27 Setembro 2009, Berlim (the mauer park theme #7 - com um fim à jardel)

antes de mais serei breve (em ultima análise nao), encontrar o cardinal pro título do post tomou-me uma significativa fatia do orcamento no internet cafe. segundo nao consigo escrever o til, nem o acento circunflexo, nem c de cedilha. espero que isto nao seja tomado como erro ortográfico da mesma maneira que nao perceber turco é tomado como erro diplomático nesta parte do sul de berlim. portanto apelo a alguma inteligencia a mim próprio quando voltar a ler isto, daqui a bocado.

/ hoje tive uma alt ideia, fui ao grupo berlin no couchsurfing ver o que é que os tristes que nao conseguem comer conterraneas reservavam para poderem impressionar backpackers americanas de 19 anos e usei o mesmo peso e mesma medida com a minha namorada. assim, parece que uns rapazes da zona nordeste, presumivelmente um bairro alto com a área de lisboa (em espírito artístico, digo, porque as casas aqui sao diferentes, tem em média mais 2 andares e nao sao devolutas), organizaram um ProtestKonzert no mauer park porque diz aparentar que a junta metropolitana quer capitalizar em blocos de apartamentos o desperdício verde que é este parque. importa perspectivar sobre a génese do parque: há 20 anos, com a queda do mauro, os benevolentes políticos reunificantes(ores) concluiram após 34 plenários parlamentares que seria giro e mediático se se criasse um parque precisamente numa área em que antes este se impusesse. um bonito projecto que visava unir criancas ost/west (já tentado por mengele em auschwitz-birkenau) em fraterna amizade e aos saltos pela relva fora num bonito dia de sol enquanto os pais, cada um viajado no tempo dum dos lados da antiga barricada, suspiravam palavras de bondade reprimida pela saudosa cortina de ferro que separava autómatos às cores de autómatos vermelhos nos anos de ouro da geopolítica mundial. só falhou o bonito dia de sol, fenómeno climatérico que se dá com a frequencia de 5 dias por ano. dito isto, hoje esteve um grande dia de sol em Berlim, tanto no ocidente como no oriente, embora no ocidente ninguém tenha tido tempo para reparar.

/ depois de ir a uma garage sale em casa do Maurizio - um italiano que fala americano fluentemente e que está de saída para londres -, onde comprei uma máquina de lavar roupa (a funcionar) por 25 euros, fui ao KFC da Ku´damm (um diminutivo útil para o nome duma avenida com prai 50 letras) e comprei um balde de óleo vegetal com pepitas de galinha por 15 euros. parentesis para situar este espaco: a Ku´damm é basicamente a avenida principal de berlim ocidental, a avenida onde os soldados americanos se desfilavam em cadillacs el dorado com estofamento bege presenteando as fragilizadas e depravadas (passe a redundancia) alemaes com rajadas de M-16 para o ar, pulverizando todo o campo olfactivo feminino com testosterona V12 com dupla arvore de cames reduzida e extra mayonaise. 10 minutos volvidos neste clima historico vomito-me todo para cima dum miudo turco, que com 12 anos enumerava entusiasticamente os dez algarismos em alemao, a mae orgulhosa pelo grau evolutivo do seu micro homo habilis, que lhe vem permitir uma contribuicao precoce na contabilidade da mercearia do cla familar Emre, em particular na contagem das tamaras que o primo Gunkut rouba por dia.

/ dada a atmosfera otomana precipito a minha partida pro parque do mauro, porque há lá uns concertos todos alternativos as 16h CET e quero ver se os alternativos da alemanha sao iguais aos de portugal, porque se forem é alta coincidencia que alguem que queira ser alternativo acabe igual a outro alguem que tambem queira ser alternativo e para além disso é chato para eles próprios porque depois há a necessidade de se tornar alternativo ao alternativo e no fundo foi perda de tempo ter tomado aquele primeiro passo quando se tinha 15 anos e um amigo que fez um piercing.

