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drop mnemésico '98 - quake love
ok, i'll tell you about my quake story first. My dad worked for some company 2
years ago, and they gave him a laptop with a cd-rom and the disc quake. only to
install on the computer, not to keep. then we had aol and i was even stupider
with computers so i never played multiplayer. I played single player for a
year. beating the game over and over again. I had no life whatsoever 2 years
ago. Then my dad quit and had to give the laptop back. thats probably how i
became good at it, but i dont think i'm that good. i only play good when i'm
pissed off at someone. About what term said. the 1st time i played multi it
was in that server. Naturally i went for the 1st guy that spoke english to me,
which what =KILAS=. term was his friend then or something and always messed
with me and tried to piss me off. So i can understand why he would tell you
that. because he wanted me to get pissed again. i'm gonna have to send this
one, then write another one cuz i dont think this email thingy will go down any
further. so i'll email you my other one after this.but...if you come here to visit me, it wont just be quake life. i love you to
much to think about it as quake life. I dont want to enjoy real life when
you're not here!! no one understands how i can love you but i do. I really
really really really reallly do. I hate my real life. I dont care about the
boys chasing me here. I dont like them. at least the ones in this town,
they're so stupid. and if i could never talk to you again, i'd kill myself. i
am dead serious. i seriously would. call me obsessed or whatever but i would.
I LOVE YOU
6 de Abril de 1998
Ok, this is my boston, delia, alexandra whatever story. My real name is
Alexandra but I hate that name. I liked the name delia and told you it was
mine. Boston is my father, and hes obsessive compulsive, so i am NOT going to
beg him to let me play again. I think i will be able to in a week. i can only
check my email for 10 minutes max, but hes not home now. i am a girl, and i
think that gays are sick. i mean people always tell you not to judge people by
that, but i am a very racist person. i dont mean to be, but i live in a white
rich prep town. i actually dont need this online relationship shit, but...its
kinda hard to say. I love the game, and i get a lot of attention which is what
i love even more. And...ummm...when you started talking to me...recently
...my ummm...when you were mean to me and i couldnt talk to you
...umm..my heart hurts. it does. its like, i love you but i really dont know
who you are. but it hurts. And i love you. and i dont know why. i cry all
the time now, and my parents think i'm crazy and that the computer is making me
crazy but thats all a bunch of bs. why did you and term trick me like that the
1st time anyway? Before i went in to play i was talking with diablo and told
him i was wicked gullible, which is when you fall for everything, so i thought
the 2 of you were just testing me. But then today, diablo cussed me out a
million times . i dont love him anymore. I love you. not him. not even a
little bit. My mom told me you're welcome to come and visit me whenever you
want. i even looked up airfare to portugal cuz i was gonna run away. i really
am serious about you coming to visit me. we could walk around boston, and go to
the MALL!!! and the movies. and anywhere else. my heart hurts for you. i know
its corny but its true.
I LOVE YOU
I LOVE YOU
I LOVE YOU
I LOVE YOU
~LoVe~ Alexandra (?Campos?) ;-)
1 de Maio de 1998
contexto: esta gaja gostava de mim (eramos namorados virtuais) mas andava sempre no flirt com o Diablo e o Terminator, pelo que lhe começei a matar nos servidor da quake.telepac.pt:27000 e daí geraram-se estes emails.
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dk jovem,
Flashbecker,
Hall of Fame
catarse oca no tempo
minha noite de ontem não foi grande coisa.
o sueco é um gajo muito bacano, tal como quase todos os nórdicos recatados que conheço, transmite calma.
a mudança de pólos está se a dar.
de certa forma foi tortura.
ela pelo menos tá a ser feliz, mesmo que não comigo.
recuso que tenha terminado por uma coisa inacreditavelmente insignificante.
agora diz-se que já passou muito tempo e a divergência é irreversível.
há 15 dias não, e havia saudade.
voltei com qualquer coisa de nojento, em duas ou três oportunidades fodi tudo.
yeah tou convencido que acabou tudo de vez, mas não acredito.
aquela situação em que nada que se faça nos faz sentir melhores.
a não ser olhar para dentro.
meu Deus o que lhe fiz sofrer.
e agora sofro.
foi mal aconselhada, eu também. que mania de se meterem, as pessoas.
e agora?
lentamente morro e renasço, não tenho hipóteses de não passar por um calvário emocional.
estão bem envolvidos até.
pensei que fosse demorar mais tempo... ligam-se pra sairem e isso.
lindo. lindo. já não digo nada a ninguém para além daqueles que é obrigatório dizer, hoje em dia.
o que é que eu sou?
e por favor que acabem os sonhos bons com ela, porque acordo pior. ou então que nunca acabem....
Título original: "Doença 1"
Data: 15 de Março de 2008
Contexto: regresso de Cancun, ex-namorada abandona voluntariamente o limbo pós-breakup, fodeu mané e eu tive o cuidado de não me envolver com a VHS - inglório. Lembro-me bem de lágrimas a escorrer pelos braços. Seguiram-se os melhores 6 meses da minha vida, obrigado a todos.
Moral: mais resistência à emoção contextual porque "tempo" e "entropia"
hi5 vintage testimonials
Descobri que tenho não um mais dois blogs enterrados na década dos 2 mil e X
Ricardo Ramin - datado de ca. 2007
0.) Podia fazer aqui um texto nostalgico, enumerando situacoes caricatas que vivemos em comum, descrevendo as nossas experiencias de infancia (adolescencia para ti), denunciando situacoes manifestamente improprias para um actual funcionario da SATA e alegando esforcadamente ao mundo seres buueeeeda fixe menz. E vou mesmo. E vou chamar este texto "Ja contaste ah Mara?" *Inserir aqui musica melancolica dos anos 90, se possivel Bon Jovi - Always*
1.) Ja contaste ah Mara que te salvei de caires dum Peugeot 504 em andamento, que te arranjei de forma sistematica latinas nos apartamentos caracas (ele sempre foi louco por sul-americanas Mara), que fui eu que te ensinei a dar mergulhos decentes na outrora fabulosa quinta do americo durao, que fui um dos principais impulsionadores para cortares o cabelo que tinhas à Slash dos Guns N' Roses nos anos 90s (devias tar mesmo grato por esta, a serio), que fui dos poucos que acreditei em ti quando se deu a tua ascensao meteorica no mundo do futebol... se isso nao e verdade pelo menos podemos dizer que o teu declinio foi de craque (lesao grave), que me me efectuaste curativos pos-operatorios em pelo menos uma malograda ocasiao que recordo com pouca estima? (agradecimentos especiais ao Rodrigo tambem ,podemos dizer que voces me conhecem como ninguem...e jah agora devo dizer que gostei muito e recomendo que consideres uma carreira de enfermeiro caso as coisas deem para o torto como estafeta da SATA). Ja contaste ah Mara que assisti contigo ah forma eximia como o Rodrigo comunicava em lingua estrangeira em Madrid ou que te acompanhei voluntariamente numa experiencia de quase morte, se bem que um pouco enganado, pelos ceus da nossa bela ilha? (ah nao tu es alfacinha, esquece).
2.) Se existem por ai cinicos (ou criticos, eh a mesma coisa) a objectar que estas recordacoes todas nao interessam a ninguem e que eh pouco elegante estarem aqui expostas neste antro de engate a que chamamos hi5 , tem razao. Isto sao merdas para serem recordadas internamente, no seio do nucleo, sao assuntos de natureza vincadamente pessoal *escolher expressao favorita*. Nao obstante, tenho uma explicacao simples e elegante para o sucedido : vao se foder.
3.) We'll never die brotha
4.) Air Luxor rulez
Gui - circa 2007
para mim tanto me faz *abanar cabeça suavemente e efectuar movimento circular com as mãos enquanto estalando dedos*. posta a introdução, só quero dizer que quem vê o teu profile pensa que é só malucada na tua vida. mas não é. há mto trabalho de bastidores, mto estudo de imagem, mto estudo de mercado essencialmente. e só assim nasce este produto liberal e de massas juvenis, tão popular para uns como obsceno para outros (é mentira, toda a gente gosta dele, isto era só pq ficava bem). Guilherme, ou Gui como nos obrigas a te chamar para conservares a tua identidade mediática, aquele abraço, e sempre que fores à Madeira.... vai na air luxor que é mais barato.
Ricardo "Massas" Gouveia - circa 2008
o meu testemunho para ti não será uma tentativa de definir a tua personalidade num texto. antes vou só deixar aqui para todo o sempre - ou pelo menos enquanto o servidor do hi5 aguentar - um lamento : é pena não termos tempo e não partilharmos os mesmos espaços neste dias. uma simples paragem de autocarro sempre serviu perfeitamente para passarmos horas a divagar sobre quase tudo. lembro-me de ser particularmente interessante pelo simples facto de seres do contra, mesmo que a convenção que se criou acerca desse aspecto da tua personalidade fosse um exagero. de qualquer forma, uma discussão não tem piada nenhuma se ambas as partes concordarem e provavelmente hoje tás diferente. daí também a inutilidade de te descrever objectivamente por intermédio de palavras. se desde os teus 20 anos te pudesse descrever de igual maneira até aos 50 pouco ou nada teriam servido 30 anos, não terias evoluido, não terias aprendido. acerca do presente e futuro suponho que teja tudo a correr bem apesar de não saber grandes detalhes acerca de ti actualmente. finalmente, desta merda toda que escrevi, so uma é realmente importante - daqui a 40 anos, espero que olhes para trás e consideres que viveste bem a vida. adios amigo.
Luis "Way" Almeida - circa 2008
n bebes nada. ainda guardo com particular carinho akela meia garrafa de absinto com que me deixaste no porto santo. aproveito este clima de romantismo para te pedir em casamento (a lili que n se preocupe que eu n sou ciumento.) e mais importantemente para fazer grupo nos labs este semestre ("mas é pra trabalhares" by Sara). por favor responde-me com a máxima celeridade. bjs garanhão.
Manel Neves - circa 2007
é ponto assente que em todos os desportos na história houveram sempre personagens que, apesar de serem sistematicamente batidos ao longo das suas carreiras, nunca deixaram de lutar, de acreditar em si, de se proclararem quase que cegamente como os melhores naquilo que faziam e de chatearem os verdadeiros campeões constantemente para uma desforra. São conhecidos como os eternos derrotados, mas reconhecidos pela sua devoção e dedicação e pela sua vontade em melhorarem. Os exemplos são muitos : o plantel actual de futsal do sporting, o plantel actual de futebol do sporting, o plantel actual de hoquei do sporting, os jogadores actuais de xadrez do sporting , e agora o Manel do PES5 do Sporting. Admiro a tua preseverança meu caro amigo Manel mas verdade seja dita, não dás para aquecer. Venham outros melhores (se não tiverem a dormir).
Strob - circa 2006
companheiro de tropa em 71 em angola, já passei alguns momentos dramáticos com este homem. Quem não se lembra das míticas emboscadas no Excesso de que fomos alvos, e em particular do teu transporte de volta para o acampamento quando te encontravas moribundo, às portas da morte.....o teu reencontro com o General no acampamento... memórias que já lá vão longe, mas que o tempo nunca apagará! Aqueles dias...
Ricardo Ramin - datado de ca. 2007
0.) Podia fazer aqui um texto nostalgico, enumerando situacoes caricatas que vivemos em comum, descrevendo as nossas experiencias de infancia (adolescencia para ti), denunciando situacoes manifestamente improprias para um actual funcionario da SATA e alegando esforcadamente ao mundo seres buueeeeda fixe menz. E vou mesmo. E vou chamar este texto "Ja contaste ah Mara?" *Inserir aqui musica melancolica dos anos 90, se possivel Bon Jovi - Always*
1.) Ja contaste ah Mara que te salvei de caires dum Peugeot 504 em andamento, que te arranjei de forma sistematica latinas nos apartamentos caracas (ele sempre foi louco por sul-americanas Mara), que fui eu que te ensinei a dar mergulhos decentes na outrora fabulosa quinta do americo durao, que fui um dos principais impulsionadores para cortares o cabelo que tinhas à Slash dos Guns N' Roses nos anos 90s (devias tar mesmo grato por esta, a serio), que fui dos poucos que acreditei em ti quando se deu a tua ascensao meteorica no mundo do futebol... se isso nao e verdade pelo menos podemos dizer que o teu declinio foi de craque (lesao grave), que me me efectuaste curativos pos-operatorios em pelo menos uma malograda ocasiao que recordo com pouca estima? (agradecimentos especiais ao Rodrigo tambem ,podemos dizer que voces me conhecem como ninguem...e jah agora devo dizer que gostei muito e recomendo que consideres uma carreira de enfermeiro caso as coisas deem para o torto como estafeta da SATA). Ja contaste ah Mara que assisti contigo ah forma eximia como o Rodrigo comunicava em lingua estrangeira em Madrid ou que te acompanhei voluntariamente numa experiencia de quase morte, se bem que um pouco enganado, pelos ceus da nossa bela ilha? (ah nao tu es alfacinha, esquece).
2.) Se existem por ai cinicos (ou criticos, eh a mesma coisa) a objectar que estas recordacoes todas nao interessam a ninguem e que eh pouco elegante estarem aqui expostas neste antro de engate a que chamamos hi5 , tem razao. Isto sao merdas para serem recordadas internamente, no seio do nucleo, sao assuntos de natureza vincadamente pessoal *escolher expressao favorita*. Nao obstante, tenho uma explicacao simples e elegante para o sucedido : vao se foder.
3.) We'll never die brotha
4.) Air Luxor rulez
Gui - circa 2007
para mim tanto me faz *abanar cabeça suavemente e efectuar movimento circular com as mãos enquanto estalando dedos*. posta a introdução, só quero dizer que quem vê o teu profile pensa que é só malucada na tua vida. mas não é. há mto trabalho de bastidores, mto estudo de imagem, mto estudo de mercado essencialmente. e só assim nasce este produto liberal e de massas juvenis, tão popular para uns como obsceno para outros (é mentira, toda a gente gosta dele, isto era só pq ficava bem). Guilherme, ou Gui como nos obrigas a te chamar para conservares a tua identidade mediática, aquele abraço, e sempre que fores à Madeira.... vai na air luxor que é mais barato.
