Interlúdio #6 - o verão de 2009


*agradecia que se alguém lesse isto, previamente pusesse a música recomendada a tocar e esperasse até ao segundo 30, isto para uma melhor apreciação do texto, obrigado.

. fui à janela e tudo se revelou: o filha da puta do verão de 2009 está aí, a confirmação ocorreu-me sobre a forma de factores climatéricos: o sol desaparecia por trás de um sétimo das colinas de lisboa visto da minha janela no bairro das ilhas e eu esperava naturalmente uma queda repentina da temperatura: qual não foi o meu espanto quando a temperatura não só se mantem amena em termos técnicos como em termos relativos ainda subiu por efeito psicológico.

. já me tinha vindo a incomodar a discrepância climática com o calendário, lembro-me muito bem perfeitamente que no ano transacto nos finais de abril já inalava areia nas costas lusitanas.

. a constatação imediatamente evocou-me tons nostálgicos de imprevisibilidade e intensidade de vivência multinacional. vou estranhar acordar 3 dias seguidos no mesmo lugar, dormir em camas, guiar um carro. no autocarro de volta da Costa, se tiver cansado, vou atar a minha mochila aos meus pulsos e quando acordar, acordo em sobressalto porque não saí em Breclav, na fronteira com a Hungria. vou todos os dias ao supermercado comprar latas do que for mais barato pra levar para um hostel imaginário em frente à minha casa e pago com Zlotys. de 3 em 3 dias faço a linha de sintra com um backpack às costas 12 vezes para cada lado, e quando sair em campolide, procuro um mapa com as direcções para a minha casa, o flamingo hostel, na rua szewska. vou passar os meus serões na sala de convívio dos hostels de lisboa a comentar em português o quão boa é a gaja checa ou o quão anormal é o gajo americano e cada australiano que conhecer vou dizer "foda-se esta merda do leste europeu tá cheia destes gajos" mal ele vire as costas. quando apanhar um barco mal saia no meu destino vou apanhar o metro para Syntagma para ver a acrópole ou espero que o Tony the legend apareça e diariamente vou procurar piscinas com uma sunset party cheia de meninos australianos a beber bacardi breezer a 4 euros. alguns dos dias vou dormir com o cachecol do PAOK de salónica e repetidamente fazer a conversão do alfabeto grego pró romano até ficar com dores de cabeça. à tarde vou comprar uma garrafa de vodka e escolher uma praça no centro da cidade para consumi-la em tronco nú até ao limiar do coma. de madrugada vou insistir que quero um pita gyros a 2 euros nas roulottes da 24 de julho. foda-se nunca pensei que pudesse sentir tanta falta do trak-trak dos comboios a andarem a 15 km/h nas planícies da macedónia ou acordar com o revisor a me blasfemar em croata por tar com os pés em cima do assento. apesar disto, mais importantemente, não vou mandar SMS ou mensagens no facebook para uma alemã em barcelona.

. este ano, o verão de 2009, marca o último da minha vida no paradigma actual profissional: um estudante procrastinador consciente. a partir do verão de 2010 vou 15 dias ao algarve com o resto da manada ou onde quer que os alemães vão os seus 15 dias cerimoniais de praia - talvez à (ainda) menos entusiasmante costa báltica. ou largo o trabalho e faço qualquer coisa de jeito com a minha vida.

é um verão de inflexão, este último verão dos meus primeiros 26 anos de vida.

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