Isto não tem nada a ver com bola ou Benfica, vem da pergunta do Bruno que me trouxe umas memórias (desculpa o sequestro da thread Tibério, vou ver essa merda qdo chegar a casa).
"Os outros miudos choraram?"
nas duas semanas anteriores à prova vi o documentário do senna (um que passou no eurosport depois dele morrer) umas 3 vezes por dia. Fazia tudo o que o gajo fazia... corria na praia todos os dias às 7 da manhã, girava halteres em frente ao peito, tirava uns minutos por dia para tar sozinho e me concentrar. Só comia massa (sem molho de tomate), saladas do kfc e um chocolate lion 15 minutos antes de cada sessão de treino. esgotei a minha disciplina prá vida nessas duas semanas. Aliás eu foi para o porto santo duas semanas antes para me ambientar ao clima..
Foi a minha primeira prova na categoria Júnior, que era um salto do caralho na potência do kart relativamente à categoria anterior (60cc para 100cc) tinha acabado de fazer 14. Os outros sacanas tinham todos 15-16. Fiz o 2º tempo na qualificação, fiquei a 55 milésimas de segundo da pole ou uma merda assim. Houveram 3 partidas, porque nas 2 primeiras o gajo da pole, que era o filho do presidente da associação de karting da madeira, queimou a vela na volta de apresentação. Queimar velas geralmente era sinal de nervosismo ou falta de sensibilidade no pé, porque só acontecia se fosses muito brusco no acelerador enquanto o motor aquecia a baixas rotações na volta de apresentação. Geralmente qdo tavas nervoso não conseguias controlar muito bem o pé, especialmente ao ritmo brando da volta de apresentação e trepidação do chassis. Eu tava nervoso pra caralho (mijei-me na grelha de partida - metade dos miúdos mijavam-se à partida) mas fiquei bué confiante quando vi que o gajo não parava de queimar velas. Por outro lado fiquei fodido porque não percebia porque é que se tinha de repetir a partida se um gajo tinha tido um problema essencialmente mecânico.. mas tava me a cagar, só queria correr e a cada sinal de favorecimento só me motivava mais a ganhar limpo, na minha cabeça era a vitória do bem contra todas as adversidades.. o meu pai é que tava louco, o gajo começou a mandar o director de prova pró caralho e só pudemos começar a prova quando ele aceitou sair da zona técnica.
Entretanto lá fizemos a 3ª partida e eu mamei o gajo na 1ª curva, uma curva fechada à direita. Tava bué calor e eu escolhi pneus médios-moles (vega amarelos - contra a vontade do meu pai) e o gajo pneus moles (bridgestone). O sacana andou sempre em cima de mim as primeiras 4 voltas mas depois com o calor começou a foder os pneus todos, até porque o estilo de condução do gajo era mais solto (usar derrapagens para travar o kart nas curvas etc) e eu era um gajo agressivo na travagem mas certinho e limpo na trajectórias. Com esta merda toda acabei a prova (20 voltas) com meia volta de avanço. E eu queria mais avanço ainda.. a partir da 10ª volta já tinha uma vantagem considerável e o meu pai a cada passagem pela curva onde ele tava ele quase que entrava dentro de pista todo louco a me fazer sinal para abrandar. Mesmo com o capacete, bataclava e o barulho dum motor de 100cc a 2 tempos a 20 cms da minha cabeça eu ouvia perfeitamente "CALMA! TEM CALMA!!". Eu a me cagar - o Senna não teria calma caralho, a pureza da competição tá em superar também os outros, mas essencialmente se superar a si próprio. E com esta merda bati o recorde da pista, que ainda persiste, porque foi o último ano da pista antes de fazerem o kartódromo hehe. Ah ya, esta pista era entre pneus, portanto ao mínimo erro eras catapultado pela elasticidade dos pneus. Eu no ano anterior numa categoria inferior tinha capotado lá e partido a costela - tive quase 1 minuto sem respirar com o pânico, o médico de pista é que me salvou. Alta memória, eu estatelado no chão, só via gente em desespero à minha volta e eu sem conseguir respirar...
Mas foi por causa desta meia volta de avanço que a malta achou estranho e insistiu para ver o meu motor. Passadas as tais 5 horas ficou claro que aquilo não tinha sido uma vitoŕia da corrupção, mas uma vitória da raça do querer e ambição, a merda é que quando chegou a confirmação oficial de que eu tinha ganho, já era meia-noite e hora de ir mamar sono, e a Catarina do Palheiro Ferreiro que tinha altas mamas e queria 'festejar' com o vencedor da prova acabou por mamar no 2º classificado, pelo que soube.
Entretanto fui vice-campeão regional e o campeão subiu para a próxima categoria, ou seja, eu seria o número 1 no ano seguinte. Fui negociar novo contrato de patrocínio com a leuimport da madeira (importadores da Peugeot prá Madeira, na altura) para a nova época (meu pai fazia-me ir sozinho negociar os meus contratos de patrocínio) e o contrato foi feito com base no facto de eu ser o número 1, que é obviamente atractivo para um patrocinador. O que acontece é que quando chego à reunião de atribuição dos números para a nova época, com 15 minutos de atraso, o número 1 já tinha sido atribuído à filha do novo presidente da associação de karting da madeira, porque eu tinha chegado atrasado. E então acabo com o número 12 outra vez. Escusado será dizer que o meu pai partiu aquela merda toda a meio e decidiu me retirar da competição oficial. Eu apoiei e compreendi a decisão.. meu pai fodia à volta de mil contos por época para depois andarem com aquelas paneleiradas... vendeu o kart e comprou um computador pra mim com o dinheiro - e esta é a história de como eu tou sentado num escritório agora em vez de tar a caminho de Singapura.
foda-se, não contava esta história há bué tempo. carrega benfica caralho.
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