Ricardo "Massas" Gouveia - circa 2008
o meu testemunho para ti não será uma tentativa de definir a tua personalidade num texto. antes vou só deixar aqui para todo o sempre - ou pelo menos enquanto o servidor do hi5 aguentar - um lamento : é pena não termos tempo e não partilharmos os mesmos espaços neste dias. uma simples paragem de autocarro sempre serviu perfeitamente para passarmos horas a divagar sobre quase tudo. lembro-me de ser particularmente interessante pelo simples facto de seres do contra, mesmo que a convenção que se criou acerca desse aspecto da tua personalidade fosse um exagero. de qualquer forma, uma discussão não tem piada nenhuma se ambas as partes concordarem e provavelmente hoje tás diferente. daí também a inutilidade de te descrever objectivamente por intermédio de palavras. se desde os teus 20 anos te pudesse descrever de igual maneira até aos 50 pouco ou nada teriam servido 30 anos, não terias evoluido, não terias aprendido. acerca do presente e futuro suponho que teja tudo a correr bem apesar de não saber grandes detalhes acerca de ti actualmente. finalmente, desta merda toda que escrevi, so uma é realmente importante - daqui a 40 anos, espero que olhes para trás e consideres que viveste bem a vida. adios amigo.
Luis "Way" Almeida - circa 2008
n bebes nada. ainda guardo com particular carinho akela meia garrafa de absinto com que me deixaste no porto santo. aproveito este clima de romantismo para te pedir em casamento (a lili que n se preocupe que eu n sou ciumento.) e mais importantemente para fazer grupo nos labs este semestre ("mas é pra trabalhares" by Sara). por favor responde-me com a máxima celeridade. bjs garanhão.
Manel Neves - circa 2007
é ponto assente que em todos os desportos na história houveram sempre personagens que, apesar de serem sistematicamente batidos ao longo das suas carreiras, nunca deixaram de lutar, de acreditar em si, de se proclararem quase que cegamente como os melhores naquilo que faziam e de chatearem os verdadeiros campeões constantemente para uma desforra. São conhecidos como os eternos derrotados, mas reconhecidos pela sua devoção e dedicação e pela sua vontade em melhorarem. Os exemplos são muitos : o plantel actual de futsal do sporting, o plantel actual de futebol do sporting, o plantel actual de hoquei do sporting, os jogadores actuais de xadrez do sporting , e agora o Manel do PES5 do Sporting. Admiro a tua preseverança meu caro amigo Manel mas verdade seja dita, não dás para aquecer. Venham outros melhores (se não tiverem a dormir).
Strob - circa 2006
companheiro de tropa em 71 em angola, já passei alguns momentos dramáticos com este homem. Quem não se lembra das míticas emboscadas no Excesso de que fomos alvos, e em particular do teu transporte de volta para o acampamento quando te encontravas moribundo, às portas da morte.....o teu reencontro com o General no acampamento... memórias que já lá vão longe, mas que o tempo nunca apagará! Aqueles dias...
hall of fame -1 - uma boa memória invoca a situação, não o evento
[10º ano, palestra extra-curricular sobre "Magic The Gathering" no salão nobre da Escola Industrial, audiência de ~200 alunos]
O homem que era campeão disso acaba de explicar aquilo tudo à malta. Tempo para uma sessão de perguntas e respostas. O Gonçalo oferece-se prontamente, com alguma urgência até. Pega no microfone com o fio de 20 metros e testa-o batendo 3 vezes com o indicador. Na sequência, das colunas do salão sai um misto de transdutor em overflow com os biliões de partículas de saliva e um extremamente apologético ao mesmo tempo que divinalmente casual "olhe, desculpe, só uma perguntinha: comáxsdefende?"
O homem que era campeão disso acaba de explicar aquilo tudo à malta. Tempo para uma sessão de perguntas e respostas. O Gonçalo oferece-se prontamente, com alguma urgência até. Pega no microfone com o fio de 20 metros e testa-o batendo 3 vezes com o indicador. Na sequência, das colunas do salão sai um misto de transdutor em overflow com os biliões de partículas de saliva e um extremamente apologético ao mesmo tempo que divinalmente casual "olhe, desculpe, só uma perguntinha: comáxsdefende?"
|Flashbecker| - coca-cola we can't make it
olá o ano era obviamente 8002 e a ocasião era obviamente que quem fizesse o video mais espectacular relacionado com a coca-cola podia participar no desafio de ir de não sei onde a não sei onde só com latas de coca-cola como moeda de troca.
obviamente ganhamos mas entrava em conflito com o rail e sem o rail o way não tinha tido desculpa para acabar com a laura: resumindo, rail.
a direção artística é da georgina, uma então recém formada em desenho que recrutamos na rua perpendicular à da minha casa. a edição foi do absinto.
final alternativo
obviamente ganhamos mas entrava em conflito com o rail e sem o rail o way não tinha tido desculpa para acabar com a laura: resumindo, rail.
a direção artística é da georgina, uma então recém formada em desenho que recrutamos na rua perpendicular à da minha casa. a edição foi do absinto.
final alternativo
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interludio do passado - isto foi em 2009 ainda, estado puro
Heroes Del Silencio - Entre dos tierras por kalmar
tou pela 75a vez em madrid no espaco de 2 anos. Vir a madrid por 4 horas eh como comer um broxe da moura guedes e lhe dar um AVC mesmo antes dum gajo se vir. Mas por enquanto eh assim, vivo na cidade dos loucos, a cidade "arm, aber sexy", onde tudo eh possivel menos bom clima, boa arquitectura e americanas no gap year. Elas evitam berlim, eh uma cidade demasiado aspera e larga, que requer dedicacao para compreender e admirar. Madrid eh a materializacao do ideal eurotrip, se houvesse uma versao europeia pra todos os reality shows da mtv, eram em mardrid, accao instantanea.
tou pela 75a vez em madrid no espaco de 2 anos. Vir a madrid por 4 horas eh como comer um broxe da moura guedes e lhe dar um AVC mesmo antes dum gajo se vir. Mas por enquanto eh assim, vivo na cidade dos loucos, a cidade "arm, aber sexy", onde tudo eh possivel menos bom clima, boa arquitectura e americanas no gap year. Elas evitam berlim, eh uma cidade demasiado aspera e larga, que requer dedicacao para compreender e admirar. Madrid eh a materializacao do ideal eurotrip, se houvesse uma versao europeia pra todos os reality shows da mtv, eram em mardrid, accao instantanea.
Arriscando um paragrafo pessoal, aqui em madrid nunca me sinto verdade, eh como se tivesse num proto mundo, uma bolha de gases que continua a crescer cada vez que passo ca e ta bem ok flutua no meu universio, mas sempre sem concretizacao astral. Tenho de emi-emigrar pra ver no que da isto, porque eu farto-me de peidar e continuo sempre a sentir a bolha.
Arriscando um paragrafo deprimente, se eu fosse um gajo dos blogs insistia na alegoria astronomica e dizia que eh assim: a madeira o meu sol, lisboa o meu planeta e berlim a minha lua. Madrid uma supernova por descobrir. Que tristeza, cala-te caralho: de volta ao abstrato.
Arriscando um paragrafo totalmente desconexo do raciocinio anterior, o terminal 1 do aeroporto de Ruben Barajas eh um edificio de contornos miticos pra mim i.e. em termos líricos reluz como a prata, no meu cortex. Eh como que um podio de consagracao, a casa final do jogo do ganso – isto basicamente porque pondo as coisas de forma clara eh sempre no filha da puta do limite pra chegar aqui do centro de Madrid. Uma vez consegui chegar ca as 4 da manha com o metro fechado, sem dinheiro, sem telefone, sem internet e sem o rim direito, depois duma odisseia de 6 horas em que considerei fazer os 25 kms a pe com a mala as costas – e ate fiz 5. Uma senegalesa, um comissario de bordo da easyjet e 2 peruanas ajudaram-me a diferentes alturas e de diferentes maneiras. Entre outras coisas apanhei clandestinamente um autocarro reservado aos funcionarios do aeroporto, sem apresentar cartao. E depois perdi o bilhete de identidade a dormir em frente ah porta de embarque mas um velho veio mo dar ja na fila pra embarcar, passada meia hora de desespero subtilmente ah procura do cartao pra nao admitir que tinha feito merda aos restantes passageiros. Um dia tenho de registar isso aqui de forma detalhada, mas agora seria num espirito diligente. A memoria merece mais respeito.
Tambem a outra vez em que fui pro terminal 3 por acidente com 15 minutos pra fechar o check in merece registo. Nao eh facil explicar em unidades do SI a distancia entre o terminal 3 e o terminal 1 do aeroporto de Barajas, mas em termos monetarios sao 20 euros num taxi e penso que me expliquei bem. Em 2010 20 euros davam pra sacar 4 falancios ah puta madrinha, a da paragem ah direita da saida da rovisco pais. Em 2010 20 euros adquiriam 36 latas de 800g de grao de bico no pingo doce. Em 2010 20 euros eram 80 garrafas de meisterfels, indiscutivelmente a substancia mais toxica do mundo, e que passa por cerveja no netto.
Tambem a outra vez em que fui pro terminal 3 por acidente com 15 minutos pra fechar o check in merece registo. Nao eh facil explicar em unidades do SI a distancia entre o terminal 3 e o terminal 1 do aeroporto de Barajas, mas em termos monetarios sao 20 euros num taxi e penso que me expliquei bem. Em 2010 20 euros davam pra sacar 4 falancios ah puta madrinha, a da paragem ah direita da saida da rovisco pais. Em 2010 20 euros adquiriam 36 latas de 800g de grao de bico no pingo doce. Em 2010 20 euros eram 80 garrafas de meisterfels, indiscutivelmente a substancia mais toxica do mundo, e que passa por cerveja no netto.
A proposito de registar a minha vida, foda-se espero que todos os episodios desviados da minha vida me motivem a determinado ponto a regista-los sem ser como se fosse obrigatorio, para poder le-los aos 80 e pensar mas que grande puto que eu era, o que eh que isso tem de especial pra ser registado, alias o que eh que isso importou no fim? E depois de ler isto ainda adiciono que triste existencialista que eu era em jovem, se eu na altura soubesse como eram as coisas nao tinha ficado o passado domingo em casa a ver o matrix pela 15a vez em vez de ir ao mauerpark acabar com a garrafa de whisky do podji crer e cantar don’t look back in anger como prometido.
A proposito de matrix, nao me lembrava da gaja de vestido vermelho que o outro marado puramente humano que ta na nave especial nabocadezorro e que nunca teve um tubo enfiado pela nuca programou pra testar o neo.
A proposito de gajas do caralho, Barajas eh uma extensao do glamour da gran via, nunca vi tanta gaja boa como no percurso que faco sistematico cada vez que venho cah. E tem piada porque quando vi isso no matrix da gaja de vermelho lembrei me logo da possibilidade dum marado qualquer puramente humano que nunca teve um tubo enfiado pela nuca tar a brincar comigo so pra testar se eu olho pra gajas, mesmo tendo namorada, cada vez que tou em madrid. Se sim vai comer com um tubo na boca da proxima vez que eu tomar a red pill.
A proposito do percurso que eu faco sistematico cada vez que venho as 4 horas ca, consiste em no inicio do percurso no Terminal 1, depois em nas 420 km de passadeiras rolantes ate ao metro (e sempre a mesma interrogacao com o desfibrilador que ta isolado no meio dum corredor que so serve de passagem rapida de transeuntes), depois em na tomada do L8 em direccao ah Colombia atraves da maior distancia entre estacoes de metro no mundo, entre o aeroporto e pinar del rey, depois em no apanhamento do L4 sentido Ibiza, depois em na emersao para o Dia naquela rua em Ibiza onde mamavamos o vodka diet red bull antes de sairmos ah noite, depois em na melancolica e solitaria caminhada para um banco no parque del bom retiro comer grao de bico do dia, da lata, e finalmente em nas familias americanas confundidas com o que se ta a passar na europa.
A proposito do que se ta a passar na europa, este gajo ao meu lado ta a tentar ver o que escrevo mas ele eh italiano. So percebeste esta palavra e agora tas ah nora a pensar cazzo sera que ele se ta a referir a mim ou sera so coincidencia, e por outro lado se ele se refere a mim deve tar a lavar no facto de eu tar a olhar, mas como, se ele nem me consegue ver deste angulo? Mas ele escreveu cazzo outra vez ha bocado portanto devia tar a explicar como se acabam as frases em italiano, mas nesse caso porque eh que ele repetiu cazzo no inicio desta frase? E agora outra vez? CAZZO CARALHO ,CAZZO, vai te foder andrea. Acertei?
Voo pra roma atrasado 4 horas, voo pra lisboa em embarque. Tamanhã mário brown.
o arquivo da foto da semana - \|/*CLASSICO*\|/ Maio de 2004
| penafiel-benfica, 12 de maio de 2004 (12 horas depois) |
| lamentável, tava a usar cinto |
| obviamente antes de me afiliar no holmes |
| "olha-me praquele palhaço a vir em contramão" |
| zerotwo, t-shirt curtida da nike |
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|Flashbecker| - primeira internacionalização
ok, i'll tell you about my quake story first. My dad worked for some company 2 years ago, and they gave him a laptop with a cd-rom and the disc quake. only to install on the computer, not to keep. then we had aol and i was even stupider with computers so i never played multiplayer. I played single player for a year. beating the game over and over again. I had no life whatsoever 2 years ago. Then dad quit and had to give the laptop back. thats probably how i became good at it, but i dont think i'm that good. i only play good when i'm pissed off at someone. About what term said. the 1st time i played multi it was in that server. Naturally i went for the 1st guy that spoke english to me, which what =KILAS=. term was his friend then or something and always messed with me and tried to piss me off. So i can understand why he would tell you that. because he wanted me to get pissed again. i'm gonna have to send this one, then write another one cuz i dont think this email thingy will go down any further. so i'll email you my other one after this.but...if you come here to visit me, it wont just be quake life. i love you to much to think about it as quake life. I dont want to enjoy real life when you're not here!! no one understands how i can love you but i do. I really really really really reallly do. I hate my real life. I dont care about the boys chasing me here. I dont like them. at least the ones in this town, they're so stupid. and if i could never talk to you again, i'd kill myself. i am dead serious. i seriously would. call me obsessed or whatever but i would.I LOVE YOU
- 6 de Abril de 1998
Ok, this is my boston, delia, alexandra whatever story. My real name is
Alexandra but I hate that name. I liked the name delia and told you it was
mine. Boston is my father, and hes obsessive compulsive, so i am NOT going to
beg him to let me play again. I think i will be able to in a week. i can only
check my email for 10 minutes max, but hes not home now. i am a girl, and i
think that gays are sick. i mean people always tell you not to judge people by
that, but i am a very racist person. i dont mean to be, but i live in a white
rich prep town. i actually dont need this online relationship shit, but...its
kinda hard to say. I love the game, and i get a lot of attention which is what
i love even more. And...ummm...when you started talking to me...recently
...my ummm...when you were mean to me and i couldnt talk to you
...umm..my heart hurts. it does. its like, i love you but i really dont know
who you are. but it hurts. And i love you. and i dont know why. i cry all
the time now, and my parents think i'm crazy and that the computer is making me
crazy but thats all a bunch of bs. why did you and term trick me like that the
1st time anyway? Before i went in to play i was talking with diablo and told
him i was wicked gullible, which is when you fall for everything, so i thought
the 2 of you were just testing me. But then today, diablo cussed me out a
million times . i dont love him anymore. I love you. not him. not even a
little bit. My mom told me you're welcome to come and visit me whenever you
want. i even looked up airfare to portugal cuz i was gonna run away. i really
am serious about you coming to visit me. we could walk around boston, and go to
the MALL!!! and the movies. and anywhere else. my heart hurts for you. i know
its corny but its true.
