Cheguei ao mesmo tempo ao elevador que um colega de metro e 90, cabelo comprido, óculos fundo de garrafa, mochila às costas e ainda equipado com o capacete da bike - um indíviduo de estética invulgar no limiar do geek.
chamo o elevador e adopto postura de espera tranquila, a simular indiferença à situação marginalmente desconfortável que me é sempre que tenho obrigatoriamente que partilhar um espaço com um desconhecido, evitando troca de olhares, esperando que não enveredem pela small talk etc
Ele não: posiconou-se num ângulo de 60 graus relativamente à minha esquerda e concentrou todos os sentidos em mim de forma clara e aberta, sem reservas.
Retribui-lhe com um leve scan visual, desviando os olhos na direcção dele por uma fracção de segundo, só para verificar se de facto eu era o alvo da atenção toda. Era, ele tava com a cabeça toda inclinada para a frente, incrédulo e perplexo, a olhar para mim.
Recuperei o olhar de volta ao default, para o infinito, mas continou a me parecer que ele insistia em me dizer qualquer coisa. Contei até 3 e olhei outra vez para confirmar. Ya, confirmado - não aguentei mais: abri hostilidades contra a minha vontade:
- "Do I look familiar?" em tom tranquilo, como se o que se tivesse a passar fosse normal
"No."
O elevador chega e entramos
"It's just that..."
"Have you watched Star Trek?"
- "Yes..."
"Second season."
- "Sorry i'm not a big fan, only watched a few episodes"
"Right. There's this alien race on second season, it's called Bejklbu (?) and you see, they can...."
- "Yes?"
"They can read each other's minds..."
Chegamos ao meu andar mas ele continuava. Tava a lhe conceder toda a seriedade do mundo, mas nao evitei um sorriso de despedida.
Quando saio e me despeço ele toca-me no ombro, eu viro-me e ele diz em tom profundo:
"And they trust each other too" e pisca olho.
Sem comentários:
Enviar um comentário