/ agora aqui imagine-se que estou dentro dum comboio e é chato, portanto enquanto o tempo passa na verdade, duas consideracoes em escrita: primeiramente e em plano de destaque a felicidade pela origem díspar das línguas portuguesa e turca, uma particularidade historica que permite que saia deste internet cafe pelas minhas próprias pernas depois da estreita e conservadora observacao sobre as familias turcas. segundo, enaltecer a minha capacidade recorrente em furar o orcamento desnecessariamente e sem justificacao. escrever isto podia (deveria) ter sido noutra altura. and the beat goes on (na verdade gastei 4 euros para esta memória - o preco de 16 iogurtes no lidl).

/ mauer park fica convenientemente posicionado entre prenzlauer berg, a capela sistina da ironia que é o individualismo colectivo da berlim oriental, e wedding, um dormitório de ocidentais, um distrito com tanto de humano como o paulo portas, ou por outras palavras a odivelas de berlim - mas sem o diamante negro. para os conhecedores de coordenadas geográficas, fica no norte quasi-exacto de berlim, quase a um hemisfério de distancia da otomana sul. em Ku´damm estou no oeste puro, constato no mapa. este tipo de distancias só podem ser cobertas em tempo útil de vida viajando a velocidades próximas à da luz, vou ter que pagar 2 euros e 10 centimos pelo s-bahn+u-bahn o que em toda a justica nao é muito para se pagar para atravessar 134 estacoes ferroviarias. saio após 22 dias de viagem em eberswalder strasse:

/ se prenzlauer berg é a capela sistina da ironia que é o individualismo colectivo da berlim oriental, eberswalder strasse - uma das ruas deste bairro berlinense - é o templo de salomao. é pegar neste individualismo colectivo e capitalizar em euros. milhares de peregrinos mudaram-se para a interseccao entre eberswalder strasse e schonhauser allee numa plástica tentativa de se imiscuirem no culto original do individualismo colectivo. sao seres humanos que, nao sendo artistas propriamente ditos, aspiram a se-lo, e que, nao sendo acéfalos propriamente ditos, provieram distintamente dum. sao pessoas que nao se encontrando em lado nenhum juntam-se todas num bairro e compram tendencias que sugiram riqueza criativa como que sendo uma moeda de superioridade humana. talvez me deva mudar para aqui.

/ ciente de que nao tenho lugar numa estrutura social deste género, entrego por temor a minha mao direita à minha mulher, à saída da u-bahn. como um periscópio do submarino humano que sou espreito à volta com ainda os últimos degraus das escadas por conquistar e analiso toda a área circundante. o cenário é pior do que ao que eu imaginava: sou um indesculpável vulto, um ínfimo e triste quark num rico oceano molecular, um ponto preto no dalí citadino que é prenzl´berg. o abissal e óbvio desnivelamento intelectual entre mim e a restante populacao da área paralizam-me, é como que se fosse um engenheiro do isel num seminário no IST. agora, envergonhado por esta última analogia aflitiva abraco-me à ideia de que seria preferível nao existir. imediatemente e como consequencia imagino-me num comício duma jota partidária qualquer, o irreverente e literado em dois livros líder de ego inflamado e pullover nos ombros a mimicar o método de discurso rítmico dos seus ídolos partidários enquanto cospe a sua errática e oca retórica às centenas de ovelhas que encontram naquele pasto solucoes rápidas para o seu carecimento existencial, normalmente consequencia natural do fiasco social em que se traduz o seu exodo rural com fins académicos. ali serao alguém, na grande cidade tornar-se-ao políticos de carreira olhando pelos interesses da populacao. fiambre perna extra nobre. e o pai e a avó em viseu sem lhes caber um feijao de orgulho - "o meu filho vai mudar o país". afinal prefiro a inferioridade à inexistencia. de volta a eberswalder strasse.

