Interlúdio #7 - uma outra música

hoje era uma véspera mas afinal não foi, ficou adiada para daqui a dois dias. tenho sido displicente com o apartamento, como que deixando-o em pause durante estes últimos dias, tentando perpetuá-lo. não a ele que é uma merda, mas às memórias que andam a vagabundear pela casa nestas altas horas, abrindo e fechando portas e fazendo barulhos incomuns nos electrodomésticos. não tenho medo delas, não me assolam. convivemos no mesmo espaço mas levamos vidas independentes e respeitamo-nos mutuamente.

tenho cabelos por toda a secretária, em breve não minha mas da ironia do destino encarnada na sua personagem principal. eles irritam-me, precipitam-me sempre para uma desnaturada observação duma cabeleireira antiga, "acho que ao contrário do teu pai vais ter problemas com a calvície". já percebi, vem da parte da família da minha mãe não é? antes isso que os cancros e as mortes durante o sono, poderia dizer, para chocar e arrumar a conversa. os livros estão jogados pelo chão, assim fechados lembretes em vários contornos da minha construção lisboeta: incessante, errática, emocional. li poucos até ao fim, guardo-me para a monotonia da velhice. parece-me que a maioria das pessoas guarda dinheiro para a velhice, eu guardo livros, só preciso disso e da minha memória nos tempos mortos em que espero pela visita dos meus netos e a sua alegria contaminante. as viagens faço agora, enquanto posso usar livremente o maior instrumento que tenho, o meu corpo. até aos meus netos preciso de guardar os livros em espaços de esquecimento, tipo garagens ou dispensas. dentro duma caixa emprestada pelo Sr. Luís da mercearia, com a minha velhice. até lá não os quero ver mais, aos livros de Lisboa. uma gaveta com coisas: o 2-2 entre benfica e duarte gomes no antigo estádio da luz em 2001 - o último derby da catedral, o isle of MTV em belém com morcheeba e roger sanchez, a inauguração da nova catedral frente ao nacional montevideu, as finais da taça no jamor, o carl cox no pachá de ofir, as cartas de amor, todos os preciosos bookmarks de saudosismo que de forma habitual me convencem de que tem sido um percurso bonito e preenchido, mesmo durante períodos em que me deixei encegueirar pela ideia contrária. por indução imagino o mesmo para situações futuras. sucessivamente vou aprendendo por indução até que não me deixo mais envolver por ideias fatalistas e existenciais, independentemente do momento e situação. deslizo sobre a vida, sempre à tona de água, indiferente à minha condição humana. até ter que reabrir a caixa com os livros, isto é.

há pouco saí à procura de qualquer coisa, 2 euros no bolso e a convicção de que a iria encontrar, fosse o que fosse. acho que tinha sede, mas tenho a certeza de que não tinha fome. virei à direita e desci a rua. o mendes fechado. o que será que lhe aconteceu? uma vítima da irrascibilidade do tempo, sempre louco a caminhar numa direcção, e o resto que se foda. foi o mendes que teve que ir ao ar desta vez, por alguma razão. adivinhava-se. o ar resmungão não disfarçava as dificuldades, talvez financeiras. faz sentido, é a crise não é? os mercados entraram em colapso embora só se pudesse ver pela televisão nos telejornais. há umas cenas chamadas acções que flutuam de acordo com o princípio da oferta e da procura e que ditam se a vida corre mal ou bem aos seus próprios criadores. tomaram vida, essas acções, e agora insurgiram-se contra nós. é preciso controlá-las, senão ficamos todos pobres e elas levam o dinheiro todo para casa, pra comprarem bancos e seguradoras assim a pronto. (anda uma memória louca para entrar na cozinha, mas agora não pode ser). por momentos tive convencido que queria beber uma coca-cola no mcdonald's. já não me lembro se coca-cola ou mcflurry de M&Ms. sei que não queria de certeza um wrap, não tinha fome. agarro os 2 euros dentro do meu bolso e faço a ronda ao quarteirão. não preciso de nada, tou satisfeito fisiologicamente. vim dar um passeio com a minha namorada mas ela esqueceu-se de vir, ela que gosta tanto dos mcflurrys antes de ir para a cama. (esta memória lá na cozinha já me começa a assustar, eu que normalmente não me deixo assustar). vou para casa então.

uma janela aberta num 2º andar da rua da ilha terceira derrama luz sobre a lancinante apatia local, cortinas entregues ao vento veranista. hesito em ignorar o unívoco chamamento do espírito do bairro das ilhas. indelével mas enfraquecido, quase moribundo, com funeral já marcado nos calendários dos que o conheceram. respondo com o assobio, que serve para tudo, para a praia, para a noite, para a bola. já não me ouve, é normal, pas grave. aproximo-me para lhe lançar um último olhar, àquela janela num 2º andar da rua da ilha terceira; a personificação duma era, quando a vi, ainda no cruzamento; o símbolo da sua morte, ao perto, depois de me aproximar e perceber que agora estava vazia de alma.

vou para Berlim em êxtase emocional. não só porque aventuro-me no amor mas porque cumpro com aquilo que sempre prometi a mim próprio: seguir os ímpetos de felicidade e motivação, independentemente de se traçarem por caminhos menos percorridos. depois de 8 anos, e esgotadas virtualmente todas as experiências cá, só haveria um sentido de felicidade, Berlim é apenas uma direcção.

dito isto deixo Lisboa angustiado e rancoroso com o tempo. queria viver tudo outra vez, sem as partes más é claro, mas que aprendesse o que aprendi na mesma. não me é possível acreditar na forma como fui tratado por aqueles de quem me tornei próximo em Lisboa. imagino sempre ou que esteja a desvirtuar a minha memória num sentido artificalmente positivo ou que isto seja mesmo um campos show em que triliões de assinantes de redes quânticas de TV à volta da via láctea rejubilam ou choram com a minha vida, decidindo a cada início de semana o que me vai acontecer através de mega votações telepáticas. um universo benevolente este, nesse caso. de qualquer forma não consigo encontrar outra explicação para a sorte que tive em conhecer as pessoas que conheci, brilhantes cada uma à sua maneira, e tremendamente inspiradoras, até para um ser 0 kelvin como eu.

gostaria de me separar em dois. um pedro em repeat em Lisboa e outro em shuffle, à volta do mundo. um ipedro, portanto. mas se for para escolher, que se mude a música a cada 6 meses. é uma necessidade pessoal.

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