Porque o Evangelos Tsoulakidis é um avatar de rating AAA+, decidi aceitar o convite à humilhação social que consistia ir à festa de despedida dele. Isto por causa de gradientes circunstanciais: nem eu me lembro como é que costumava lidar com o circlejerk específico do humor e cultura inglesa, nem eles se lembram porque é que a determinado ponto me elevaram ao plano mitológico dos seus envelopes temporais em Berlim - mas o dogma continua a ser perpetuado. Os mitos nunca morrem, desculpam-se, justificam-se e exaltam-se - porque participar num mito é viver associado a ele, é uma marca de projeção pessoal.
No plano real, talvez eu tenha perdido inteligência humana em função do apuramento da sensibilidade analítica - e isto fez toda a diferença -, ou talvez isto seja mais um daqueles novelos de expectativas e contra-expectativas que eu deixo o inconsciente fabricar enquanto eu penso em merdas importantes e que normalmente culminam com o meu afastamento dum grupo social "para o bem comum" e despersonalização última. A boa notícia é que geralmente isto leva à reinvenção pessoal e tou excitado só de pensar em como vou formar a minha próxima persona pública. Talvez até produza um filho para poder justificar uma mudança radical sem parecer que tou às aranhas. Sou agora um cool dad e a minha prioridade é só programar um organismo a se alinhar com os requisitos da matilha.. 'desculpem pessoal passei à próxima fase mas vou fingir que sou uma vítima das minhas obrigações biológicas/sociais e que isto não foi afinal de tudo um opção'.
Cheguei à festa atrasado como sempre e sóbrio como nunca. Numa tentativa de me alinhar em condescendência alcóolica com a bioquímica delicada da minha companheira de apartamento, bebi o grande total cumulativo de uma garrafa de cidra antes de me relançar sobre a proposição-mor de todas as actividades sociais dos últimos 6 meses: 'pessoal, não tou diferente, pessoal'. A cada ciclo falhado de validação um bocado do ego tormentado pela máquina do passado. 'Antes eu teria tido qualquer coisa boa para dizer agora'. A verdade é que a diferença é que eu antes fazia batota e agora já não faço. Estratégias de manipulação de conversa e técnicas de reciclagem comportamental tipo fingir que ia à casa de banho como ação-ejeção duma conversologia menos favorável com regresso revitalizado pela perspectiva - meia hora de introspeção no espelho para me relativizar à vida e minimizar a importância deste tempo e espaço no universo e depois mais uma vodka de penalty sem ninguém ver e voltava descentrado/positivo.
Nesta festa, passei a primeira hora a falar com o çem, um turco de istambul sobre futebol, corpos celestes e choques culturais, por esta ordem. Passei a segunda hora a divagar sobre o envelhecer, a mudança e as relações amorosas com o andy, um inglês de preston. Passei a terceira hora a ouvir uma dissertação sobre o estado actual do futebol escocês com o derek. À quarta hora deixei-me de paneleiradas e fui para a cozinha beber submarinos de vodka sobre cerveja e participar em desafios inebriados - acabei a comer 4 malaguetas e a tomar três shots de sonasol que, veio-se a ver, foram determinantes na direção da noite.
Foi a primeira vez que tomei três shots de sonasol de seguida em cima de malaguetas e vodkas-cerveja e - muito possivelmente - a última. O que aconteceu depois foi uma queda em espiral pelo submundo da lástima última e absoluta. Acontece que obviamente não me lembro de grande pistola a não ser vomitar furiosamente à porta da casa do hóspede. Independentemente de dar a impressão de ser um líquido viscoso radioactivo, vomitar sonasol é uma mudança refrescante ao habitual, em particular o toque das bolhas de sabão a sair pelos cantos da boca a cada repuxo de vómito é provavelmente agradável ao observador neutro.
A cena é que chamar o gregório é geralmente condição unívoca para a definição do ponto mais baixo duma noite. Às vezes é um ponto de inflexão e às vezes é terminal, mas em raras histórias da noite acaba por ser um extremo relativo, practicamente irrelevante face ao verdadeiro mínimo absoluto. Esta noite foi assim porque eu basicamente a caminho de casa começei a sentir uma dor forte pra cagar e - contrariamente ao que tenho conseguido fazer com relativo sucesso ao longo da minha vida adulta -, não me consegui aguentar desta vez. Depois de sair do eléctrico começei a me queixar à minha colega de apartamento que tava à rasca para me aguentar, apesar de só tarmos a 300 metros de casa. Passados 100 metros dobrei-me sobre os joelhos e, ainda em pé, dei o mote "fuck it.." e soltei raio e trovoada pelas faces anteriores das minhas pernas até acabar com os tornozelos envoltos em diarreia dentro dos nike clássicos brancos por entre "oh my god"'s da faye. Foi monumental e lindo até aí e depois andar os restantes 200 metros até casa com as calças encharcadas e as ruas cheias de jovens foi espectacular também particularmente porque tava me literalmente a cagar pra toda a gente. Logo depois do momento fuck it senti um alívio tal que nada me poderia atingir no mundo nos momento subsequentes.
Subi as escadas para casa a deixar um rasto de destruição. Ainda hesitei várias vezes em tentar salvar as calças mas no fim a voz da fayesciência levou a melhor e decidimos doar as calças à humana. A cavalo dado não se olha o dente, há malta que não tá em posição para exigir. No fim, fiquei com os sapatos. Tiveram uma semana num balde de água com..sonasol e amanhã vou estreá-los no trabalho depois do incidente.
Ah, em minha defesa, li na internet, à posteriori, que sonasol funciona como um laxativo. Pelo que percebo a lição a tirar é que é preciso ter cuidado com timings de deslocações depois de se beber sonasol.
1 comentário:
nunca escreveste tão bem . e o amor é do caralho
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