24 de Maio de 2010. 2 anos e meio para o fim do mundo mas Pedro Campos aparenta serenidade. Sentado - quase deitado - no sofá azul que contrasta com o vermelho predominante do seu estúdio em Berlim, responde às nossas perguntas sem urgência, de forma pautada, suportado pelos 27 anos completados hoje e que lhe oferecem destemor ao limbo consciencial que conhecemos como existência. É hoje um semi-adulto com ainda várias raízes juvenis mas prefere não as confrontar, defende que são "résteas de humanidade" que ainda se pode dar ao luxo de manter numa civilização "em ruptura com as suas bases". Para ele aproximamo-nos dum importante ponto de viragem, "nos próximos 100 anos haverá uma renovação do paradigma, quer se queira, quer não", mas por agora "devemos nos concentrar no que é mais importante localmente". O macro e o microcosmos, aos olhos dum dos jogadores de futebol mais celebrados da Verbandsliga Berlin.
Mudou-se para Berlim no final do ano passado em circunstâncias incertas. Especulou-se que tenha sido uma mudança de ares motivada meramente por razões futebolísticas, que procurava um novo desafio no estrangeiro. Encontrou esse desafio?
[risos].. A especulação existe primordialmente porque não se conhecem factos... a verdade é que não houveram factos, foi uma opção pessoal e com isto quero dizer que não fui motivado por nenhuma linha convencional de raciocínio. Não houveram premissas. Ou se houveram, equilibravam-se na balança da decisão. Eu próprio especulo sobre o que me levou a tomar esta direcção, particularmente pela sua característica irredutível. Hoje acredito que vim porque sim, queria um novo desafio. A minha carreira, depois de duas dezenas de meses em ascensão, estagnou. Eu não me sinto bem com a estabilidade, é me inquietante, fico ansioso por eventualidades. Parti sabendo que teria que trabalhar muito para atingir os níveis exibicionais que vinha a apresentar em Portugal, mas felizmente sinto que estou próximo de o conseguir. E foi realmente um desafio, continua a ser, no sentido em que diariamente sou levado a lidar com situações que desconhecia da minha vida prévia. É uma questão de adaptação acima de tudo.. e nós humanos subestimamos a nossa capacidade de adaptação, de aprendizagem, de progressão na adversidade. É por isso que muitas vezes encurralamos os nossos ímpetos e sonhos com decisões confortáveis, e o Mundo assim torna-se mais pequeno...
Mas nem todos os ímpetos serão benevolentes..
Naturalmente que não... em abono da verdade este ímpeto de vir para Berlim tinha implicações trágicas do ponto de vista teórico. O alongamento do percurso académico, já de si suficientemente distendido nesta altura, a dificuldade em arranjar trabalho numa cidade com 20% de desemprego e a capitulação social lisboeta e consequentemente pessoal sugeriam precaução na forma de agir... e quando cheguei cá senti tudo isso a me subir à pele, mas já esperava tudo, tava preparado, nada me surpreendeu. Vivi numa situação precária do ponto de vista financeiro, social e emocional durante um par de meses mas depois fui afortunado na forma como acabei por emergir... Mas voltando aos ímpetos, é uma questão humana. Devemos tentar, pelo menos tentar, o que desejamos, mesmo quando o caminho é pouco claro. É importante espiritualmente que se explorem possibilidades, e para isso também é necessária também uma certa dose de egoísmo.
Nessa altura, pensou voltar?
Não, nem por sombras.. felizmente a situação nunca foi insustentável.. ao cabo de dois meses começava a sentir os primeiros sinais de stress, mas ainda tinha largos meses de luta para dar naquelas condições.. ainda nem tinha entrado na fase que considero ser a da mais absoluta demonstração de cáracter humano, a fase de perseverança, a fase em que independentemente de se ver ou não uma saída para a teia de problemas em que nos encontramos, se continua a remar cegamente contra a maré. Mas eu não tenho por hábito tomar o caminho mais fácil e isso também é determinante quando lido com situações menos boas.
Considera-se, então, um lutador?
Todos temos potencial para lutar. Como já disse subestimamos as nossas capacidades. A algumas pessoas faltam oportunidades de lutar, e quando digo isto refiro-me à possibilidade que têm de escolher.. quando se pode escolher entre lutar ou não, é uma questão de personalidade. Mas quando a luta é estritamente necessária aí somos todos lutadores. É uma característica inata, animal, é um processo instintivo. É claro que quem escolheu lutar em oportunidades prévias vê-se com mais ferramentas para contornar a dificuldade inevitável, mas até o mais aparentemente frágil espírito encontra força e habilidade para melhorar o contexto, em caso de necessidade. Dito isto, na nossa civilização corrente em particular, por causa do sistema altamente competitivo vigente, é importante ir à luta, tomar a iniciativa, para sobressair. Mas nem sempre é confortável, e então muita da ambição nas gerações mais jovens é cortada pela raíz com as dificuldades que se impõem para entrar no mundo adulto.
Inclui-se nesse grupo cuja ambição sofreu com a resistência do "sistema"?
..[longa pausa]... perdi muita da minha ambição em lutas que estavam condenadas desde o início. É também importante se saber escolher as lutas. É desgastante investir recursos emocionais em batalhas que em retrospectiva acabam por ser ingénuas... hoje estou confortável na ausência de grandes responsabilidades. A ambição pressupõe sucesso e o sucesso tem a responsabilidade como apêndice. Quero independência, possibilidade de livre arbítrio sem reflexo num espelho social que se habitua a convencionar o que é esperado de nós. Resisto à responsabilidade da mesma forma se calhar que uma criança que foi abusada sexualmente resiste ao sexo na sua fase pré-adulta. Estou talvez traumatizado.
(...)
2 comentários:
entrevista do crlh... já podes ir aqueles programas de estrelas, em que dissecam a vida deles, entrevistando-os :P
se eu te visitar, orientas.me "o comprimido" que tomas-te antes de escrever esta hilariante entrevista!
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