antes de mais, para efeitos de registo quero deixar claro que por escrever apenas sobre um ou outro título não significa que venha recentemente a empobrecer a minha cultura porque ela me chupa o tempo todo (inteprete-se de forma livre). se serve de alguma coisa, aqui provo-me. à primeira vista pode-se discutir que hajam demasiados 10es na lista, normalmente representativos do paradigma de "filme perfeito" e eu passo a explicar: a razão é que eu é que dou os 10, e é aos filmes que me apetecer.
grosso modo para mim todos os filmes partem do 10 porque cresci na madeira. tem a ver com a expectativa média de vida. alguém que tenha nascido vamos lá no cacém tende a considerar todos os filmes partindo do 0 e ganhando pontos de acordo com o número de explosões e tiroteios. eu não, fui criado a esperar o bom das pessoas e a valorizar conteúdo antes de forma e isso faz de mim um intelectual ingénuo. em consequência, abomino o género acção e só como a tosta mista do chapitô. acção é um género sem nexo e previsível, é como que ir a paris e ir visitar a torre eiffel, ou o louvre. qualquer um pode fazê-lo e só por isso a mona lisa é insípida. mas se formos à mata de boulogne digamos, teremos oportunidade de conhecer e trocar impressões com artistas do mesmo gabarito. melhor ainda se formos a tashkent em vez, ignore-se a merda real que é. no fundo um bom conhecedor sabe que a qualidade duma obra das artes não se resume à sua execução propriamente dita mas também tem a ver com a sua vulgaridade. por exemplo eu acho que os the killers eram muito melhores antes de existirem, porque não eram conhecidos. ouvi uma demo tape deles antes de lançarem o album que era do melhor mas agora que lançaram estes albums tão muito comerciais. o mesmo se passa com nitin sawhney. sempre o achei muito melhor antes, quando ainda pensava q era uma gaja.
da mesma maneira, whatever works, por ser do woody allen - e consequentemente não extremamente popular-, parte não do 10, mas do 11. por defeito filmes do woody allen são dum processo aritmético complicado: o 11 vem de 10 + 2 (influência do pat) + 1 (bonus hipocondria) + 1 (bonus incesto) + 1 (bonus intelectual) - 4 (minha mãe). a influência da minha mãe é particlarmente pesante. ela abomina woody allen sem justificação pública. há um amigo dos meus pais que parece o woody allen inclusivamente todos dirigem-se a ele por "o roberto, o woody allen". ele tem uma pizzaria no centro do funchal.
a influência da minha mãe é pesante e vale 4 porque ela não gostando de woody allen metia-me os dedos na garganta sempre que dava o manhattan na rtp madeira todos os meses, como treino subliminar. depois de ver o laranja mecanica percebi donde proviera a sua influência comportamental. a programção de mente fez com que hoje fique nauseado nos 10 primeiros minutos de cada filme do woody allen, aliás pode acontecer ocasionalmente que regurgite para cima de anões de óculos como efeito secundário.
do que trata whatever works?
quando eu tinha 7 anos vivia num prédio devoluto, onde passava os dias a jogar num ibm 286 com monitor CGA e sem disco rígido, para me distrair das baratas e aranhas que sobrepopulavam a casa. metia uma disquete com o ms-dos 5.2 para arrancar e depois metia outra com jogos cheios de vírus como o keypress ou o barrotes mas era na boa porque o meu tio passava sempre lá depois com o norton anti vírus noutra disquete e salvava-me o computador. no meio dos vírus havia um jogo de basket que era o lakers vs celtics - curiosamente das 4 cores que o monitor CGA suportava não havia amarelo nem verde (a ver - rosa, branco, preto e azul marinho).
enquanto o circo diário da professora São a largar vergalhadas de frustração na ana catarina - a aluna largamente mais burra da turma 1 da escola do ilheus - se repetia, só pensava em chegar a casa e ser campeão da NBA com os lakers, no nível mais díficil e com 12 minutos por período. o lakers vs celtics, era, para mim, tudo na vida. como consequência chegava a casa todas as vezes em êxtase com a oportunidade de voltar a jogar, abrindo portas dos carros em movimento inclusivamente levando a que fodesse uma porta dum toyota corolla vermelho da minha avó contra o pilar da sapataria chloé do outro lado da rua.
