spoiler traseiro #3 - enter the void

"entra no buraco" nao é propriamente um filme, é uma experiência de vida, mas já estraguei o filme, não era isto que queria fazer.

Malta que tenha piercings no sobreolho ou na língua que substitua a palavra _piercing por _boné ou _orelhas_do_mickey [lady gaga] - o ónus aqui é pra meter no cú dos hipsters (+ tudo o resto que ainda caiba). Para que conste na acta, eu curto bué piercings em gajas, e músculos em gajos.

o filme começa com um ambiente hipstéreo, de grande entre orgulho independente e cicatrizes labiais a assinalar recente progresso para o pós-piercismo, ramificação modal enraizada no alternativismo 3.0 (aka bionerd hipster) lançado em 2009. Os puristas deste novo release 3.0 argumentarão que as cicatrizes, visto implicarem presença prévia de piercing, não garantem estatuto de autenticidade dentro do movimento, já que sugerem deriva a partir da maré 2.0, ou pior ainda, alpha 91'. É uma apreciação injusta particularmente tendo em conta que, ao fim ao cabo, nem todas as freaks nasceram em 1993. Gajas do início e particularmente meio dos 80s já comeram com várias gerações de estupidofacientes em cima e em baixo e não podemos exigir que alguém que tenha sido adolescente no meio da desgovernação existencial que foram os 00s se mantivesse esteticamente neutro. Importante plantar uma marca férrea para vislumbramento social ou íntimo, no fundo algum adereço que sinalize a significância da nossa experiência individual ou marca pessoal.

Eu uso, paradoxalmente, o inverso, - para transmitir segurança em relação ao meu estado natural de anonimidade e normalidade, venho mantendo a pele virgem - e por isso acho que sou largamente superior aos outros. Ironicamente, se me é concedido estatuto de irrelevante tenho impulsos de ADD e entro em descontrolo social, caíndo em todo o tipo de erro clássico para ganhar atenção imediata, dos quais este blog é uma das consequências. Em última análise a adopção dum piercing poderia me ter poupado considerável esforço na aceitação como membro integrante da linha da frente comportamental na minha faixa etária. Talvez devesse ter feito um piercing no sovaco aos 18, para marcar a minha transformação do juvenil pró adulto. Assim chegava à Madeira cada verão/páscoa/carnaval/natal não só a falar cubano como ostentando símbolo físico de integração numa grande urbe progressista do século XXI. Espero que as pessoas não me compreendam, porque eu venho doutro sítio incompreensível porque mais avançado.

De qualquer forma, voltando ao filme, no início dos 00s, como já referi, as pessoas lamentavelmente apresentavam-se ao mundo sem terem nenhuma mensagem concreta, sem flair. A ideia de meter bocados de metal incrustados em extremidades cartilares veio a revolucionar o pálido culto do normal e finalmente libertou numerosos seres vivos da opressão individual e artística em que se viam envolvidos. Mais importantemente, uma nova consciência criativa global nunca antes vista nem possível emergiu das casuais trevas sociais e lançou vários indivíduos para a autenticidade enquanto criadores e apreciadores de arte, uma disciplina que define a fronteira última do entendimento e proficuidade universal para qualquer aglomeração atómica suportada em hidrocarbonetos - a actualizar no futuro para outros compostos binários que se provem embarcar vida.

10 anos volvidos as pessoas nascem com piercings por influência genética. Ou, para alguns pais com sorte, porque espetou-se do clitoris da progenitora prá cabeça/orelha/nariz do nado - um dos exemplos em como um simples clitoris pode vir a ter influência biológia directa num corpo de 9 meses.

Faz então sentido, considerando a vulgaridade actual do acessório, que o altrêsnativo actual ao invés recicle o metal por ar, em consonância integral com a moda. A cicatriz subsiste e é uma marca de antiguidade no meio, embora exista sobeja sobreadmiração por quem tenha pele genuinamente "limpa", as tais pessoas nascidas talvez ao mesmo tempo que o rui costa deixava o benfica.


Não sei se fui claro na caracterização dos meus colegas de observação de tela.