I LOVE YOU
I LOVE YOU
I LOVE YOU
I LOVE YOU
~LoVe~ Alexandra (?Campos?) ;-)
- 1 de Maio de 1998
um ano em Agosto, uma ilha no mediterraneo (memoria do tipo "jazuz")
+ vale saltar já pró últimate fotokilograma pq isto é td prosa-superflua (mas de grande nível) pra poder pôr essa RF-erência fotobinária aqui sem dar cana de açucar pra fazer aguardente em casa (note-se a utilização_de váriadias ténicas de quebra de transdução pra emcriptar o 1º parógrafo abaixo de zero - podes usar o que quiseres só te sai esta frase, namorada estrangeira)
olá!
decorria o ano de todas as mudanças, e em particular, a mudança que viria a ser a maior tinha ocorrido por via duma dança no carpe diem II há 3000 anos atrás.
em 2,7 mil eu brincava ao associativismo juvenil, o que me fodeu 93% da vontade de me deslocar ao IST por razões académicas, por razões óbvias, por razões matrimoniais, por razões psicomotoras, por razões de trissomia, por razões de burnout. Mas ao menos mamei dinheiro à pala do tencnico e safei me à filha da puta pra um interrail com guita dos contribuintes. Por ir a reuniões e defender os alunos e isso.

Nisto tavamos em belgrado e apanhamos o suburbano pra atenas por entre choros e remorsos de não termos tentado flash mob gang bang na sanja durante a última noite. Paramos em várias estações das quais destaco por ordem de chegada à memória ruud van Nis , scófia, testalónica, larissa riquelme e umas vistas pro monte olimpico de munique 36. Escusado será dizer que em testa assistimos ao paokara, do qual trouxe um caxecool a dizer em maiúsculas pi-A-o-K o que significa pantestalónicos atlético regressados de konstantinopla. Os testalónicos são loucos pra começar. Era um jogo amigável contra o liforno e mesmo assim amandaram com bués da verylights e torchas.
(antes da simetrização facial, obrigado doutor jones)
Entretanto desde que tinhamos bazado de branco castelo já mais de 30 horas se tinham evaporado sem que tivesse havido oportunidade de recomposição higiénica por exemplo. Eu pessoalmente ainda tava a cajú e everlong mas sobrevivia. As estações de comboio têm sandes de merda, quando me tento lembrar de qualquer coisa morro sempre neste pensamento.
(pat sonha com rúben)
O último comboio de testalónica pra antenas partiu às 22h com 55º à sombra, e não tinha cadeiras mas só beliches. o nosso quarto era partilhado com um indivíduo de raça negra e uma gaja grega in medias res da sua 3ª década, vulgo frustrada. Todos entramos no comboio a apelar ao futuro que não nos reservasse convergência de cabine mas assim foi e 2 minutos volvidos na carruagem o caldo já se entornava. A gaja grega acho que era um bocado racista, e nas montanhas anti-europeista. Olhando pra isto agora assim friamente, a gaja até se calhar tinha razão na cena da europa. O coitado do black dormiu isolado no beliche, há males que vêm por bem e a catinga é bem capaz de ser uma arma contra vários incómodos. O patrício e a grega viveram um romance aceso durante toda a viagem, jogados no chão como almas livres a viver uma efémera paixão de comboio.
(o preto a dormir no beliche, visto do corredor)
Chegamos fortes, com 46 horas de viagem em cima, sem barco, sem dignidade e não vimos a acrople. Porque fomos directos pró porto de recreio do metro de syntagma pra sermos naturalmente enrabados na venda dos bilhetes de catamarande. Foram 7 da manhã carregadas de forte névoa cansática que condicionaram esta previsibilidade. Felizmente ao menos só tivemos que esperar mais 8 horas pelo barco. A Grécia fica mesmo a norte do egipto, daí a mútua influência pagã se reparares - difícil acreditar que os minoanos é que fizeram a ponte, uma ilha tão tretas, sem um clube de futebol a sério sequer.
(pat sonha "acordado")
Descansamos de forma desortodoxa em frente dumas escadas ortodoxas em pireias mas houve uma alta ideia em ir procurar uma lavandaria. Tava com tanta vontade de ir procurar uma lavandaria como de enfiar uma knifa no ocipital e começar a ver só pilas à frente mas as coisas são assim e manada é mainada. Já antes todos nós nos tinhamos-nos nos chateado-nos uns cús outros por diversas razões, o que fora, fazendo a regra de 3 simples, um x na cheque list do interrail, que já tinhamos lido antes em sites da especialidade. Mas em toda a honestidade foi uma ideia do topo da liga porque - tinha me esquecido ao abrigo das temperaturas exruciantes -, eu já não tinha roupa boa pra atacar o pat/rúben na ilha de santorini morango e avelã, e na minha cabeça ou era em santorini no pôr do sol em oia que vi em fotos na internet ou nunca mais na vida lhes alcancaria um beijo, ou quiça talvez mais qualquer coisa... deixo em aberto.
(isto foi no carnaval de torres)
Então fomos perdidos em direcção a uma levandaria sem ter sequer mapas porque o lonely planet não pensava num gajo querer lavandarias em olympiakos piraeus. o lonely planet - prós novos em 2028 (aviva/mia/kratos) -, era aquela cena que os backpackers vulgo commonwealthers levavam há uns anos pra se orientarem mas que agora são bué mainstream para além de que só compilam tourist trumps. O melhor agora é saberes a word da street à moda antiga - e só assim pra te levares a sério cómum viajante "autêntico". E foi assim que na realidade encontrámos a lavandaria e na realidade lavámos a roupa e na realidade fómos "dormir" pro pé do barco depois.
(levandaria socrática secreta)
(pat sempre alerta)
Entretanto à medida que o relógio batia nas 5 da tarde o nosso ponteiro subia ao meio-dia com o afluxo de pitas gyras (HAHA) a embar/borcar pela popa rasa do navio adentro como se tivessem a distribuir proas, perdão, rebuçados, na proa (HAHAH). E é então que começamos a voar baixinho enquanto personagens espirituosos e dominantes socialmente:
(descontrolados de entusiasmo a caminho de santorini)
A viagem em si foi de grande camaradagem e companheirismo individual. Mesmo assim, a bordo do navio ultrasónico do tipo catamaran houve ainda tempo para desbravar estéticamente a inteira totalidade da península do pelopopepmpeso kalamaratiotis susudoeste. E que estética:
o pelopopepmpeso, na horizontal amarela
Piada é que nisto um dá-se de si e ascende espiritualmente a um hieróglifo. Mar jónio, onde tudo aconteceu: onde passaram os barcos com o bronze de erzebirge pro colllosso de rodas..., onde passaram os barcos com a madeira romena pro cavalo de trojan..., onde passaram os barcos com filósofos gregos prá pedoparade de helicarnasso '577 AC..., onde atravesseram em trajectória túnel-de-luz os fotões mágicos a azeite do grande faraó de alexandria..., onde se encontra o ponto heléniocêntrico de iluminação máxima do intelecto humano de todos os tempos, em knossos, entre hypatia, eratostenes, dramasco, shtambul e parabólicas ao mesmo tempo. Tudo isto serve pra um gajo se interrogar sobre cenas realmente relevantes. Porque é que o egiptos não puseram um acabamento em diamante na keops? Se os grandes cientistas naturais todos eram larilas, será a homossexualidade um sintoma de genialidade? Se os grandes cientistas naturais todos eram pedófilos, serão as crianças uma fonte de inspiração intelectual? constantinopla afinal foi grega alguma vez ou não? o chipre é a nova ibiza? se o danilo tá no delta do nilo, o alfa onde tá? será que vão haver mais atentados terroristas em luxor/sharm-el-sheikh ou os 20 club meds de haifa já têm a taxa de ocupação a 100% prós próximos 50 séculos?
(se o sol se põe nas minhas costas, como fodo a luana?)
(pat em altas)
como é óbvio, acabamos por nunca chegar ao nosso destino. tou a brincar, o barco afundou. E o tony the legend(/) disse nos(*)
/where are you from?
*portugal
/AH PORTUGALIA, MY FRIENDS! You need place to stay?
*we don't have much money
/NO PROBLEM! I KNOW YOUR SITUATION, COME WITH ME
*we can't afford much
/I KNOW PORTUGALIA, MY FRIEND, I KNOW YOUR SITUATION, WAIT HERE FOR ME
o tony deixou-nos intencionalmente numa área reservada imaginária dum canto notoriamente mal iluminado e foi recrutar mais malta à saida do barco. Presumo que tenha sido uma estratégia pra não sermos interpolados por outro touripredador.
passados 5 minutos o tony volta com uma gaja boa e um piolho namorado dela, ela era capaz de ser francesa e ele americano ou talvez vice-versa, ambas as hipóteses fazem sentido
o tony levou-nos pra uma ford transit se calhar vermelha sem nunca nos atirar um preço pró ar. /WE WILL SEE, COME WITH ME, WE TALK AFTER, DONT WORRY PORTUGALIA. Tivemos quase a lhe atirar um bife com batatas fritas.
(a ford transit "vermelha" do tony)
o pat ao se sentar no banco de trás da ford, o estofe deu um mortal à rectaguarda, ainda bem que o tony não viu. No caminho fomos a ouvir um monólogo de marketing do Tony.
podia explicar o que significa privar com o tony the legend mas é perder tempo. Não existe semântica pra um personagem destes. Ele basicamente domina de forma avassaladora a sociedade de perissa, é uma vila que gira em torno do seu astro maior, o rei tony e o resto deverá se adaptar. Prós turistas, ele no fundo tá ali pra ganhar dinheiro, mas é acho que é também bom rapaz. Nós não pagamos uma noite, talvez por lapso da mulher dele, que faz a contabilidade. Nunca vamos saber. Eis como tony the legend se descreve a si próprio:
"Antonio Prekas, born and raised in Santorini is a very succesful hotel owner who started creating his art work as a hobby in 2000. His art is many hotels around Santorini Island. Tony began creating his art while working as a carpenter for twelve years. Over the years his art work has developed and become very popular."
um dia alguma cena vai me fazer escrever o que se passou em santorini, mas agora não tenho paxorra e acho que se meter esta merda agora aqui já não dá grande cana porque é a continuação da história.
No tony the legend villa conhecemos umas italianas
(primeira vez que provei amstel)
olá!
decorria o ano de todas as mudanças, e em particular, a mudança que viria a ser a maior tinha ocorrido por via duma dança no carpe diem II há 3000 anos atrás.
em 2,7 mil eu brincava ao associativismo juvenil, o que me fodeu 93% da vontade de me deslocar ao IST por razões académicas, por razões óbvias, por razões matrimoniais, por razões psicomotoras, por razões de trissomia, por razões de burnout. Mas ao menos mamei dinheiro à pala do tencnico e safei me à filha da puta pra um interrail com guita dos contribuintes. Por ir a reuniões e defender os alunos e isso.
Nisto tavamos em belgrado e apanhamos o suburbano pra atenas por entre choros e remorsos de não termos tentado flash mob gang bang na sanja durante a última noite. Paramos em várias estações das quais destaco por ordem de chegada à memória ruud van Nis , scófia, testalónica, larissa riquelme e umas vistas pro monte olimpico de munique 36. Escusado será dizer que em testa assistimos ao paokara, do qual trouxe um caxecool a dizer em maiúsculas pi-A-o-K o que significa pantestalónicos atlético regressados de konstantinopla. Os testalónicos são loucos pra começar. Era um jogo amigável contra o liforno e mesmo assim amandaram com bués da verylights e torchas.
Entretanto desde que tinhamos bazado de branco castelo já mais de 30 horas se tinham evaporado sem que tivesse havido oportunidade de recomposição higiénica por exemplo. Eu pessoalmente ainda tava a cajú e everlong mas sobrevivia. As estações de comboio têm sandes de merda, quando me tento lembrar de qualquer coisa morro sempre neste pensamento.
O último comboio de testalónica pra antenas partiu às 22h com 55º à sombra, e não tinha cadeiras mas só beliches. o nosso quarto era partilhado com um indivíduo de raça negra e uma gaja grega in medias res da sua 3ª década, vulgo frustrada. Todos entramos no comboio a apelar ao futuro que não nos reservasse convergência de cabine mas assim foi e 2 minutos volvidos na carruagem o caldo já se entornava. A gaja grega acho que era um bocado racista, e nas montanhas anti-europeista. Olhando pra isto agora assim friamente, a gaja até se calhar tinha razão na cena da europa. O coitado do black dormiu isolado no beliche, há males que vêm por bem e a catinga é bem capaz de ser uma arma contra vários incómodos. O patrício e a grega viveram um romance aceso durante toda a viagem, jogados no chão como almas livres a viver uma efémera paixão de comboio.
