interludio damanhã - por trás deste texto tá um dia cansativo


Sentado no chão à porta do aeroporto mundial de Lisboa, malta no reflexo do monitor olha de perfil. Devo ser um escritor, espero.

Sentado no chao à porta do aeroporto mundial de Lisboa, só me apetece é ganir mas em vez disso escrevo merdas brilhantes, tou a tentar pra caralho.

Sentado no chão à porta do aerporto mundial de Lisboa, tenho de me convencer a mim próprio que sou capaz de ser tudo o que eu quiser, e no fim - provavelmente quase maduro -, abandono a ideia e descubro a felicidade e auto-conforto na minha incapacidade humana em ser tudo. A aceitação da banalidade. Afinal sou só uma nave-norma biológica como as outras.

A todos os meus familiares, professores e amigos, tenho de pedir desculpa. Nem tentei ser qualquer coisa em particular, nem tentei assumir a responsabilidade que me foi incumbida na 1ª classe. Fui traído pela dissonância crónica com a convenção de se projectar num único caminho. Em vez, multipliquei-me tenuamente em vários. Não me fazem sentido caminhos altamente directivos - se calhar até quero que não façam. Assim posso justificar a relativa excentricidade de percurso resignado a uma causa ad hoc estratégica, mais um vértice demagógico no polígono irregular que caracteriza o meu desconcertado edifício neuronal. Sou oficialmente dissonante mas na verdade tou-me mais mas é a cagar.

Se não sei o que tou a aqui a fazer, a próxima coisa melhor é saber o que é que definitivamente não tou aqui a fazer, e isso idealmente passa por não coadunar com a servitude pandémica dum ideal ou sistema com o qual não me sinto totalmente confortável. Os métodos precisam ainda de ser definidos e tenho a certeza que vêm naturalmente como consequência directa dum evento dramático.

Há um KFC ali na 2ª circular, firmado no perpétuo ceu azúl de verão de Lisboa. Tá uma brisa de mel, daquelas que ainda trazem bocadinhos do mediterrâneo, pintados de dourado pelas planícies alentejanas e eventualmente torrados pelo sol doce da latitude 40, ainda antes de chegarem cá à bacia do Tejo. Escrevo isto a olhar pró lado, porque sou bué da bom a electrodactilografar e porque parece que se tiver a debitar in situ fico mais clarividente. É como se tivesse a devorar a paisagem em palavras, ou ela a mim, e eu a escrever o meu testamento de vida em função. Depois regresso e morro, como toda a gente morre todas as vezes que se desliga do mundo e volta à matriz comportamental, à odisseia social.

Só se pode morrer uma quantidade finita de vezes antes de não se distinguir mais a vida da morte.

Há muita gente definitivamente morta hoje em dia. Existem exclusivamente na matriz e não se tentam a espreitar para fora. Optam por mergulhar no denso mar da insignificância, no limbo de quase felicidade individual e quase felicidade do colectivo restrito que se vai atenuando em número a partir da era profissional_matrimonial. Não me cabe a mim julgar pessoas mortas e naturalmente um dia também serei uma pessoa morta, talvez daqui a 2 anos, basta um bom contrato e largo esta demagogia conveniente e maleável.

O KFC existe ali somente como estação temporal, para me servir de referência a memórias duma vida concorrente que ainda tenho possivelmente a progredir por aí.

O KFC tem um Peugeot 206 preto com o Rúben no banco do lado.


- “Qual é o nosso projecto?”

PES Master League com o Benfica Rúben, sempre este o projecto, há 10 anos e até depois de morrermos.

Um balde de galinha em receita original do Kentucky. Em casa Zolofts à espera da minha crise de ansiedade generalizada e as polifobias daí germinadas.

- “Precisas de ir ao psicólogo outra vez filho, eu levo-te lá”

Não preciso de nada disso, eu tou bem, tenho maneiras de lidar com isto.

Tenho o South Park, tenho o Archie Bunker, tenho a Eli quando não me deixa sozinho pela brigada psicadélica.

 - “Eu preciso de tar com os meus amigos”

Para andares a meter drogas? E eu aqui em total sofrimento.

- “Não posso viver para cuidar de ti”

Por favor vem para casa, eu vou morrer Eli, por favor não me deixes sozinho à noite.