Mesmo assim houve malta que apresentou pipocas caramelizadas na boca, não ciente das conotações mainstream da acção. Eu evitei porque queria cultivar a impressão de que eu, embora não visivelmente significativo, sabia o que é que tava ali a fazer. Uma espécie de sub intelectual, um vulto do movimento, sempre presente, nunca pactuante e suficientemente actuante. no fundo apresentando-me para o cinema indie como o bono prás elites mundiais. Fora isso, e partindo dum ângulo meramente académico, questionei-me sobre o porquê de, no kino movimiento, o mais antigo e original cinema do sistema solar, se venderem pipocas lamestream - tão só para abandonar o pensamento, de raciocínio ofuscado pela sonoridade estocástica do triturar mascativo. Vi me, em vez de conservar raciocínio, ser assaltado por perguntas aleatórias, como que um abeto madeirense soltando cones à toa com o vento ultra-atlântico:

Existirá um padrão psicológico para quem mame pipocas neste cinema em particular?
Terá a vida nexo sem padrão?
Deveremos todos comprar um toyota nexus?
Comprar mantem a economia saudável?
Será a economia relevante à minha tentativa humana?

No meio destas inequações torna-se me notório o rejubilo de vários teen estrangeiros no cinema. Talvez se possa perceber: tão em berlim, a cidade única e exclusivamente mais adequada para a prática duma vida verdadeiramente significante e muito mais livre e aleatória que aquela que poderiam viver nos seus planetas mãe. Em linguagem de jovem adulto, viver em berlim é uma extensão pós-universitária-pré-adulta do errasmus, o programa educativo de incentivo à natalidade suportado pelo comissariat europeu.

A prova factual inegável e irredutível disso é que estatisticamente o percurso do habitante estrangeiro ideal de berlim pode ser reduzido aos canônes erasmus e deduzido com a mera aplicação de duas transformadas temporais, talvez por influência das matemáticas fugas de bach, o deus do vinho prussiano: a dilatação x6 e transladação +6. O habitante ideal estrangeiro de berlim chega então aos 27 mas mais importantemente para toda a gente parte aos 32, tipicamente após relação humanamente significativa de 3 anos com outro(a) estrangeiro(a) ideal(a). Parte porque sofre experiência tormentosa: a falha na última oportunidade para se aplastar a alguém que tem a mesma visão ecosustentavel do mundo é normalmente fatal para proto-humanos que cultivam ad eternum a projecção da sua infantilidade quotidiana. Natural que uma ou outra pergunta se suscitem neste momento-eixo de fracasso da ideia que têm sobre a sua colocação no mundo: O que é que vou fazer da minha vida? Porque é que o mundo é assim tão robótico? O que é que preveniria o meu iphone/ipod/imac de ter sido idealizado e fabricado se todos nós 7 biliões tivessemos em contacto 24h por dia com o nosso ser interior através das artes? Porque é que em vez do MacD e fast food não existe fast art para consumirmos? Serei verdadeiramente única e autêntica se nao gostar de animal collective ou wavves? seria pedir demais se esquecessemos todos os combustíveis fósseis por um segundo enquanto eu vou de bike do naturkundemuseum ao MOMA?

Felizmente todas estas perguntas soturnas dissipam-se nos 3 primeiros segundos de fita, exactamente o que nós todos viemos à procura, respostas para uma vivência alinhada com a nossa imagem pessoal. Curioso que talvez por este motivo isto seja um filme que precise de preparação. Não de preparação emocional ou intelectual, mas de preparação sobre a forma duma vida falhada e carente de significado, ou seja, preparação acidental duma vida existencialmente acidentada. Ao mesmo nível do que é necessário para que a sublimação espiritual nas drogas se torne não um objectivo, não uma razão, não um escape, mas um deslize rumo ao desconhecido e experimental.

A apreciação individual do Ether the V0id é então basicamente uma medida franca sobre a inquietação com que interpretamos a nossa condição.

O filme em frases objectivas separadas de vírgulas:

apresentação aborrecida, de rItmo vagaroso e visualmente monocromático, música clássica a acompaNhar os créditos, que se desdobram no ecrã um único eStilo de letra formal e limpo (talvEz arial), introdução a plano cinematográfico na terceira pessoa do plural, exploração de relacionamento amoroso sacramental, retrato, a um nível narrativo, da forma abusiva como o amigo do lead character lida com o tabaco, arGumento centrado no qUotidiano de helsínquia, mais pRoezas monocromáticas, grupo de Amigos jogam playstation numa mansão, gajas em bikinis na piscina lá fora, planos subaquáticos do mar báltico,milionário árabe chega em ferrari decorado com diamantes, actriz principal é decapitada nas filmagens do apocalypse now, um sumo de laranja com aditivos toma a Vida dum jovem eslovaco numa cIdade sul americana, celebrIdade conheciDa noutros domínios fAz aparição relâmpago (cameo).

verededicto: não recomendado, filme vulgar que pouco ou nada contribuirá para o progresso dum como portador dum bilhete de identidade.

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