Chegamos fortes, com 46 horas de viagem em cima, sem barco, sem dignidade e não vimos a acrople. Porque fomos directos pró porto de recreio do metro de syntagma pra sermos naturalmente enrabados na venda dos bilhetes de catamarande. Foram 7 da manhã carregadas de forte névoa cansática que condicionaram esta previsibilidade. Felizmente ao menos só tivemos que esperar mais 8 horas pelo barco. A Grécia fica mesmo a norte do egipto, daí a mútua influência pagã se reparares - difícil acreditar que os minoanos é que fizeram a ponte, uma ilha tão tretas, sem um clube de futebol a sério sequer.
Descansamos de forma desortodoxa em frente dumas escadas ortodoxas em pireias mas houve uma alta ideia em ir procurar uma lavandaria. Tava com tanta vontade de ir procurar uma lavandaria como de enfiar uma knifa no ocipital e começar a ver só pilas à frente mas as coisas são assim e manada é mainada. Já antes todos nós nos tinhamos-nos nos chateado-nos uns cús outros por diversas razões, o que fora, fazendo a regra de 3 simples, um x na cheque list do interrail, que já tinhamos lido antes em sites da especialidade. Mas em toda a honestidade foi uma ideia do topo da liga porque - tinha me esquecido ao abrigo das temperaturas exruciantes -, eu já não tinha roupa boa pra atacar o pat/rúben na ilha de santorini morango e avelã, e na minha cabeça ou era em santorini no pôr do sol em oia que vi em fotos na internet ou nunca mais na vida lhes alcancaria um beijo, ou quiça talvez mais qualquer coisa... deixo em aberto.
(isto foi no carnaval de torres)Então fomos perdidos em direcção a uma levandaria sem ter sequer mapas porque o lonely planet não pensava num gajo querer lavandarias em olympiakos piraeus. o lonely planet - prós novos em 2028 (aviva/mia/kratos) -, era aquela cena que os backpackers vulgo commonwealthers levavam há uns anos pra se orientarem mas que agora são bué mainstream para além de que só compilam tourist trumps. O melhor agora é saberes a word da street à moda antiga - e só assim pra te levares a sério cómum viajante "autêntico". E foi assim que na realidade encontrámos a lavandaria e na realidade lavámos a roupa e na realidade fómos "dormir" pro pé do barco depois.
Entretanto à medida que o relógio batia nas 5 da tarde o nosso ponteiro subia ao meio-dia com o afluxo de pitas gyras (HAHA) a embar/borcar pela popa rasa do navio adentro como se tivessem a distribuir proas, perdão, rebuçados, na proa (HAHAH). E é então que começamos a voar baixinho enquanto personagens espirituosos e dominantes socialmente:
A viagem em si foi de grande camaradagem e companheirismo individual. Mesmo assim, a bordo do navio ultrasónico do tipo catamaran houve ainda tempo para desbravar estéticamente a inteira totalidade da península do pelopopepmpeso kalamaratiotis susudoeste. E que estética:
Piada é que nisto um dá-se de si e ascende espiritualmente a um hieróglifo. Mar jónio, onde tudo aconteceu: onde passaram os barcos com o bronze de erzebirge pro colllosso de rodas..., onde passaram os barcos com a madeira romena pro cavalo de trojan..., onde passaram os barcos com filósofos gregos prá pedoparade de helicarnasso '577 AC..., onde atravesseram em trajectória túnel-de-luz os fotões mágicos a azeite do grande faraó de alexandria..., onde se encontra o ponto heléniocêntrico de iluminação máxima do intelecto humano de todos os tempos, em knossos, entre hypatia, eratostenes, dramasco, shtambul e parabólicas ao mesmo tempo. Tudo isto serve pra um gajo se interrogar sobre cenas realmente relevantes. Porque é que o egiptos não puseram um acabamento em diamante na keops? Se os grandes cientistas naturais todos eram larilas, será a homossexualidade um sintoma de genialidade? Se os grandes cientistas naturais todos eram pedófilos, serão as crianças uma fonte de inspiração intelectual? constantinopla afinal foi grega alguma vez ou não? o chipre é a nova ibiza? se o danilo tá no delta do nilo, o alfa onde tá? será que vão haver mais atentados terroristas em luxor/sharm-el-sheikh ou os 20 club meds de haifa já têm a taxa de ocupação a 100% prós próximos 50 séculos?
como é óbvio, acabamos por nunca chegar ao nosso destino. tou a brincar, o barco afundou. E o tony the legend(/) disse nos(*)
/where are you from?
*portugal
/AH PORTUGALIA, MY FRIENDS! You need place to stay?
*we don't have much money
/NO PROBLEM! I KNOW YOUR SITUATION, COME WITH ME
*we can't afford much
/I KNOW PORTUGALIA, MY FRIEND, I KNOW YOUR SITUATION, WAIT HERE FOR ME
o tony deixou-nos intencionalmente numa área reservada imaginária dum canto notoriamente mal iluminado e foi recrutar mais malta à saida do barco. Presumo que tenha sido uma estratégia pra não sermos interpolados por outro touripredador.
passados 5 minutos o tony volta com uma gaja boa e um piolho namorado dela, ela era capaz de ser francesa e ele americano ou talvez vice-versa, ambas as hipóteses fazem sentido
o tony levou-nos pra uma ford transit se calhar vermelha sem nunca nos atirar um preço pró ar. /WE WILL SEE, COME WITH ME, WE TALK AFTER, DONT WORRY PORTUGALIA. Tivemos quase a lhe atirar um bife com batatas fritas.
o pat ao se sentar no banco de trás da ford, o estofe deu um mortal à rectaguarda, ainda bem que o tony não viu. No caminho fomos a ouvir um monólogo de marketing do Tony.
podia explicar o que significa privar com o tony the legend mas é perder tempo. Não existe semântica pra um personagem destes. Ele basicamente domina de forma avassaladora a sociedade de perissa, é uma vila que gira em torno do seu astro maior, o rei tony e o resto deverá se adaptar. Prós turistas, ele no fundo tá ali pra ganhar dinheiro, mas é acho que é também bom rapaz. Nós não pagamos uma noite, talvez por lapso da mulher dele, que faz a contabilidade. Nunca vamos saber. Eis como tony the legend se descreve a si próprio:
"Antonio Prekas, born and raised in Santorini is a very succesful hotel owner who started creating his art work as a hobby in 2000. His art is many hotels around Santorini Island. Tony began creating his art while working as a carpenter for twelve years. Over the years his art work has developed and become very popular."
um dia alguma cena vai me fazer escrever o que se passou em santorini, mas agora não tenho paxorra e acho que se meter esta merda agora aqui já não dá grande cana porque é a continuação da história.
No tony the legend villa conhecemos umas italianas
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6 de Julho de 1999, Madeira (és aquele garino do surfe)

Em 1999, há 11 anos, eu tinha 16. Aos 16 anos eu era bué feio, um bocado gordo e uma merda em tudo excepto no quake. Há coisas que não mudam, mas hoje o quake tá obsoleto, tal como o meu ouvido direito, pelo que agora sou totalmente indivisível do fracasso e para além disso (e talvez relacionado) nao dou atenção a nada que venha da direita.
doravante neste texto, sempre que me referir a nós ou eles refiro-me a "amigos".
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Na versão 1999 do verão, houve o campeonato do mundo de surf no jardim do mar, uma vilha a 20 minutos da calheta pelas tradicionais estradas da altura e que ainda se mantêm.
O jardim do mar, grosso modo, é como que se uma vila transmontana se materializasse inexplicavelmente no hawai. É por isso duma paz bidimensional. É povoado por hippies old school de várias nacionalidades, imiscuidos na plebe meia venezuelana, relativamente confusa com os motivos profundos dos imigrantes do peace&love. A história típica é que vieram um dia pra surfar e tiveram medo de regressar à vida. Faz-nos falta ter medo da "vida". Eles, os inanos cobardes da civilização, adoptam agricultura de subsistência durante o dia, mantêm pubs caribe surf durante a noite e pintam quadros todos fodidos para terem extra income de estrangeirada como eles de madrugada. Para os quadros e dos quadros só há fluxo em modo LSD, não é possível tar ligado em estado convencional, daí que os autores observem os mundanos potenciais compradores com a atitude chacota-zen cerimonial deles, como que se os considerassem presos a um só plano incompleto, sem hipóteses de entender a hiper-verdade etérea a pairar nas galerias de quintal que se somam , integrados pela vila fora.
Nós não tinhamos (mais) LSD, mas tinhamos uma substância preta que o costa trouxe do boom festival que até hoje acho que era tinta da china diluída, e fruta podre do norte de áfrica que eu podia ter trazido de casa também. E havia sempre o whisky/vodka no recém aberto pingo doce da calheta, em frente ao hotel da praia, na altura ainda em calhau. Chegamos ao jardim do mar como partimos: sem esperar absolutamente nada do futuro próximo, e à boleia do pai do Claudio, um veterano do ultramar com um familiar leque absurdo de histórias surreais (erm). O navio que o transportava afundou ao largo da costa africana e só sobreviveu porque não combateu a maré; certo dia a caçar com os amigos no poço do bispo viu um disco voador a tentar aterrar numa clareira. E por aí fora. Nunca percebi se o claudio mentia para emular a eloquente vivência paterna ou se havia correlacao genética na utilizacao das hiperboles. Factual foi que nós, a meio desta tarde, aterramos, eloquentemente, no jardim do mar - para ver o campeonato do mundo de surf.
Na altura nunca tinham havido grandes festivais de música na madeira, e bem, em retrospectiva no jardim do mar tava a comoção no ar que é típica dum festival de música. A sensação sólida de que será para todos os efeitos uma noite histórica e falada para várias oportunidades. Os betos e os anti-betos vulgo betos rebeldes vulgo - hoje - morangos, tavam todos lá batidos. As gajas todas que passavamos semana sim semana sim senhor a mirar depravadamente à porta do liceu depois das aulas na industrial tavam naturalmente também lá, já despidas de alma, num modo muito british underage sluts in albufehria. Mas desenvolviam boas como o milho, e nós, contrariamente ao meu primo, todos gostavamos de milho pra caralho, passe a expressão. O Tega em particular tinha problemas, obviamente. O quarto dele nos apartamentos caracas cheirava fortemente a sémen, e não do tipo fresco, mas sémen já com algumas horas/dias de acumulação nos contornos do prepúcio aka queijada. Incrível como o odor fétido transpirava das cuecas e ganga e acabava a pairar no ar morto da câmara de masturbação a que ele chamava "o meu quarto". Dessem-lhe um video da jenna jameson a sacar uma broxada ao peter north ou uma cópia do windows 95 e o gajo jorrava ouro branco incontrolavelmente. Depravado do caralho.
Como dizia, as pitas ricas, que na altura constituiam nossa geração apesar de já atraírem vasta admiração de faixas etárias superiores, tinham vindo claramente para o debroche, embora estando pré programadas para se oferecer em primeira, segunda e terceira hipótese aos surfistas de gabarite intercontinental que já durante a tarde se partiam todos no Joe's bar à procura da resposta para o nada. É claro que sabiamos que haviam mais marés que surfistas e que alguma coisa ia sobrar pra nós, e com um bocado de sorte, pró Tega - flagelado pelo acne por culpa e responsabilidade própria -, mas tavamos lá, acima de tudo, para cagar prás gajas e fazer merda, embora qualquer acção nesse sentido tivesse precisamente o objectivo de impressioná-las. Enfim, um ciclo infinito que se encerrava sobre a obssessão de comer uma gaja que durou mais (anos) para uns do que para outros mas que hoje em dia, volvidos 132 meses me parece que se pode considerar confortavelmente fechado, embora ainda me seja pouco claro o caso do claudio, a menos que tenha pago, isto é.
Entrando pelo desconhecido do beco principal da vilha, ignorada a essência combinada a maresia e primeiros ciclos menstruais que já pairava no ar pelo fim da tarde, chocamos com um peculiar personagem que, pela sua indefinida existência, suponho, tem vindo a seguir uma distribuição discreta no que toca à sua influência na minha vida e - presumo - a dos outros. As suas aparições, como as de virgem maria do catolicismo, para além de constituirem só de si acontecimentos raros e inexplicáveis, profetizam invariavelmente obscuras resoluções a nível local, normalmente carregando notas trágicas que se repercutem com intensidade crescente noite fora e cujo clímax se concretiza, embora em paralelo, com o momento da sua própria desaparição. E eis que, 2 horas e 2 garrafas de vodka depois, o david trindade diz: "os gajos ali no hotel, no único hotel desta merda toda, têm 3 garrafas de whisky. nao metas isto no blog que vais criar em 2008 se faz favor". As smirnoff do pingo doce, compradas horas antes com a conivência displicente do pai do claudio, tavam ja partidas no calhau do jardim do mar, sem respingar nada senão ar pro immer puro atlântico. O joe's bar tava em fase colmeia, e vencer na confusão não era o nosso forte ainda nesta idade, fosse qual fosse o objectivo. Daí que o Trinita tivesse efectivamente razão. 16 anos, nada a perder, só a ganhar: whisky, e histórias, para esquecer. Se fossemos presos tanto melhor, eramos a fruta da época na escola como consequência. Entrei no hotel com o david e não tava ninguém na recepção, e tava escuro. Estranhei mas dei luz verde. Ele entrou e foi atrás do balcão de cócoras. Trouxe 2 garrafas de whisky, rótulo vermelho, e mais importantemente as chaves para uma noite tarantiniana.
Jogamos mais 2 garrafas de whisky, sem respingar nada senão ar, para os seixos da praia, em consêquencia de mais um par de horas hoje indefinidamente passadas. Alguém eco-moralizou acerca da acção. Eu sempre me senti bem em partir garrafas, e nunca falhei a praia à distância dum precipício com vista para o infinito, mas mostrei me sensível às nobres lamentações e pedi desculpa. Prometi ao costa que no outro dia voltava para limpar os cacos, assumia responsabilidade total. 6 anos e uma promessa falhada depois, uma caterpillar, de fabrico americano, removeu os meus cacos do jardim do mar, inchados de sol e sal, testemunhas durante mais algumas centenas de anos daquela inebriação pontual nossa, mas mais tristemente da inebriação permanente dum capitalismo intratável que insiste em destruir caminhos simples para a felicidade. o jardim do mar ainda existe em 2010, mas já não há jardim do mar nele.
