become a leg end #2 - o futebol e a cidade

Manhã chuvosa em spandauer damm, nevoeiro a desbravar as almas dos lions: um cenário idílico para herois. Quando há bola e chove lembro-me sempre duma vez que joguei na escola do ilheus aqui debaixo. Fiz o melhor jogo da minha vida, a número 10, debaixo de chuva torrencial. Completei um poker de golos e de assistências e usava a camisola 25 do sporting, na altura a camisola do grande artista o john chick (ainda hoje verto uma lágrima de culpa todos os dias antes de adormecer). Pokeralho com a chuva também, não servia os meus intentos, porque as gajas do 12º B que tavam lá quase não me viam. o meu ponto forte sempre foram as pernas, talvez por isso tenha ao longo da minha vida as metido regularmente pelos braços.

Mas esta era a única camisola que o meu pai tinha e as minhas t-shirts tavam todas pra lavar, era entre usar camisa dir à missa ou sucumbir à blasfémia clubística e foda-se verdade seja dita prefiro muito mais o sporting à igreja católica. A do porco já nao usava sobre a católica, embora admita que pudesse vir a usar sobre a dir à mesquita. porque o islao é terrorismo e estao-se a multiplicar na europa e é necessário acabar com a cruzada inversa com boicotes - o kebab de ressaca pode esperar até inventarem um de saitã. o desprezo pelo porco é mais por razões ideológicas logo superfluas mas ainda assim se nao vivemos por ideias e convicções, somos o q? niilistas o q? deixem-me rir-me. o culto do Nada é imaturo e é em si uma crença, palhaço. Depois falamos sobre isto.

voltando a hoje de manhã, falamos do regresso à competição depois de 3 meses de neve em que me desloquei zero vezes ao nosso campo para ajudar a limpar o relvado artifical. Mais cedo durante esta semana tinha sido alertado para o facto de agora me encontrar na equipa B. talvez ligado ao vermelho directo na minha estreia pela A embora pessoalmente relacione à minha triste forma física, passível de análise terceira por dedução estética. Neva never e nevah e um sente-se na obrigação de permanecer em casa abrigado, e porque não, a comer currywurst regado com uma ou tres medidas de cerveja e para além disso a idade, tempo e lugar não perdoam. Há um triangulo geográfico fodido com 300 metros de hipotenusa e a minha casa como vértice ocidental. Eu tenho 26 e daí desorienta-me da verdade e temo por mim e por elas. Estoy encurralado das freiras.

O alerta de relegação em si foi dado de forma profissional pelo gaffer: encontramo-nos por acaso no u-bahn e ele aproveitou pra me informar com um ar pesado que teria que me passar para a equipa B e eu desatei num pranto mas compreendi. Totalizei 3 minutos nas leoas britanicas equipa A mas fiz história. tenho talvez o melhor rácio tempo jogado/acções determinantes no percurso do/dum clube à excepção do Tahar El Khalej, esse colossal espírito beduíno que parou 3 anos ou cena assim no bairro de Benfica de lisboa. Atenção não confundir beduíno com muçulmano ou sarraceno pois é grave.

Já não sei como começar parágrafos e não consigo me lembrar se tem havido ligação mas aqui quero recomeçar a história pela 3ª vez, mas agora por outra perspectiva. Desta vez não a contextual mas a minha. Voltemos à manhã chuvosa que baptizava a minha estreia na 2ª equipa e eu a andar pela vereda de 10 km que separa a estrada do campo de futebol e a pensar "Com um caramba alta molha devia ter trazido o casaco que uso sempre mas que deixei em casa porque achei que mandava mais cenário vir de kispo de verão", "Eu venho da primeira equipa", "É claro que tenho outro estatuto dentro do plantel". Às vezes deixo-me levar por pensamentos de honestidade mas depois tenho flashbacks fodidos que me trazem para valores morais e fair play em geral, entre outras paneleiradas. Sendo assim hesitei nestes pensamentos ainda agarrado à minha ombridade por um instante (estimativa mais recente dum instante é 10^-44 segundos - verdade) mas a balança desequilibrou quando pensei no que o cr9 faria. É preciso não só se ser como parecer sobreconfiante para se jogar do caraças. Assunto encerrado por hoje, amanhã reavaliamos.

Antes já tinha chegado à mesma conclusão, quando também desprendido de valores obsoletos libertei-me em rateres assinalando o meu comportamento laxista, dando-me ao luxo gonzalez de ficar na cama amena com a minha esposa mais meia hora a tentar o sexo sem sucesso. É um exercício mor/morbidamente deprimente o de simular afecto para obter libertação testicular. Com a idade, contudo, vamos aperfeiçoando esta técnica de limpeza a seco, e aos 40, no auge da carreira, o verdadeiro másculo necessita apenas de acariciar o cabelo da donzela pra lhe derreter a cueca de seda (xi pá, de repente fiquei duro, na minha prosa). Porque aos 40 as gajas têm que apostar na boa cueca pra compensar as peles e orgãos descaídos. Os gajos, em vez, ganham charme e torna-se exercício cada vez mais fácil comer uma gaja à pala disso. Importante reflectir sobre o ponto de intersecção entre subida de charme masculino e declínio físico feminino. Conta feitas grosso modo apontaria prós 35 como boa altura pra aplicar charme nível 7 a gajas ainda a 80% do seu máximo de boas e que aos 25 nos 100% não havia hipótese.