E no fim fui eu que a matei. Homicídio involuntário em 1º grau, confesso o crime.

O KFC tem um Benfica-Farense em 2002, 15 euros para perder os primeiros 20 minutos mas ver o Benfica a ganhar 5-0 a um clube futuramente falido. No topo norte do antigo estádio da luz adeptos do Manchester United assistem ao jogo e cantam para os seguirmos até glasgow, que vão ser campeões outra vez, que farão 8 de 10 e que será a primeira dupla tripla da história. Comentam que os No Name cantam bem. O topo sul canta durante 45 minutos o Allez Allez Allez Benfica Allez com magnitude cíclica variável que só os transes induzidos pelo amor explicam.

O KFC tem agora um Opel Astra com o Hugo, e mais um acto da continuada conversa fundamental entre dois meninos grandes, cúmplices de dúvida e incerteza, a matéria prima simultânea da incompreensão e do progresso pessoal. Onde é que vamos tar dentro de 10 anos? Eu ainda em interrail, de certeza.

O aeroporto mundial de Lisboa filtra a Lisboa àqueles que partem, como o aerporto de Manamá filtra Manamá a quem parte. Mas em Lisboa é um filtro singular; de desamparo histórico e social, de riqueza experimental e duma justaposição de honestidade mórbida ao desconhecido com cinismo profundo ao conhecido. Do desamparo nasce a saudade e isso o aeroporto mundial de Lisboa não filtra. É uma característica transgeográfica de duvidável valor. Prefiro não penar o presente contra o passado, ou não ter um passado com que relativizar para pior o presente? 


Existe uma lei da conservação emocional no universo. Tudo o que é investido vai-se virar contra nós mais cedo ou mais tarde. Uma separação, uma morte, uma dor de alma proporcional aos bons momentos. Quanto mais cedo percebermos isso mais cedo percebemos que a escolha fundamental se dá entre uma linha amorfa mas emocionalmente assimptótica e outra sinusoidal e periódica na sorte, uma que supõe dor eventual mas imprevisibilidade e exploração da espontaneidade humana.

Pra já o meu percurso assimptótico deixa-me à altitude de 38 mil pés. A 16 de Junho de 2011 às 20:26 tou num Airbus A319 a galopar o azul profundo do oceano atlântico português, da sua vasta zona económica exclusiva, na alta atmosfera do verão europeu. Das milfs na costa brava a fazerem praia, dos interrails e viagens a estâncias hedónicas, retretes autênticas da opressão acumulada anualmente em países frios e cinzentos. Abaixo de mim peixes, acima de mim ninguém sabe, talvez esferinhas verdes com vida e capacidades telepáticas. Mais naves cósmicas de diferentes formas e sabores, como nós mas provavelmente mais conscientes.

À esquerda de mim o lugar onde vivo, a Europa da eterna crise, da perpétua reinvenção social, cultural, política. Um continente excitante mas afundado em si mesmo, nas suas contradições ideológicas e discrepâncias práticas, consequências naturais duma maturação excessiva, duma profundidade introspectiva abissal e, consequentemente, supérflua. A Europa é a representação geofilosófica do gajo que pensa demasiado na vida e acaba esgotado, num beco sem saída ideológico. É o niilista crónico que pratica com cinismo aquilo que serve à maioria.

À direita os Estados Unidos da América. A nação magnânime dos anos 90 converteu-se numa fábrica de ações unilaterais e de certezas fundamentais, com os melhores interesses do globo como motivação ulterior. Perigosos tempos de monopólio geopolítico aproximam-se dum final melancólico para a humanidade. Como o sol sobre o Atlântico. A mim no fim em toda a honestidade só me interessa o Atlântico. Só o Atlântico.

Estamos a descer, a Madeira à frente está envolta num lençol escuro de nuvens, será somente a noite a cair no atlantico leste ou é também símbolo do status quo local?  Não gosto desta sensação mas o sol, que já se escondeu há 8 minutos reais, ainda se mostra em preguiçosos raios de luz laranja no horizonte. Vejo 5 sóis em reflexo, devo estar a chegar a outro planeta - se for então vou lhe chamar a ilha da Madeira.

É tudo irrelevante: obrigado Sol por mais um dia do caralho.

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