E como o capitalismo, as noites, pelo menos as minhas, são um comboio, uma locomotiva que desbrava a escuridão da sobriedade na sôfrega ansia de consumir mais alcóol. Talvez torne tudo ainda melhor, o próximo copo. Talvez depois deste whisky eu ache mais piada a esta merda toda, talvez ria das piadas do gonçalo ou ignore a penca da natacha. Há dias o Erol, um turco muçulmano que nunca tocou em alcóol na vida, decidiu, numa hipocrisia típica de quem está no topo dum pedestal meramente circunstancial, remeter o hábito alcóolico dos infieis para o patamar de colmatação de uma deficiência étnica/pessoal. Fê-lo de forma relativamente pacífica mas tão ingénua como insolente: "I don't drink because i am a muslim, but also because i don't feel the need. I don't need to drink to make myself more interesting to other people".
O jardim do mar, grosso modo, é como que se uma vila transmontana se materializasse inexplicavelmente no hawai. É por isso duma paz bidimensional. É povoado por hippies old school de várias nacionalidades, imiscuidos na plebe meia venezuelana, relativamente confusa com os motivos profundos dos imigrantes do peace&love. A história típica é que vieram um dia pra surfar e tiveram medo de regressar à vida. Faz-nos falta ter medo da "vida". Eles, os inanos cobardes da civilização, adoptam agricultura de subsistência durante o dia, mantêm pubs caribe surf durante a noite e pintam quadros todos fodidos para terem extra income de estrangeirada como eles de madrugada. Para os quadros e dos quadros só há fluxo em modo LSD, não é possível tar ligado em estado convencional, daí que os autores observem os mundanos potenciais compradores com a atitude chacota-zen cerimonial deles, como que se os considerassem presos a um só plano incompleto, sem hipóteses de entender a hiper-verdade etérea a pairar nas galerias de quintal que se somam , integrados pela vila fora.
Nós não tinhamos (mais) LSD, mas tinhamos uma substância preta que o costa trouxe do boom festival que até hoje acho que era tinta da china diluída, e fruta podre do norte de áfrica que eu podia ter trazido de casa também. E havia sempre o whisky/vodka no recém aberto pingo doce da calheta, em frente ao hotel da praia, na altura ainda em calhau. Chegamos ao jardim do mar como partimos: sem esperar absolutamente nada do futuro próximo, e à boleia do pai do Claudio, um veterano do ultramar com um familiar leque absurdo de histórias surreais (erm). O navio que o transportava afundou ao largo da costa africana e só sobreviveu porque não combateu a maré; certo dia a caçar com os amigos no poço do bispo viu um disco voador a tentar aterrar numa clareira. E por aí fora. Nunca percebi se o claudio mentia para emular a eloquente vivência paterna ou se havia correlacao genética na utilizacao das hiperboles. Factual foi que nós, a meio desta tarde, aterramos, eloquentemente, no jardim do mar - para ver o campeonato do mundo de surf.
Na altura nunca tinham havido grandes festivais de música na madeira, e bem, em retrospectiva no jardim do mar tava a comoção no ar que é típica dum festival de música. A sensação sólida de que será para todos os efeitos uma noite histórica e falada para várias oportunidades. Os betos e os anti-betos vulgo betos rebeldes vulgo - hoje - morangos, tavam todos lá batidos. As gajas todas que passavamos semana sim semana sim senhor a mirar depravadamente à porta do liceu depois das aulas na industrial tavam naturalmente também lá, já despidas de alma, num modo muito british underage sluts in albufehria. Mas desenvolviam boas como o milho, e nós, contrariamente ao meu primo, todos gostavamos de milho pra caralho, passe a expressão. O Tega em particular tinha problemas, obviamente. O quarto dele nos apartamentos caracas cheirava fortemente a sémen, e não do tipo fresco, mas sémen já com algumas horas/dias de acumulação nos contornos do prepúcio aka queijada. Incrível como o odor fétido transpirava das cuecas e ganga e acabava a pairar no ar morto da câmara de masturbação a que ele chamava "o meu quarto". Dessem-lhe um video da jenna jameson a sacar uma broxada ao peter north ou uma cópia do windows 95 e o gajo jorrava ouro branco incontrolavelmente. Depravado do caralho.
Como dizia, as pitas ricas, que na altura constituiam nossa geração apesar de já atraírem vasta admiração de faixas etárias superiores, tinham vindo claramente para o debroche, embora estando pré programadas para se oferecer em primeira, segunda e terceira hipótese aos surfistas de gabarite intercontinental que já durante a tarde se partiam todos no Joe's bar à procura da resposta para o nada. É claro que sabiamos que haviam mais marés que surfistas e que alguma coisa ia sobrar pra nós, e com um bocado de sorte, pró Tega - flagelado pelo acne por culpa e responsabilidade própria -, mas tavamos lá, acima de tudo, para cagar prás gajas e fazer merda, embora qualquer acção nesse sentido tivesse precisamente o objectivo de impressioná-las. Enfim, um ciclo infinito que se encerrava sobre a obssessão de comer uma gaja que durou mais (anos) para uns do que para outros mas que hoje em dia, volvidos 132 meses me parece que se pode considerar confortavelmente fechado, embora ainda me seja pouco claro o caso do claudio, a menos que tenha pago, isto é.
Entrando pelo desconhecido do beco principal da vilha, ignorada a essência combinada a maresia e primeiros ciclos menstruais que já pairava no ar pelo fim da tarde, chocamos com um peculiar personagem que, pela sua indefinida existência, suponho, tem vindo a seguir uma distribuição discreta no que toca à sua influência na minha vida e - presumo - a dos outros. As suas aparições, como as de virgem maria do catolicismo, para além de constituirem só de si acontecimentos raros e inexplicáveis, profetizam invariavelmente obscuras resoluções a nível local, normalmente carregando notas trágicas que se repercutem com intensidade crescente noite fora e cujo clímax se concretiza, embora em paralelo, com o momento da sua própria desaparição. E eis que, 2 horas e 2 garrafas de vodka depois, o david trindade diz: "os gajos ali no hotel, no único hotel desta merda toda, têm 3 garrafas de whisky. nao metas isto no blog que vais criar em 2008 se faz favor". As smirnoff do pingo doce, compradas horas antes com a conivência displicente do pai do claudio, tavam ja partidas no calhau do jardim do mar, sem respingar nada senão ar pro immer puro atlântico. O joe's bar tava em fase colmeia, e vencer na confusão não era o nosso forte ainda nesta idade, fosse qual fosse o objectivo. Daí que o Trinita tivesse efectivamente razão. 16 anos, nada a perder, só a ganhar: whisky, e histórias, para esquecer. Se fossemos presos tanto melhor, eramos a fruta da época na escola como consequência. Entrei no hotel com o david e não tava ninguém na recepção, e tava escuro. Estranhei mas dei luz verde. Ele entrou e foi atrás do balcão de cócoras. Trouxe 2 garrafas de whisky, rótulo vermelho, e mais importantemente as chaves para uma noite tarantiniana.
Jogamos mais 2 garrafas de whisky, sem respingar nada senão ar, para os seixos da praia, em consêquencia de mais um par de horas hoje indefinidamente passadas. Alguém eco-moralizou acerca da acção. Eu sempre me senti bem em partir garrafas, e nunca falhei a praia à distância dum precipício com vista para o infinito, mas mostrei me sensível às nobres lamentações e pedi desculpa. Prometi ao costa que no outro dia voltava para limpar os cacos, assumia responsabilidade total. 6 anos e uma promessa falhada depois, uma caterpillar, de fabrico americano, removeu os meus cacos do jardim do mar, inchados de sol e sal, testemunhas durante mais algumas centenas de anos daquela inebriação pontual nossa, mas mais tristemente da inebriação permanente dum capitalismo intratável que insiste em destruir caminhos simples para a felicidade. o jardim do mar ainda existe em 2010, mas já não há jardim do mar nele.
E como o capitalismo, as noites, pelo menos as minhas, são um comboio, uma locomotiva que desbrava a escuridão da sobriedade na sôfrega ansia de consumir mais alcóol. Talvez torne tudo ainda melhor, o próximo copo. Talvez depois deste whisky eu ache mais piada a esta merda toda, talvez ria das piadas do gonçalo ou ignore a penca da natacha. Há dias o Erol, um turco muçulmano que nunca tocou em alcóol na vida, decidiu, numa hipocrisia típica de quem está no topo dum pedestal meramente circunstancial, remeter o hábito alcóolico dos infieis para o patamar de colmatação de uma deficiência étnica/pessoal. Fê-lo de forma relativamente pacífica mas tão ingénua como insolente: "I don't drink because i am a muslim, but also because i don't feel the need. I don't need to drink to make myself more interesting to other people".
Eu não gosto do gajo. Em suma: é puto, gabarolas e turco, o que é um contra senso porque eu curto o cabeças. Mas respondi no espírito de alguém desprendido a opiniões ou juízos de valor: "Man, i drink a lot, but the thing is, i don't drink to make myself interesting, i drink to make the other people, and everything else, more interesting". Não sei se ele percebeu, mas não respondeu de volta, só sorriu. Inteligente, para um turco.
No Joe's bar, uma década antes, as coisas tavam já interessantes às 2 da manhã. Aliás todo o bar era um complexo de interesses, na fase da noite em que os complexos de interesses se desenlaçam em rápida sucessão como peças dum dominó carnal cuidadosamente montado nas horas antecedentes. E se o jogo era dominó eu e o tega eramos duques de paus e copas, inaptos à sobrevivência no ambiente. Paramos à porta do bar, no beco semi escuro, cheiro forte a xamon-rá, gajos altos de cabelo louro, dos filmes da california. Mas eram australianos, neo zelandeses, ya alguns americanos. Um sul africano, que liderava a prova à entrada para o último dia, de rastas. O flea lá a bombar, um gajo porreiro, normal, relaxado, trocamos uma cerveja, chegou um neo zelandes, acabo a falar com ele bilateralmente.
"My surf board was made by rabbits, back in new zealand." eu era puto, parecia-me que tava a gozar comigo, mas o intuito podia ser benigno, hoje seria diferente - o que anos em lisboa fazem aos reflexos sociais. Continua - "Yeah man, rabbits make my surf boards, they work on it all year long... but i don't like them... let's kill some rabbits". Trau, despeja-me a coral directamente sobre a cabeça.
Não percebi, até hoje, o que se passou - porquê, com que propósito. Ninguém riu, ficamos todos a olhar uns para os outros, não carregava ónus humorístico nenhum, nem de agressividade. Foi um acontecimento quasi-aleatório, tal como o é a sequência de boas e más ondas num qualquer litoral do mundo. Algumas podem-se apanhar, outras não. Optei pela inexistência, retirei-me para dentro do bar convencido de que os surfers, se pacíficos, agem de forma dúbia, e se relaxados, precisam de ser menos individualistas.
O joe's bar, por dentro, tinha a seguinte descrição: era um bar de surfers, para resposta curta. Para resposta maior e divagável, as sacramentais pranchas de surf com stickers de marcas míticas da indústria fundamentalmente anti capitalista que se baseia num modelo de negocios estritamente capitalista dividiam-se com bandeiras de proto-países ou regimes de extrema esquerda, os habituais trofeus frívolos daquela casta superior de pseudo liberais revivalistas que têm no querido líder o intérdito paradoxo último da Doutrina Falhada. Uma filial da incontável confederação de museus de contradições espalhadas pelo mundo. O franchising do Che. Ele não teria gostado, camaradas...
Ao fundo da filial, por baixo da bandeira de "canárias independente", havia uma mesa redonda, com espaço para 10 pessoas praí. Tava lá uma miúda sentada, de 15 anos, a maria trueva, na altura bué gira, hoje não sei mas posso ir ver ao facebook, depois vou. A maria trueva, no ano anterior, na festa de aniversário dos 14 anos da minha irmã, tava em fuego por mim. Eu aos 14 anos da minha irma era do karting e gozei de sucesso abrupto junto às menininhas no tempo que compreendeu rigorosamente a altura em que entrei para o karting e a altura em que saí, 2 anos e um motor rotax roubado pelo meu mecânico depois, esse filha da puta do ricardo pita. No jardim do mar eu já não era do karting, porque tinha preferido um computador novo que o meu pai só me deu passados alguns anos - por estratégia educativa. E com isso agora nem computador nem karting nem gajas. quem tudo perde tudo quer e o alcóol compreendia-me. vodka limao Joe. ah ya e outra pro tega.
sento-me à mesa com o tega, na mesa da maria, a conversar sobre merdas. Irrelevante. Ela brilhava, era cativante, apetecia-me lhe beijar os olhos azuis ávidos, com uma permanente urgência escrita sobre eles. "Quero viver - o mais rápido possível-, quero sentir tudo já". Eu respondia aos olhos dela - o que queres dizer com "tudo"? Não tinha andamento, fui à casa de banho me olhar ao espelho e pensar na função audácia versus humilhação. Volto convencido de que não devia existir, e de repente, de forma incorrelacionada, ela bate com as mãos na mesa e anuncia/pergunta a todo o auditório - "quem é que quer foder comigo?". Ela, que há um ano tava louca ao ponto da minha irmã perguntar se dava para alguma coisa comigo, preferia sexo aleatório do que se entregar ao meu. Fiquei deprimido e fui me embora à procura do david para lhe exigir o 3º segredo da noite. Perdi tanto a trueva como a sua oferta de vista. O tega, entusiasmado, ficou lá na luta venusiana.
o David tava a passar no beco a caminho da praia justamente quando bazava do bar, uma ocasião-ode à sua condicao existencial de fantasma. Fomos ao precipício desta vez sem bebidas mas com outra maria e devemos ter falado das cenas que se fala quando tamos destruídos e inspirados pelo mistério do horizonte negro directamente em frente. Achei um momento propício a qualquer coisa importante acontecer e lembrei me de suicídio duplo, em memória das tendências da eli na altura. Ele sorriu, o que me assustou. Disse lhe pra irmos tomar outro copo, o last for the road.