Ainda com a mente infestada por fantasias que, em toda a honestidade, perfumaram uma viagem doutra forma chata porque se trata de atravessar o ocidente de berlim, apareço pró jogo só para o warm up, kitado com tomates a transbordar, já depois do pre match team talk. Se alguém me desse um toque (vamos supor fortemente que involuntário) na tomateira, eu entrava em repuxo, revelando surpresa ao perpetrador. o Ronaldo o fenómeno defendia que de tomates cheios não jogava nada, isto assolou-me durante o aquecimento quase todo e prometi a mim mesmo tentar fazer a faye se sentir culpada se jogasse só bué bem, portanto um nível abaixo do habitual do caralho. Mas ainda enquanto entrava balneário adentro sempre perdido no caldeirão hormonal em que a minha suposta parceira sexual me abandonou, a equipa já se transladava na mesma direcção mas em sentido oposto. O Kev, o treinador da equipa B, é o último do comboio e intercepta-me mesmo à porta - a mim e aos meus pensamentos, pelo que ambos os 3 nos surpreendemos com o timing. "chop chop, get your kit on, let's see if you still get to play some minutes on the second half".

Se soubesse que tava a ser filmado ou que iam fazer uma biografia de mim no futuro tinha feito um 180º kickflip e tinha lhe feito chop chop aos braços. Mas eu só sou delusional e tenho me vindo a convencer que levo uma vida normal igual à dos outros. Optei pelo jogo seguro e permaneci humilde por fora pra fingir que tou ali pela causa. Afinal de contas é o que todos os outros 150 jogadores de 173 nacionalidades diferentes da equipa fazem. E se pensarmos mesmo bem já é do caralho um gajo da minha craveira ser humilde, ainda para mais se vier duma situação que me poderia permitir, à priori, me descair para a arrogância, como o facto de ter vindo da equipa A. Isso torna tudo ainda mais impressionante se eu for humilde. Tipo contra todas as adversidades, com todos os pontos a meu favor, sempre me pautei pela humildade e lealdade. A braçadeira é minha em 6 meses. O primeiro capitão português na história do clube.

Apesar da minha linha de pensamento nobre sou deixado no banco. Não foi suficiente não ter disputado a ousada tirada do treinador. Fico a aquecer com cara de gozo na linha. Sinto-me um exemplo pros miudos que cercam o campo em admiração pelos deficientes que tao em campo e que secundariamente sao meus companheiros de equipa.

Aos 20 minutos comemos um golo merecido. Chupa coach. Engolir zapens em britanico diz-se substituição ao intervalo e eu a meio campo por imposição própria: "where do you play Pedro?"

- "I play in the middle of the park" - se o clooney fosse portugues, jogasse à bola, tivesse a estudar há 8 anos sem acabar o curso e tivesse emigrado pra berlim por causa duma gaja (*sigh*), era tipo eu a dizer esta frase.

"you're playing center midfield, so today YOU are the game" ok jonathas, se os anormais dos meus amigos de portugal ouvissem isto descascavam-se a rir, envolvem-se na convenção de que eu sou um inútil em qualquer posição que não defesa central porque não sei fazer o 31. ursos: no campo como um jogador do inter - exibição esforçada, de brio, garra, determinação e porrada pra caralho, o heroismo da pluviosidade revisitado. parece que tamos tipo num filme não é malta caracas? HEHE!

e como os filmes nos ensinam há os bons e os maus. eu curto ser dos maus pois manda cenário mas sei que eramos os bons porque demos a volta ao resultado e os cowboys ganham sempre no fim.

no balneário o afecto e carinho habitual entre todos com duas surpresas de consequências variadas. um mix de emoções: a primeira com a vinda da minha unha do dedo grande do pé colada à meia, a que já me referi ultimamente; a segunda a exigência fetiche do coach por eu ter chegado atrasado: o castigo: cantare, eis o diálogo em rigor:

"Wait, boys, don't go yet. Pedro has to sing cuz he came in late."

- "Are you for real?"

"Yes, you show up late you sing, it's written in the forum"

- "ok... any special requests?"

[várias sugestões de musicas gays tipo dancing queen etc]

- "Wait, can i sing one in portuguese?"

"Yeah it's alright"

momento avassalador no meu tempo e memória, acumulação e descarga bruta de toda a emoção que é fazer parte duma história lendária que agregou uma sociedade duma ponta à outra, voando sobre glória e fracasso, forçando extase e desilusão, manipulando amor e ódio. Desde os 3-1 de highbury park em 91 que sonhei um dia cantar com 90 mil pessoas no mesmo lugar a apoiar este ideal. o fdp do barcelona tem o lema més que un club político mas o mais que um clube humano é o sport lisboa e benfica. um dia acabei por cantar com 90 mil por um amor invisível e platónico (o mais puro!) mas neste dia, pela primeira vez, tive a oportunidade de declarar o que sinto por um clube de olhos vendados, no escuro, sem a menor intenção de ser apreciado, sem esperar que alguém perceba sequer o que tou a fazer. Eu não canto nada, e eu não sei me comportar em grupos grandes, mas neste dia cantei para caralho. Desde o "Yeah it's alright" enchi os pulmões até ao limiar da capacidade como quem enche uma vida com orgulho. Em Berlim, por volta das 15h do dia 20 de Março de 2010, dei continuidade à lenda:

"SOU DOOOOOOOOOOOOOOOO BEEEEEENFIIIIIIIIICAAAAAAAAAAAA E IIISSOOOO ME ENVAIDEECEEEEE, TEM AAA GENIIIICA QUE A QUALQUER UM ENGRADECE... SOU DUM CLUBE LUTADOOOOOOOOOR, QUE NA LUTA COM FERVOOOOOOOOOOOR, NUNCA ENCONTROU OUTRO IGUAAAAL, NESTE NOOOOSOOO POOOOOORTUUGALLLLLL (...)"

no fim standing ovation e respeito: eu tinha acabado de representar 106 anos de glória reconhecida globalmente.

1 comentário:

Ana disse...

Ahahah o Luís Piçarra com as suas papoilas saltitantes a entoar no estádio não teria feito melhor!!