos encontrar pelo caminho nas ruas caóticas de berlim do sul. no outro dia sofremos uma emboscada do PKK em schöneberg que, confesso, me surpreendeu, pela negativa. nao so almejaram um target politicamente invalido como eu como denunciaram a sua presenca, à priori, quando estupidamente comecaram - a propósito do feriado do haaj - a emanar sonoridades ancestrais alusivas ao ala ou maome ou lá o que é, dando-nos tempo mais que suficiente para nos deitarmos no chao em posicao fetal, logo protegidos de qualquer tipo de agressao física, verbal ou moral. aporcalips cow style.

a ponte sobre o rio Steglitz

do momento em que nos encontramos com a outra micro-tribo militar até à casa do bacano passaram-se 45 minutos, dois autocarros riding black, e zero conversas com interesse. incrementei em 0,02% o meu conhecimento de alemao fazendo uso da minha habilidade sensorial e ganhei pouco mais com toda esta aventura. conclui que precisava de me encontrar comigo proprio numa outra dimensao. ficou o encontro marcado, so tava a uma viagem alcóolica de distancia e ja tava na paragem à espera.
se nada funcionasse, podia ficar a olhar para ela a noite toda. a sua dinamica me hipnotiza, viu velho? mas claro que tudo iria funcionar e lá chegamos a casa dele e a primeira impressao foi determinante, tavamos perante um anfitriao que era um palhaco do caralho inda por cima tinha nome de ex-jogador do porto, dimitri. eu era o unico estrangeiro, o que nao me incomodava, nao fosse o facto disso fazer com que tivesse que levar com a ridicula tentativa de pronuncia americana desse anormal. mas ya, tamos em steglitz, sul de berlim, zona rica e de moradias, e a casa dele insere-se bem neste cenario (desolé, ja usei duas vezes esta palavra). DJ a bombar sonoro, alcóol como o caralho e vem tudo mamar do nosso jim beam, razao pela qual apos cuidadosamente medir duas ofertas meto o resto no meu copo e no delas e siga pra bingo. nao bebi de penalty mas considero que foi das vezes em que fui mais veloz em eliminar o conteúdo do copo. os dados estavam lancados e la me fui dando com um ou outro. estava naquele ponto em que me torno relativamente sociavel e em que embarco em conversas rotineiras com aparente comforto. em suma, um ser odioso. portanto sugiro ao meu colega de conversa que bebamos uma garrafa de jägermeister a dividir pelos dois (substancia licorosa tipica da regiao de westfallen, com 40% de alcóol) e o gajo (anthony, gajo bacano sim sr) nao se fez rogado mas provavelmente pensava que eu tava a disparar cartuchos vazios. so conhecem portugal do futebol e depois estas coisas acontecem. a minha mae liga-me e diz que o benfica foi eliminado. foi a minha ultima memória da noite.

Warp speed 7

digo em mute boa noite a todos e despeco-me tambem de mim. encaminho-me para a twilight zone em warp speed. devoro jägermeister, glühwein, rotwein, cerveja, mágoa futebolísica, júpiter e alpha centauri B e entro em queda livre no estado etereal da sublimacao ebria. guardo ao meu lado (algures à volta da consciencia q sou) tres fotografias smackmybitchianas da noite: 1 discutir na cozinha, quase desmanchado em choro, a nao passagem do benfica na uefa, com um adepto do hertha 2 agarra-la na pista de danca e nos vaporizarmos de paixao (pensava que tinha sido um sonho, mas perguntei-lhe e ela confirmou) 3 ver a minha deplorável figura em tronco nú, no s-bahn a caminho de casa como reflexo do vidro do comboio, loucamente contrastando com a figura angelical dela comunque e ovunque a meu lado durante a tempestade. é pena porque o auto espectáculo que perdi parece-me ter sido, se alguma coisa, memorável. por entre estas tres fotografias, a motion picture consistiu aparentemente em destruicao indiscriminada ambiental. soube por fontes seguras que fiz muito amigos mas também muito inimigos esta noite, soube que a determinado momento comecei a perseguir todo e qualquer um que tentasse dancar inocentemente com ela, que o habitual episodio de paranoia consistiu na mania de que ela tava fechada na casa de banho com outro gajo, que como resposta bati ininterruptamente à porta a exigir que ela saisse (apesar de ela tar a suportar uma amiga q tinha perdido um bébé). que indignado com a óbvia mentira escarrei contra a porta da casa de banho e decidi me por em tronco nú, rasgando no processo a minha t-shirt e daí em diante culpando toda a gente pelo facto. por causa disso, e num justificado acto de protesto nao mais voltei a tapar o tronco com vestimentas até chegar a casa, a reboque dela, apesar dos 0 graus negativos de temperatura. mamei biblos decorativos da casa do dimitri e pus na bolsa da laura, talvez numa perspicaz tentativa de me ilibar de qualquer tipo de responsabilidade caso houvessem suspeicoes. tambem apoderei-me dum cachecol interessante que entretanto ofereci à laura também. fui corrido da casa pelo próprio dimitri mas felizmente o resto da comitiva, tou seguro que por solidariedade à forma inapropriada com que fui tratado pelo anfitriao, tambem bazou. o caminho para casa foi feito de discussoes saudaveis da bola com o adepto do hertha e com um iraniano com o qual simpatizei particularmente. como ate à altura de tinha comportado de forma exemplar decidi fazer alguma coisa de extreme: acordei uma vagabunda na rua pra falar com ela deus sabe porque e andei aos berros em trono nú no s-bahn, sozinho com a faye... só para verem o menino que tá aqui. de qualquer forma feito o balanco e demonstracao de resultados, a contabilidade aponta outra vez para uma noite clássica. o mote hooliganístico que serve de conforto agora e várias demasiadas vezes talvez: no one likes us, we don't care!

inverno nuclear

nao tinha a certeza se o meu ego era aprazivel a ela mas pelo menos ja sei que com o alter ego nao vou la. o dia seguinte foi um retrocesso de 30 anos em berlim e o muro voltou a existir. faltou saber quem tava de que lado mas pelos vistos o meu grau de isolamento afectivo sugeria fortemente que eu personificava o lado sovietico. sugeri um passeio ao leste para me procurar a mim proprio e ela acedeu. inspirada pelos historicos ares asseverou-se na frieza de trato e naturlisch agora sinto me um tyler durden mas sem classe nem estilo. fortissimo na auto destruicao, viciado na desilusao. um anti bon vivant hoje. amanha outra coisa, como todos acho.

tragedia? tragedia seria ter nascido do nacional, isto é ter 25.

somos rapazes sem nome...

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