Do miradouro da praia ao Joe's bar viaja-se num único beco infinito, o beco principal da vilha. Do beco principal do jardim do mar ramificam vários outros becos, penso que também infinitos, mas topologicamente menos significativos. Nalguns becos transversais sexo, e o sinal de que tudo estava mal: eu no beco principal e a imagem do sexo dos transversais, talvez por causa das vertigens do alcóol, pareciam me estar a descair para a profundidade infinita do beco - aquilo não é a maria trueva?
A maria tava a meio caminho para o infinito do beco, portanto perfeitamente identificável, mas, como com as marias dos outros becos, a imagem dela descaía para trás. Quando piscava os olhos o meu cérebro fazia o rewind e ela voltava à posição inicial, com um gajo que nao era o tega de certeza. Onde é que tava o tega? - "Maria, onde é que ta o tega?". Ela tava a olhar pra mim e a sorrir já, não interrompi nada. E não interrompi mesmo, a dinâmica a meio corpo manteve-se e ela respondeu, ainda sorrindo, "não sei, acho que ele passou pra baixo há pedacinho"
OK, obrigado, té logo. David baza procurar o tega, ele deve tar de rastos e perdido, com sorte esquartejado e livre da miséria em que insiste em se banhar. A maria ficou lá a dar mais direções, com o outro gajo que não sei quem é, se calhar foram todos os que tavam na mesa. Menos o tega, ele tava na praceta principal do jardim do mar, com o claudio - "O meu pai ja tá a chegar" -, o costa, o danny, a sensação de reunião depois duma patrulha por equipas no meio do mato em cabinda. o David desapareceu, sublimou-se outra vez, em paralelo à linha de acontecimentos.
Chega um opel corsa preto dos "antigos", é melhor o tega ir do lado da janela mas as janelas atrás so entreabrem, são daquelas "antigas". Claudio mete o fat of the land dos prodigy.
1-2-3-uuuuuuuuuOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOH tsh tsh fzt fzt fzt TAN TAN TAN TARAN TAN TAN *breakbeat industrial* DAMAGE DESTRUCTOR, CROWD DISRUPTER, YOUTH CORRUPTER, EVERYTIMERRRRR - YEAH, DAMAGE DESTRUCTOR, CROWD DISRUPTER, MAINLINER, EVERYTIMER - TASTE ME, TASTE ME, SUCCUMB TO ME, SUCCUMB TO ME - SERIAL THRILLA, SERIOUS KILLAH, SERIAL KILLAH, SERIOUS KILLAH
o tega vomita para as mãos e deita fora pela janela do claudio, o danny curte o som como se tivesse dentro duma bolha consciencial inacessível a qualquer um de nós, o costa verbaliza em repetição inquietante a opinião de que o liam howlett é uma metáfora techno-industrial do beethoven, o claudio interioriza e sintetiza toda a noite em mute, o pai do claudio ri com uma inconsciencia macabra, e eu quero tar nisto assim pra sempre.
a 11 de agosto de 1999 o mundo não acabou, ou pelo menos neste universo paralelo. E eu continuei a ser um triste ate à data mas fiquei com o benefício da perspectiva de vida, em todas as decisões erradas que tomo.
É a 23 de dezembro de 2012 não é?
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Flashbecker #6 - credito infinito
a proposito de eu me casar em setembro de 2013, agradecimento particular ah peculiar e tortuosa via dos acontecimentos (nao sei a quem atribuir isto) e adicionalmente a 3 pessoas nomeaveis que tiveram influencia directa:
ruben ha 23 meses - eu nao queria te-las em casa, mas (mais) um dia passaste sem avisar na rua dos acores n11 pra jogarmos pro e viste as fotos e disseste ah vista desarmada que eu ia casar com ela. bom palpite.
mike ha 17 meses - penosa visita a berlim, a dormir no chao com dores de costas para eu poder casualmente, porque nao havia outra solucao possivel, dormir na mesma cama que ela. em 6 noites totalizei a estratoesferica quantia de um beijo na boca, mas foi decisivo. e so gracas ah tua accao de sacrificio.
way ha 17 meses - no carrosel do estrangulamento das combinacoes possiveis de camas em que o mike tambem foi determinante, acabaste numa situacao comparavel. tiveste que dormir com uma gaja em fuego pra te comer e tu com o periodo. acho que ficou no ar pra ela a hipotese de seres paneleiro. o mike meteu a sua saude em risco e tu meteste a tua reputacao. kara davidson.
eu repito isto no copo dagua em marrakech. para voces credito infinito, isto foi so um exemplo.
ruben ha 23 meses - eu nao queria te-las em casa, mas (mais) um dia passaste sem avisar na rua dos acores n11 pra jogarmos pro e viste as fotos e disseste ah vista desarmada que eu ia casar com ela. bom palpite.
mike ha 17 meses - penosa visita a berlim, a dormir no chao com dores de costas para eu poder casualmente, porque nao havia outra solucao possivel, dormir na mesma cama que ela. em 6 noites totalizei a estratoesferica quantia de um beijo na boca, mas foi decisivo. e so gracas ah tua accao de sacrificio.
way ha 17 meses - no carrosel do estrangulamento das combinacoes possiveis de camas em que o mike tambem foi determinante, acabaste numa situacao comparavel. tiveste que dormir com uma gaja em fuego pra te comer e tu com o periodo. acho que ficou no ar pra ela a hipotese de seres paneleiro. o mike meteu a sua saude em risco e tu meteste a tua reputacao. kara davidson.
eu repito isto no copo dagua em marrakech. para voces credito infinito, isto foi so um exemplo.
|Flashbecker| - a verdade tim tim por tim tim
faz hoje um ano que fui ao lux(1) e ao apanhar um taxi para casa acabei nao indo sozinho. a partir daí aos fins de semana nao dormi muito bem apesar da cama ser bastante confortável mas depois veio o choque e fui rejeitado(2). em suma, foi pena, e apesar de destrocado continuei a vida e agora sou um homem renovado e mais independente e solto que nunca.
(1) e ontem e antes de ontem e há 1 semana e há 1 semana e um dia, e para a semana e para a semana menos um dia
(2) embora só me tenha apercebido disto numa conversa casual com terceiros no mesmo centro de gravidade da vida social lisboeta em que esta história comecou(3)
(3) talvez por isso nao tenha adicionado o novo mail
(1) e ontem e antes de ontem e há 1 semana e há 1 semana e um dia, e para a semana e para a semana menos um dia
(2) embora só me tenha apercebido disto numa conversa casual com terceiros no mesmo centro de gravidade da vida social lisboeta em que esta história comecou(3)
(3) talvez por isso nao tenha adicionado o novo mail
16 Janeiro 2009, Berlin (east side story)
A Introdução
a 10 de janeiro do ano corrente, o fruto da minha adoração parte da maior obra de engenharia jamais realizada por portugueses, uma robusta estrutura com 2,7 km de extensão suportada por dúzias de pilares feitos à base de betão e moçambicanos com mais de 50 metros (de altura, os pilares). trata-se dum domingo à tarde e cedo vejo me remetido à minha inexistência enquanto indivíduo. uma vez na altura em que era convencionado que eu tinha desalinhamentos psíquicos fui obrigado a me confessar a uma doutora, que me sugeriu outra, que me sugeriu outro, cada um mais literado sobre menos coisas que o anterior. numa sessão de esclarecimento acerca de mim próprio a 2ª mais literada sobre menos coisas decidiu soltar pró ar naquele jeito de monge budista procura-a-verdade-em-ti-jovem-aprendiz o que me pareceu uma mistura de um peido com um murmúrio qualquer. quando a instei a repetir o que disse, ela corou e após limpar a garganta com um conhaque da beira alta retorqiu num tom leve sou-tipo-a-voz-da-tua-consciência mas retoricamente confiante "saberás estar contigo próprio?". após exterminar 50 euros pra ouvir a reencarnação feminina portuguesa do siddharta decidi ir a pé para casa, do saldanha a telheiras, para me encontrar a mim mesmo e porque tinha ataques de pânico se me metesse no metro porque podia ter um ataque cardíaco e só tinha 5 a 10 minutos depois de desmaiado até que se começassem a suicidar pequenas células cerebrais em massa, desesperadas pela crise no fornecimento de oxigénio. fui o caminho todo a matutar, como é hábito, sobre as operações aritméticas possíveis nas matrículas dos carros e as suas possíveis relações com as letras até que, precisamente em frente à torre do tombo, começaram a reverberar com urgência crescente as sábias palavras da engenheira da psique. subitamente entendo agora o que ela queria dizer... na verdade tava eu ali comigo mesmo e nem me ligava meia, sempre preocupado a fazer contas ou a ler letreiros e a tentar reproduzi-los noutras línguas, nem um único esforço no sentido de encetar uma conversa comigo próprio, como se eu não existisse. ela tinha efectivamente razão, eu não sabia estar comigo próprio e, para dizer a verdade, eu até sabia porquê: estava auto amuado desde setembro de 1994, quando relutantemente aceitei voltar com o meu pai para portugal naquele infame lockheed tristar 500 vindo de NY. desde aí entrei em confronto com a minha existência e tornei-me inexistente, para minha própria protecção, limitando-me a flutuar sobre espaços à medida que o tempo passa, até voltar a NY e me perdoar a mim mesmo 20 anos depois. à semelhança dos alemães e a WW2. por causa disto, sempre que sozinho estou em contacto com algum objecto inanimado, capaz de me suscitar distracção durante o tempo que for necessário até alguém me contactar por sua própria iniciativa outra vez, normalmente 2 a 3 meses depois. não sei por exemplo estar a me bronzear ao sol calado, não sei me sentar relaxado a ler um livro com as pernas esticadas num sofá favorito e não sei circular em conversas rotineiras sem que me precipitem para o idle cerebral e deixe de reconhecer que estou em interacção com outro ser humano. normalmente, quando isto acontece, entro em pânico de aborrecimento e relembro-me da minha inexistência e então fujo, invento qualquer coisa, frequentemente vou à casa de banho (às vezes, dependendo da companhia, vou mais de 20 vezes à do lux), digo que tenho que estudar ou uma merda assim, isto pra voltar a um objecto inanimado que me distraia.
nessa noite, tinha deixado o meu objecto inanimado predilecto, o meu primo rodrigo, no carro do meu tio e tive que me contentar com o segundo, um arcaico ábaco eléctrónico da intel ligado a um monitor de 19 polegadas que os meus progenitores têm lá em casa disposto de forma geometricamente perfeita num mesa wengué perpetua e imaculadadamente limpa. sentado nesse tipo de ambiente de geometria sagrada só rivalizado pela câmara principal da pirâmide de keops começei a sentir uma multitude de acessos emocionais características a seres humanos. temi pela minha saúde e pedi 4 zolofts emprestados à minha mãe como quem pede cigarros, para voltar ao estado emocional fundamental. mas em vão, a verdade é que pela primeira vez em 10 anos sentia verdadeiramente a falta de alguém.
a 10 de janeiro de 1916 ter-lhe-ia escrito uma carta do lado oposto da grande guerra, a 3400 km de distância, eu entente, ela dos poderes centrais, a combinar para nos encontrarmos a cavalo a meio caminho, em andorra, a tempo de apanhar as viagens de finalistas lá em março. esperaria 1 mês pela resposta ao mesmo tempo que acordaria todos os dias às 4 da manhã para ir a pé do Funchal à Calheta por tortuosas levadas para trabalhar no engenho de mel de cana, o "ouro branco", nessa altura já em franco declínio comercial. acumularia riquezas na ordem dos 3 ou 4 contos de real para comprar um pónei, por ser mais barato, e uma canoa, e partia ainda mais destemido que o gonçalves zarco e os seus capangas no sentido inverso da sua gloriosa jornada, à descoberta de sagres, e depois montava o pónei ao longo das praias algarvias e planícies andaluzas até granada e vendia-o lá por 8 contos, que para eles era tuta e meia, e comprava a alhambra para ela e uma prancha de snowboard da solomon pra ir dando voltas à serra nevada até ter notícias do paradeiro dela (dizia-lhe na carta original pra ela me mandar resposta para granada). se não obtivesse resposta até novembro de 1918 assumiria que se tinha apaixonado por um otomano emigrado em berlim ou que tinha se voluntariado para a linha da frente nas margens do marne e partiria a prancha de snowboard contra a alhambra antes de correr até versalhes e organizar, num rasgo de lucidez altruista que só o fim das relações conseguem me incutir, uma manifestação anacrónica contra o tratado que 21 anos depois seria indirectamente responsável pela morte de milhões de seres humanos, e judeus.
infelizmente, no entanto, estando a 10 de janeiro de 2009, a história foi menos interessante. telefonei-lhe do meu telefone móvel e falei com ela em tempo real à tal distância de 3400 km; perguntei-lhe se ia a londres visitar o pai no futuro próximo, por precaução; troquei lamechices próprias dum gajo que pauta a sua conduta pelo que viu os outros fazerem na televisão e na escola; desliguei e perguntei a um amigo numa cena que dá pra trocar mensagens escritas com outros em tempo real também se me podia emprestar 110 euros para ir a berlim prá semana porque a minha merda que dá pra pagar coisas enquanto sentado numa cadeira em casa a olhar para um monitor tava avariada. ele acedeu, pressionei o meu dedo uma dúzia de vezes contra um botão, dactilografei um bocado e em 10 minutos soube que se me apresentasse num lugar pré-definido com identificação pessoal daí a 6 dias, era possível que me transportassem para a capital da tríplice aliança, se não me fosse emitido um mandato de busca pela interpol até lá nem me apresentasse visivelmente embriagado.
durante estes 6 dias penitenciei-me de saudade e aborrecimento. lembrei-me várias vezes do d'este viver neste papel aqui descripto do lobo antuntes, e de certa forma, de todos os outros 56.999 combatentes do ultramar e de como tudo era mais fácil para eles. todos os dias diferentes, sempre em movimento físico e mental, sempre em contacto com novos estímulos aos sentidos e sempre em acesos convívios interculturais com os locais. basicamente um interrail em africa pago pelo estado português e eu aqui sem nada pra fazer, a viver, cheirar e degustar sentidos vulgares e facilmente acessíveis, farto dos chatos queijos camembert, a arrogante água evian, ou o espanhol presunto pata negra bolota, tudo à distância duma passada. eles lá em períodos semestrais ou anuais com as assanhadas e quentes africanas e eu cá com a minha mãe e irmã que já conheço de cor há 26 e 24 anos respectivamente.