/ conformo-me com a minha condicao mas logo de seguida a visao deprimente de todos os semelhantes masculinos a andar de bike e só eu e as gajas a andar a pé alarma-me. nao posso nesta altura e lugar ter lapsos desta natureza. ignorando qualquer premissa ou suporte lógico concluo cegamente que economicamente, financeiramente, socialmente, sexualmente, culturalmente, ecologicamente e politicamente é a solucao final. "tenho de comprar uma bike" repercute-se em sentido ascendente pelo meu escroto, penteando gentilmente os meus generosos pelos púb(l)icos dessa zona biográfica do meu corpo e electrizando-me o cerebrelo ao culminar no meu freio danificado por anos de tortura sexual. sou catapultado para uma nova dimensao de estatuto: após adquirir bicicleta serei efectivamente um cidadao dum país vastamente superior àquele em que tive a infelicidade de nascer, mormente pela maneira como acabei sendo: um complexado.

/ mudo o andar para um andar mais carregado e moroso, arqueando os bracos como todos os 5 obcecados pelo culturismo do holmes da defensores de chaves faziam entre o chest press e os halteres só para pros como eles. este simples gesto torna-me agora mais másculo e confiante e assim sucessivamente em ciclo redundante. estou pronto para entrar na zona de guerra multicultural que é aquele concerto de protesto no mauer park de berlim.

/ a pluralidade de personagens cómicas nao é contável. há dias várias vezes tava na mesma situacao: o que vejo agora deveria ser partilhado com outros que gosto mas é incontornável que seja impossível transmitir toda a envolvencia per se: tantas vezes me desiludi com a magra reaccao a fotos e videos que iludido calculei que serviriam de bom suporte de contextualizacao. transmitir a mim próprio nesta frase que foi diferente e se calhar é o suficiente para deslizar para este domingo à tarde em berlim outra vez, no ano de 2009, no princípio de quando eu supreendentemente sem dor troquei tudo na minha vida, menos o meu clube. "troca-se de mulher, troca-se de partido, troca-se de sexo mas nunca se troca de clube" serviu-me de guia, um taxista do benfica dixit para um documentário da ESPN.

/ há um anfiteatro em comocao, milhares de figuras a que se pode grosso modo chamar pessoas aplaudem e esbocam sorrisos colectivos - um forte efeito sonoro metálico de fundo produzido como efeito. a razao do agitamento um desalojado que cantava - popularmente o que é entendido como - frank sinatra i did it my way em jeito de karaoke, a letra da cancao desviada para uma versao pessoal em alemao. à primeira vista teria dito que era tipicamente o único indivíduo com menos hipóteses de brilhar que eu naquele destacamento caleidoscópico. nao obstante, corajoso e desafiador, relatava a plenos pulmoes a simplista história da sua vida a uma plateia com percursos vastamente distintos ao seu, e esta respondia com entusiasmo e interesse pelo interlocutor radicalmente antagónico ao post-punk, trash e death metal que em parte motivara toda aquela mobilizacao. um cenário de humanismo enternecedor - ou entao tava tudo mamado. afinal os alternativos da alemanha sao diferentes dos alternativos de portugal no sentido em que nao restringem pretensiosamente a sua interaccao biológica a seres no mesmo estágio de evolucao superior em que se encontram. sao como sao e pronto, parece.

/ esta é a berlim que rapidamente se me tornou familiar. na verdade nao interessa em que página alguém está no catálogo. just do it your way. e ele fez. e brilhou, onde nunca brilharia em situacao alguma, em frente a punks, okupas, antifas, sharps, red skins, skins, góticos, hippies, metálicos. há qualquer coisa de humana nesta desordem berlinense, há um cosmos de tolerancia e compreensao neste caos urbano industrial, afinal de contas trata-se duma cidade com perto de 30 por cento de desemprego e tao todos na mesma luta, este, oeste, norte, sul, yuppies ou skins, um corajoso desalojado com 40 anos de ruas de berlim ou um puto tuga com 26 de suporte financeiro paternal, atraído pela decadencia do submundo da grande metrópole da moda.