isto repetiu-se durante várias semanas até que começei a perceber o padrão. chegava a casa, passava a tarde a jogar, ia tomar banho puxado pelas orelhas, ia comer sopa de agrião com o rabo em brasa das palmadas e ia me deitar sem sono e a imaginar a hipótese dos meus pais serem extraterrestres não sei porque. ora isto levou a que começasse, gradualmente, a desvalorizar o lakers vs celtics. De cada vez que começava a jogar, à medida que ia fazendo triplos com o james worthy e afundanços com o magic johnson já não rejubilava mas ia sucessivamente me oprimindo as emoções, sabendo de que, no final de contas, de nada serviria, porque o lakers vs celtics ia acabar todos os dias quando eu fosse tomar banho, comer e me deitar sem sono. acabei com a minha primeira depressão existencial, aos 7 anos, o que explica as conversas do meu irmão de 8 com os amigos. apercebi-me da efemeridade do lakers vs celtics e acima de tudo na falta de sentido que fazia me divertir no computador - e mais tarde me divertir em geral.
larry david, em whatever works, sou eu aos 7 anos, e a sua vida é o meu lakers vs celtics. um espectador que não vá embora desiludido com a repetição temática de woody (vulgo um apreciador) é carregado numa viagem existencial antiga em que a mensagem será que em última análise, sabendo-se que tudo é finito, deve-se optar entre a alegre aceitação do facto - como faz a gaja do mississipi que ele come sem explicação - ou a irrascibilidade infinita sobre a condição humana - representada aqui pelo larry. é uma dicotomia já vastamente explorada em várias artes desde a incepção do modernismo e para dizer a verdade nem é feita de forma muito subtil nem particularmente elegante mas talvez essa não fosse a ideia - de qualquer forma gostava de ter visto qualquer coisa pintada de fresco, como vi em vicky cristiano ronaldo barcelona, mas nada: o plano de fundo pinta-se com a dualidade ignorância e alegria vs conhecimento e renúncia. woody allen ia ter gostado muito de conhecer o pessoa. aliás grande tótó não ter feito um filme em lisboa baseado no pessoa. podia até ter pescado mais uma "filha adoptiva" na casa pia.
posto isto confesso em mensagem pessoal que "não gostei da meia superficialidade da obra woody, não gostei mesmo, és gajo para mais mas não desanimes. de qualquer forma terei que te penalizar fortemente por esta falha de profundidade no argumento. tens de ver o synecdoche e só daqui do parágrafo anterior levas -5 pontos, e vais com 6 pontos por agora."
mas bolas estarei a ser demasiado intelectual, demasiado enfadonho, demasiado crítico de cinema? sim, e por isso já bolsei duas vezes. whatever works é também feito de coisas bonitas e médias que passo a destacar:
- enaltece o amor indiscriminado e incategorizável entre pessoas, como a woody ele próprio até lhe convém transmitir. (+1 ponto)
- o larry não tem de interpretar papel nenhum e portanto é um personagem crível e sólido (+0,5 pontos)
- a scarlet tem um historial de personagens tão sofisticadas que não lhe cabe um papel de miuda do mississipi e então fez-se casting para uma nova. a nova não tem mamas nenhumas mas mesmo nenhumas caralho até faz impressão mas fica boa com calções justos. por outro lado é uma puta do caralho em se deixar ludibriar por aquele actor no barco. finalmente cabe dentro duma das mamas da scarlet. (+1 opção de elenco -1 opção de elenco e portanto 0 pontos)
- recurso repetido à relação a três - ou uma tentativa de apelar a muçulmanos e mormons ou uma tentativa de woody em preparar o mundo para o que aí vem em termos de vida pessoal. (+1 pontos, porque irrita os cristãos)
- caracterização da relativa imprevisibilidade do mundo e da volatilidade psicológica humana: NY muda tudo e todos invariavelmente, e seja o que fores agora sabes que quando chegares lá serás o exacto oposto, porque vives reprimido pelos valores que te plantaram e lá podes ser o que quiseres, ou seja, antágonas. (0 pontos, temática divertida)
isto tudo somado faz do filme um filme de nota 9 o que só por si não me sinto bem em dar, porque não gostei 9 do filme de certeza. contudo tenho notas de carácter pessoal para acrescentar. eu não gostei um bocado do filme pois me fez regressar àquilo que já soube mas esqueci-me, que é de que algum dia a faye vai perceber também a dicotomia entre namorar com um palhaço por história e ter conhecido um gajo de jeito numa disco, ou num flea market por exemplo. e aí espero que quando eu me jogue pela janela também aterre directamente sobre uma gaja esotérica porque depois desta só quero gajas bué estranhas e inclusivamente vou conceder chances a gordas. (-2 pontos)
é um filme de 7
1 comentário:
Apesar de ainda nao ter visto, fiquei curioso de ver! Quanto à nota! Nao concordo com o ponto negativo pela scarlet nao estar!
ela esta cheia de guito e o gajo quer dar a hipotese a outra! a mim parece-me bem!
Quanto as mamas dela... quando ela tiver dinheiro trata disso , mas antes tem de fazer um filme! :D
como tal e por ele lhe estar a dar a oportunidade de ela ter mamas, acho que deverias dar um ponto positivo em xx de negativo!!
abraço
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