e então morosamente lá chegou o meu dia de partida e do eterno paradoxo de arrependimento em não ter dado mais atenção aos cães, de não ter visitado a minha madrinha ou não ter explodido com a sede do nacional, na rua adjacente à praça colombo (para os interessados). nunca tenho paciência para dar iniciativa aos dois primeiros - apesar de gostar sempre e ficar agradado comigo mesmo quando os faço, particularmente quando a minha madrinha me paga 50 euros pela visita, menos quando o zeca me encharca em baba de boxer, de resto ultra medicinal parece-me, mas com um aroma notavelmente próximo àquilo que eu consideraria ser o sémen do spot, podre por causa alimentação monótona baseada em eukanuba de fígado de vaca. já relativamente ao último trata-se duma questão logística, o mercado da nitroglicerina é, ainda hoje, de complicado acesso. uma vez encomendei pelo ebay 2 kg desse negócio da serra leoa mas na semana seguinte as autoridades leonenses contactaram-me a informar que neste momento e durante os próximos tempos o stock estava esgotado porque tava a ser tudo canalizado para a frente revolucionária unida, o grupo rebelde que eles comandam e suportam para dar ilusão de que o governo luta contra uma tentativa de golpe de estado e justificar xixi e cócó. foi o mais perto que tive de levar a cabo uma acção que enaltece a seriedade e bons costumes do povo madeirense.
a hora chegou e fui me embora despedindo-me de todos e todas. hoje em dia as despedidas na minha família já não têm o valor cinematográfico que tinham há uns anos, na minha opinião. perdeu-se o drama induzido pela minha mãe de quem não sabia se jamais me voltaria a ver durante todo o curso da vida, apesar de se saber a localização exacta de cada parte e haverem terminais móveis para comunicação remota, para se substituir por um rotineiro semi-mecânico abraço de até breve de 2 meses em média seguido por uma alarmante mas genérica alusão à hora e uma possível perda do vôo. desta vez, apesar da minha precisão natural para chegar no último minuto ao balcão de check-in, cheguei 1 minuto do lado errado do tempo mas o gajo que tava no check-in era madeirense, um ser que, para além das quadradas objectividades regulamentares é capaz de perceber porque é que são estabelecidas e usar o bom senso para articular um número baseado numa regra rígida com a sua razoabilidade na aplicação, um pouco como os polícias deveriam fazer, se possuissem cérebro. mas também tavamos no aeroporto da madeira, no o'hare em chicago talvez não fosse recomendável se armar em ser humano.
e lá parti eu da ilha, ao levantar vôo descobri que desta vez pintada em tons diferentes relativamente às outras 173 vezes que parti da ilha, mais vivos, mais alegres, o mar mais azul e benigno, o ilheu da ponta de são lourenço um símbolo de independência e solidez e não de isolamento, machico razoavelmente não tão asqueroso (também porque não se viam os habitantes daquela altura) e as nuvens todas em forma de alemanha reunificada. isto levou a que tivesse uma viagem pensativa, revolvendo em torno da viragem do tempo e da natureza predominantemente imprevisível das coisas. materializei esta divagação sobre a forma duma curiosa e abstracta projecção mental do descubra as diferenças na minha vida, culminando e terminando a fantasia na altura em que me lembrei de fazer o antes e depois do meu percurso académico e voltei ao meu assento tamanho criança/anão a bordo daquele airbus a319 da easyjet com 127 assentos tamanho criança/anão. tive a tentação e o tempo suficiente em idle para suspeitar da legitimidade do meu rumo enquanto homem mas rapidamente afastei ideias loucas de estudar. o que queria neste momento era ir para a alemanha ficar todo o dia deitado na cama a comer bratwursts e donner kebabs a ver o flavour flav ou o next na mtv enquanto ela ia à escola até às 3 da tarde e entretanto ficava de noite e eu ficava deprimido até ela voltar com uma garrafa de vinho dornfelder ou martini bianco. o que resolvia tudo e fechava o ciclo diário associado ao meu ritmo circadiano.
A Escala em Lisboa
com isto tudo nem tive tempo de equacionar do que é que me teria esquecido na madeira desta vez e só ao simular que ia tirar a chave de casa da mala, já em lisboa, ao chegar à porta do meu prédio, é que percebi o sucedido. felizmente, tratando-se dum acontecimento recorrente já tinha o procedimento de emergência automatizado e só tive que dar umas dezenas de passos e tocar à campainha do pronto socorro ruben para me albergar durante umas horas até recuperar a minha ligação à capital da alemanha, de manhã. ofereceu-me a noite em sua casa a troco de 25 euros, o melhor preço de todos os meus amigos. feliz por ter um sofá em miniatura onde dormir adormeci à base de valdispert sonhando a noite toda que era uma raíz de valeriana gigante e que tentava obstinadamente destruir os laboratórios da pfizer nos states por causa da zoloft, essa puta de plástico mais popular do que eu.
acordo solidário com a minha sujeita de sonho e viro-me para a cientologia como única resposta, não tomo medicamentos sintéticos de agora em diante porque só são um mero instrumento de manipulação mental por parte de grupos lobbyistas da indústria farmacêutica. a dianética diz que só posso tomar medicamentos sintéticos produzidos pela igreja da cientologia e só os tethans de 5ª grau pra cima podem administrá-los senão xenu vai fazer explodir outra vez o dispositivo nuclear de 500 megatoneladas no supervulcão subterrâneo de yellowstone park e dividir o continente norte americano a meio criando sucessivas quedas de água maiores que as cataratas de angel na venezuela por toda a racha à medida que a fractura tectónica vai enchendo com maçicas correntes de água do ártico e do golfo do méxico, até estas se encontrarem a meio caminho no midwest americano em kansas city praí e embaterem uma na outra e criarem um repuxo gigantesco maior que o de oeiras e a teresa zambujo ficar fodida porque lhe plagiaram mas pra melhor, como os alemães fazem tecnologicamente ao japão.
chego outra vez last minute às 11:15 da manhã ao check-in apenas munido do meu passaporte camufladamente desligado da capa, proeza alcançada à base de vodka red bull e uma máquina de lavar a 13 de agosto de 2008 em novalja e que conseguiu misteriosamente apagar só e apenas o carimbo do homeland security department dos states, levando me a concluir que, ao contrário do que seria de esperar, a tinta produzida na fronteira entre a sérvia e a macedónia é mais forte do que aquela produzida em NY. como sempre, e recorrentemente curioso, o ar de surpresa do/a operador(a) de check-in logo de início ao verificar o estado do meu passaporte e o consequente lançamento dum olhar de leniente compaixão burocrática como se eu lhes ficasse a dever qualquer coisa a partir daquele momento e para todo o sempre. as pessoas, e também os operadores de check-in, não deixam passar incólume a possibilidade de se se certificarem que sabemos que fizeram alguma coisa por nós, um prenúncio discutível de que na realidade o fazem primordialmente por reconhecimento.
vou prá habitual gate 13, recordando-me da mítica homónima do estádio toumba, em salónica, e a fonte de inspiração para o cântico de eleição dos rapazes sem nome esta época. sento-me à espera do gongo para o nostálgico processo de formar duas filas easyjet A e B. vou sempre a correr invariavelmente para a fila B porque gosto sempre de ir à janela, pra ir identificando figuras geométricas macónicas no alinhamento das ruas nas cidades e também na esperança de avistar um daqueles ovnis que desde os 8 anos procuro nas janelas dos aviões e das minhas casas à noite pra entrar em contacto telepático com eles e me esclarecerem duma vez por todas se realmente zeta reticulii é roxa porque conheço uma pessoa que ia adorar aquilo então e gostava que lhe raptassem pra sempre, se possível. ao meu lado encontra-se uma viajante seguramente experimentada. possui dreadlocks(atenção que se disseres rastas vens da babylon) e tresanda a cabelo não lavado. complementa a sua evidente falta dum homem com uma backpack de dimensões aproximadas a um, se bem que de pequno porte, e aposto que mete a lata de desodorizante num sítio qualquer estratégico, em jeito de emulação genital. por causa do gesto técnico de se deitar em cima dos bancos ao invés de se sentar civilizadamente apenas num deles ou se deitar altruisticamente no chão, impossibilita que 2 outras pessoas se possam sentar. assisto a todo o processo de sucessivos futuros colegas de vôo a se indecidirem sobre o curso de acção a tomar, numa calma e serenidade próprias de quem só estava ali de passagem e cuja alma já se encontrava 4 horas à frente do corpo. nem o facto de ela não saber de nada e tudo isto constituir a primeira surpresa romântica que faço na minha vida me causava grande desequilíbrio emocional. estava num estado de paciência extrema, um modo de actuação que descobri que se activa automaticamente cada vez que tenho que embarcar em viagens técnica ou psicologicamente morosas e que refinei ao longo dos últimos dois anos em comboios, aviões e barcos por todo o mundo conhecido.
por entre os habituais personagens cinzentos dos aeroportos que por ali deambulavam, um portentoso humanoide de cabelo rapado louro e aspecto ríspido, a aparentar os seus 30 e pouco anos, surge e começa a inspeccionar a criatura a meu lado. começa a murmuriar qualquer coisa numa língua do leste europeu a um ser fisicamente diametralmente oposto a ele, com os seus 60 anos, e acaba a olhar pra mim. percebendo a sua linguagem corporal conclui que tinha tentado uma piada e sorri, com medo de represálias. nunca imaginei eu que tinha dado início a um relacionamento de profunda intimidade espiritual, originado ali, naquele momento singular de empatia emocional, e reforçado no curso das 3 horas e meia de vôo até berlim, nas quais contava desesperadamente dormir. o rambo do leste europeu, inspirado no meu sorriso, e erróneamente sentindo um mínimo nicho de abertura da minha parte para estabelecimento de relações interpessoais, vem na minha direcção e inquire no mais efusivo entusiasmo: "where are you from?". ele tinha encontrado um amigo.
hesitei em lhe responder um qualquer país anónimo do leste europeu como a hungria, mas qualquer um que não o dele serviria, para não ter que inventar uma história de emigração ou de abandono como justificação para não falar a língua, mas havia qualquer coisa nos olhos dele que justificavam um estender de mão. ignorando a bateria de perguntas e comentários sobre o meu país que a verdade adivinhava, todas elas respondidas na ordem das yotta vezes na minha antiguidade e história recente - uma chaga inevitável do diluimento de culturas por efeito de globalização - respondo-lhe resignado: "Portugal..."
era a reposta que ele ansiava: um rapaz local, relativamente novo e aparentemente relaxado com quem poderia partilhar todas as histórias imaginárias que vivera em portugal na semana anterior. nesta altura já me tinha apercebido naturalmente que tinha encontrado um amigo para as próximas 4 horas e provavelmente para a vida, a minha única dúvida prendia-se nesta altura apenas com o centro de massa da conversa que teria que alimentar, se em gajas ou se em pasteis de belém, fado e castelos/palácios.
ele contra-responde como se fosse a última nacionalidade que ele esperasse encontrar no aeroporto de Lisboa "PORTUGAL?! WOW YES I HERE FOR ONE WEEK, VERY GOOD, NICE GIRLS HAHAHAHAHAHA". desata numa incompreensível gargalhada histérica, totalmente desadequada tanto ao seu calibre físico como ao facto de provir dum ser humano. a minha dúvida estava esclarecida, dentro em breve discutiriamos como as polacas e portuguesas, apesar de diferentes, são as melhores gajas do mundo, de como perdi uma namorada portuguesa por causa duma gaja polaca, de como ele apanhou-se com 2 brasileiras na praia de carcavelos (*sigh*) na madrugada anterior e penetrou ambas (não chegou a dizer mas acredito que talvez em simultâneo até) ali mesmo, à homem. de como o colega de 60 anos dele apaixonou-se por uma outra brasileira de 18 anos que encontraram com as outras duas no centro de lisboa (xD) e portanto levou-a para o quarto de hotel para uma doce noite de paixão em vez de optar pelo sujo e crú sex on the beach. enfim, de todas as sub-ramificações destas conversas que um jovem de 12 anos a atinigir a puberdade conseguiria imaginar. isto tudo como hours d'oeuvre para a viagem propriamente dita e o consequente aprofundar da nossa relação.
imediatamente após divagar sobre a promiscuidade das portuguesas, que segundo ele, é maior que a das polacas (aliás ele teve com 3 portuguesas durante a semana, para além das duas brasileiras), puxa o travão de mão e faz uma curva de 90 graus à direita em slide, entra na recta do pessoal: "why you go to german?". após concordar em enaltecer bipartidamente portuguesas e polacas como classes femininas superiores não sabia como lhe explicar que ia visitar a minha namorada alemã.
nos cerca de 5 segundos desconfortáveis que se geraram a seguir à pergunta, uma pletora de condicionantes foram-se agregando à minha resposta, desde o desconforto histórico que 1939 poderia criar, à possibilidade dele me agredir violenta e descontroladamente por lhe ter desiludido enquanto amigo de vida, tendo previamente sido falso quanto a preferir tugas e polacas, declarações que lhe tinham na altura aquecido o coração, estou certo. de qualquer forma, se esta amizade era para continuar, ter-lhe-ia que ser franco e o momento era agora, ou nunca: "...ah yes, i have a german girlfriend...". a mutação na expressão dos seus olhos foi semelhante àquela dum miúdo que pede uma playstation 3 no natal e, ao abrir o presente, vê-se com um arcaico e obsoleto subbuteo nas mãos. claramente magoado mas demasiado boa pessoa para não tentar escondê-lo, tenta disfarçar com manobras retóricas: "GERMAN??! NO GERMAN GIRLS SHIT!! GOOD LOOKING GUY LIKE YOU MUST HAVE POLISH GIRL! POLISH GIRLS BEST YES? BLONDE [enquanto gesticulava um cabelo frisado louro, o que até lhe assentava bem, na minha imaginação], BLUE EYES, VERY GOOD! YES?!". sabia que resposta lhe dar mas tava a me questionar sobre o tempo que se pouparia em conversas do género se se usasse o inglês económico dele. "heheheh yes, yes, polish girls very good but this german girl is nice too, different from the other german girls because she's half english and half australian". relativamente mentira, mas para o contexto servia. "AHHH YES ENGLISH GIRLS BIG BOOB HAHHAHAAH", acompanhado do semi previsível gesto, não fosse ele desenhar duas esferas do tamanho de bolas de futebol no ar em frente ao seu peito e optar por deitar a língua de fora e simular a auto estimulação dos mamilos que, segundo ele, revelou-me mais tarde, as inglesas fazem no banho e é causa directa no crescimento extra no tamanho dos seios.