/ e no fim o puto se calhar acaba a cantar como o velho do mauerpark, desalojado e encharcado em alcóol, soturnamente autoconsciente mas cagado demais para nao adiar a solucao para outra oportunidade. ou idealmente - à luz do arrogante julgamento social - o puto acaba de fato e gravata a prestar vassalagem a um superior hierárquico que governa um terco dos seus dias de vida, de volta a casa uma vida estável para ensinar súbditos a tomar todas as decisoes contrárias às que tomou e passou mal. seja como for terá sempre como subterfúgio o luxo da liberdade que as circunstancias da vida lhe concederam e que me parece que deva aproveitar. daqui a 40 anos, como o frankie blue eyes no new york city hall em ´67 ou o velho desalojado no mauerpark em ´09, o puto que nao fez as coisas quando devia fazer pode levantar a cabeca perante uma audiencia contrastante e cantar orgulhosamente: i did it my way.

1 comentário:

Anónimo disse...

Mesmo a propósito, uma notícia do Diário de Notícias de hoje:

Alemanha
"Árabes e turcos só servem para vender frutas e legumes"

Thilo Sarrazin, conselheiro do Bundesbank, Banco Central Alemão, acusado de xenofobia

O Banco Central Alemão, uma das instituições mais conceituadas e respeitadas em toda a Alemanha, viu-se subitamente envolvido numa polémica sobre xenofobia, depois de um dos seus conselheiros, Thilo Sarrazin, de 64 anos, dizer "que os imigrantes árabes e turcos não têm qualquer actividade produtiva que não seja a de vender frutas e legumes".

Num comunicado pouco usual à imprensa, o governador do banco, Axel Weber, admitiu que as afirmações do conselheiro causaram "dano à reputação da instituição" e pediu, indirectamente, que Sarrazin solicitasse a demissão. Weber não pode demiti-lo do cargo. Apenas o Presidente, Horst Köhler, que foi quem o nomeou, tem plenos poderes para o fazer. Até agora, o chefe do Estado alemão não quebrou o silêncio para fazer qualquer comentário sobre o caso.

Numa entrevista publicada pela Lettre International, revista cultural da cidade de Berlim, o controverso antigo ministro das Finanças da cidade e do estado-federado de Berlim declarou que "70% dos turcos e 90% dos árabes de Berlim não querem saber de educar os seus filhos e a única coisa que sabem produzir são meninas de véu".

Sarrazin sublinha que "40% dos nascimentos em Berlim acontecem na classe baixa". O que, segundo ele, mostra como "os turcos estão a conquistar a Alemanha com a sua taxa de natalidade". O conselheiro do Bundesbank, nomeado este ano para o cargo, justifica com esta teoria "o facto de a população alemã ser cada vez mais e mais estúpida".

O responsável alemão vai mesmo ao ponto de afirmar que prefere imigrantes judeus. "Seria mais feliz se fossem os judeus da Europa de Leste a virem para cá, pois eles têm uma inteligência que é 15% superior à dos alemães".

A reacção da comunidade turca na Alemanha não se fez esperar. "Estas afirmações são próprias de membros da extrema-direita. O senhor Sarrazin não pensa no impacto das suas palavras", declarou o presidente da Comunidade Turca na Alemanha, Kenan Kolat, citado pela agência DPA.

Também o Partido Social-Democrata, a que pertence Sarrazin, condenou as suas declarações e indicou que está a ponderar expulsá-lo da formação. A procuradoria-geral indicou, por sua vez, que ia estudar se foi ou não cometido crime de incitação ao ódio racial.

A Alemanha é um país com quatro milhões de muçulmanos, muitos deles descendentes dos turcos que ajudaram a reconstruir o país após a Segunda Guerra Mundial. Chamavam-lhes os "trabalhadores convidados". A chanceler alemã, Angela Merkel, é abertamente contra a entrada da Turquia na União Europeia.