"do you have picture of girlfriend?". felizmente não tinha, senão não iria conseguir mentir e embora esteja mais do que satisfeito com as medidas da minha girlfriend estou certo que, baseado nas expectativas astronómicas dele em relação às boobs das inglesas, viria como um segundo momento de desilusão. talvez este inultrapassável, condenando de forma irreversível a nossa promisora relação.
somos chamados para formar as filas A e B, e num canto da minha alma residia uma esperança ínfima de que ele se iria limitar a ir com o amigo de 60 anos para dentro do avião. rapidamente percebi que era mais provável o dias da cunha construir uma frase com nexo. enquanto a paradigmática mulher deprimida e mal disposta - cuja ocupação passa por rasgar bilhetes pelo picotado e ostentar sorrisos cínicios cor de laranja da easyjet enquanto aguarda toda e qualquer oportunidade de atacar o ignorante viajante casual e posteriormente partilhar com os seus semelhantes mais um conto sobre a ignobilidade do exército dos que não fazem da sua vida o cumprimento de protocolos aeroportuários - anunciava a complexa tarefa de dispor cerca de 150 cabeças de gado com vontade própria e o que se pode chamar, no pior dos casos, uma remota capacidade de raciocínio em duas filas principais e outra prioritária para quem pagou mais 12 euros e para deficientes (passe a redundância), ele já me estava a dar sinais de que caminho a tomar: "[por entre o irritante ecoar no corredor da estéril voz da robô anunciante]MY FRIEND I DONT LIKE, HE BORING HAHAHAHA AND OLD! HAHAHAHA! YOU WANT COME WITH ME? IN PLANE?".
conformado com o meu destino solto um "yeah yeah... ok", já nesta fase triturado psicologicamente. as possibilidades de dormir durante o vôo desvaneciam-se a cada chilrear daquela ave rara mas ainda punha a hipótese de ele se estar só a referir a ENTRAR dentro do avião com ele, dúvida que ficou no ar pela sua particular falta de articulação no discurso em inglês.
proseguimos em conjunto para a fila, eu admitidamente despreocupado com seja o que fosse que os outros 148 passageiros do vôo fossem conceber acerca da minha relação com esta máquina de guerra infantil que não sabia se expressar doutra forma que não no limiar da explosão dos tímpanos dos seus ouvintes voluntários e involuntários que se encontrassem num raio de 2 km. era como se estivesse a discursar para uma audiência de 1 milhão de inválidos auditivos, sem microfone. era como se estivessemos no meio dos bosques da pomerânia ocidental a resistir ao avanço alemão durante a 2ª guerra mundial, gritando palavras de ordem que tivessem que ver com as nossas vidas privadas, com todos os outros membros do batalhão a escutar atenta e perplexamente. e num avião de lisboa para berlim eis que o meu novo amigo descobre uma conhecida polaca, na posição de fila imediatamente contígua à nossa, à frente. equacionei-me sobre a oportunidade de negócio que constituia a aparente falta duma ligação aérea entre ambos os países mas a reacção da jovem em questão à jovial e alegre solicitação em polaco do meu amigo catalisou-me as atenções para a linguagem corporal de ambos. ela claramente não o conhecia, ou então não se lembrava dele. ele parecia lhe explicar a situação em que se conheceram, numa espécie de retórica emocional enquanto ela aparentava preferir não ceder a embarcar, ao contrário de mim, no fantástico mundo da fantasia em que ele vivia, talvez já ciente, à priori, do que significaria em termos de danos psiquícos, num futuro próximo.
finalmente, após 2 ou 3 minutos de troca de grunhidos melódicos que pareciam seguir, grosso modo, um padrão linguístico (não vejo outra forma de classificar a língua polaca), ela desistiu e relutantemente aceitou que o conhecia de algum lado, a interjeição e a linguagem corporal para esta concessão sendo aparentemente universal.
ele vira-se para mim e explica que a conheçeu algures em belém, durante a sua estadia em lisboa, e estava completamente obliterado pela espantosa coincidência de a encontrar outra vez no aeroporto. águas tantas, começei a admitir a possibilidade de se tratar não dum polaco mas dum extraterrestre disfarçado de polaco - uma escolha de nacionalidade inócua claramente intencional, para passar despercebido na terra -, numa alegria ingénua partindo à descoberta dos habitantes deste planeta, rejubilando com toda e qualquer vicissitude que gravitasse em torno da condição humana.
o tempo, esse, não parava, e como tal a ordem cronológica de prioridade de embarque cumpria-se ritualmente. eu, mais uma vez parte integrante desse ritual, invariavelmente no mesmo papel de triste e renegado membro da fila B, observava, ao som do polaco, um misto de casais de meia idade com carrinhos de bébé a comunicar com ar enfadado em alemão e grupos de jovens portugueses de topo modal, pertencentes a subculturas urbanas vanguardistas, peregrinando orgulhosamente em direcção aos bairros berlinenses de kreuzberg e prenzlauer berg, a meca e medina do pseudo alternativismo de aparência e costumes, paradoxalmente caracterizadamente ocidental.
estava totalemente deslocado, como sempre, mas em breve encontrar-me-ia outra vez, e o melhor de tudo é que ela não fazia ideia de nada. na noite anterior inteligentemente sugeri que ela comprasse uma webcam para nos podermos ver pela net, procedendo a satirizar que tava contente que nos iamos ver no dia seguinte antes de artificialmente pôr a hipótese, em jeito de suposta imaginação, de nos vermos realmente em carne e osso. marcamos para as 4 horas da tarde, GMT +1, no messenger, um fait divers que usei para garantir que ela se encontrasse em casa a essa hora.
passamos pela operadora da gate que previamente me tinha suscitado asco esterotipado e concedo uma última chance à classe que ela representa só para poder escrever um parágrafo totalmente desperdiçado neste texto. entramos no avião ambos num clima de excitação, por razões diferentes. o amigo dele senta-se a meio do avião enquanto me fita de forma estranha e ameaçadora, eu prossigo até ao fundo do avião, estatisticamente a zona de maior índice de sobrevivência em caso de desastre aéreo, e sento-me à janela. ele parece ter ficado com o amigo mas subitamente continua na direcção da minha fila, após trocar algumas palavras com o amigo enquanto apontando para mim, o amigo aparentemente desiludido com ele. vem sorridente na minha direcção, o nosso companheirismo de viagem agora um dado adquirido. solicita-me de pronto "can i go in window?". desarmado, como fosse tão irrecusável quanto negar um rebuçado a uma criança de 5 anos, levanto-me e vou para a coxia. uma viagem surreal e interminável estava prestes a começar, iamos aterrar em berlim isso era certo, mas não deixava de sentir que de resto era destination unknown.
A Viagem (esta parte é chata)
para ele, contudo, o nosso destino estava traçado. na sua mente tinhamos construído já um rapport que nos punha no patamar de melhores amigos. talvez por isso tenha ficado a saber, sem que para isso tivesse apresentado vontade, que o meu novo amigo era um rapaz de 45 anos polaco que tinha como ocupação ser guarda-costas de figuras de estado na polónia. o seu nome era Jaroslav mas eu, sendo seu amigo, podia lhe tratar por Jarek. em pleno vôo não hesitou em ligar o telemóvel para me mostrar fotos com o papa joão paulo II, com o michael jackson quando actuou em varsóvia e um video particularmente interessante dele a proteger o papa no meio da multidão numa visita à polónia há uns anos atrás. era divorciado e vivia sozinho com o tio numa cidade pequena no meio da polónia. viajava com o seu amigo de 60 anos a cada 2 meses e planeava as viagens com 6 meses de antecedência. depois de lisboa ia a bari e a sevilha (2 e 4 meses depois respectivamente). enfim, providenciou-me uma multitude de informações e factos acerca da sua vida que de nada serviram para construir uma base racional para o seu comportamento.
a determinada altura, e introduções consumadas, tentei me certificar que ele percebia que eu estava, de facto, com os olhos fechados, a tentar dormir. em vão, naturalmente: a cada 2 microsegundos, sempre sensivelmente 1 microsegundo já depois de entrar em REM, era me solicitada a atenção com uma pergunta sobre um qualquer tema que lhe ocorresse na altura. evidentemente, mais cedo ou mais tarde iriamos passar para o campo pessoal, terreno que piso com à vontade em qualquer ocasião exceptuando quando estou à beira do colapso físico. a perseverança dele era verdadeiramente fora do comum. de nada valiam os meus esforços para tornar as respostas desinteressantes ou ocas, o homem era uma fonte interminável de criatividade inquisitiva e eu apercebi-me que nada havia a fazer senão ir aos lavabos, lavar a cara e me manter acordado, evitando assim os consecutivos sustos próprios de quem vê o seu princípio de sono sistematicamente interrompido por uma violenta sucessão de perguntas gratuitas.
em boa altura o fiz, foi a melhor maneira de me preparar para a carga emocional que me afrontaria. voando já sobre terreno francês, dá-se a abertura da sessão de psicanálise. emocionalmente inspirado pelas minhas renovadas reacções pacientes de abertura para uma conversa, inclusivamente emulando ocasionalmente emoções positivas, parte para a troca de galhardetes: "you are very great person, pedro". atónito e perplexo retribuo o habitual recíproco "yes you too, jarek". independentemente das iniciais alegações de masculinidade por parte dele devo confessar que tudo me passou pela cabeça nesta altura, inclusivamente a possibilidade de estar a lhe dar esperanças de algum dia haver entre nós paixão e exploração sexual. à margem, a psicanálise esotérica:
- i can see in your eyes, you very good person, i want be your friend, we friends?
- yes, jarek, we are friends...
- you very great, come here...
é nesta altura que bloqueio, ele, um monstro lamechas com o dobro do meu tamanho, inclina o seu corpo totalmente sobre o assento de segurança que eu tinha deixado entre nós e estende os seus braços na minha direcção. ele podia me ter beijado, agredido ou cuspido na cara, para mim nunca nada se tinha passado, tudo não passaria dum momento salvador dali, uma espécie de grande masturbador pós-moderno, a bordo dum airbus a319. abro também os meus braços e acolho o seu generoso corpo nos meus braços. deu-se a fusão da nossa intimidade. eternizamos a amizade, mas ele notou que qualquer coisa estava errada. mal o abraço acaba, olha com ternura e em jeito de compreensão tenta me encaminhar para repostas acerca de mim:
- "pedro...?"
- "yes jarek?"
- "i can see you have problem with .. how you say.. in german is said affektion"
- "hmmm, i don't know, maybe"
- "you father and mother not hug you when you small children i think"
penso por um momento nesta pergunta desferida sem preparação, um exemplo primário da habilidade em saltar barreiras de intimidade deste ser inclassificável que, aos 45 anos, era basicamente um bébé em ponto grande com a aparente inteligência emocional dum velho de 80 anos. se é verdade que me considero mais frio do que me desenharia se fosse o gajo que toma as decisões, nunca me pareceu ser culpa dos meus pais mas mais do percurso que tomei. um gajo chamado robert frost uma vez disse que dois caminhos divergiam numa floresta, e alegou ter tomado o caminho menos utilizado. segundo ele, isso fez toda a diferença. várias vezes na vida me relacionei com esta alegoria da floresta do frost pelo que, na realidade, jarek o bárbaro sensível me tinha captado a atenção com esta indagação. sim não liberto facilmente o tipo de hormonas que me leva à procura da intimidade física. sim abraçei-lhe de forma semi relutante, mas porquê é que ambos tinhamos necessidades tão distintas no campo afectuoso? seria de mim ou dele? limitei-me à resposta diplomática:
- "yes, i think the normal every parent gives to their child.. yes i felt loved when i was a kid"
era o que diria independentemente do que pensasse, não era justo denunciar qualquer tipo de negligência afectiva por parte dos meus pais a um polaco assim ao deus de ará.
- "i can see you needed a hug, it was good for you.. you very good person i see in eyes.. when i protect pope karol wojtyla, jan pawel sekund, he look into my eye one time and smile... i not believe in god before.. now i believe and i have power to see if people good...i change very much"
nesta altura deixei-me imergir na fantasia etérea de que era realmente boa pessoa, convencido pela retórica sem espinhas de jarek, talvez um anjo convocado àquele vôo da easyjet para me redireccionar para um caminho de positivismo e amor, se bem que de figura duvidável e relativamente inesperada para a percepção que tinha doutros anjos como o gabriel ou o uriel.
fico sem palavras e admitidamente pensativo. pensei por momentos o que estariam os outros espectadores a bordo a pensar e se já alguma vez tinha assistido a qualquer coisa do género, na qualidade de espectador, nos mais de 200 vôos que já fiz na minha vida. não, nunca. estatisticamente isto era uma aberração.
- "don't cry pedro.." [delicadamente sorri]
- "hehe, i'm not gonna cry"
- "i here for you, i your friend, to help..."
que sa foda, o que gajo que pense que vou chorar, tou me a cagar, até me apetecia chorar naquela altura, ele era verdadeiramente uma boa pessoa, era impossível não querer corresponder às suas expectativas. fingi-me triste para conceder que ele tinha acertado na mouche e tinha causado em mim uma reacção de deitar toda a repressão emocional que acumulei pela falta de afecto dos meus pais naquele abraço enternecedor alguns kilómetros acima de lyon, mas não consegui chorar. já tinha tentado chorar noutras ocasiões, algumas para simular desespero perante uma injustiça, noutras para perceber se tinha capacidade para tal, se por acaso acabasse por não conseguir ser astrofísico e querer seguir a carreira de actor, porque diziam que eu tinha jeito para isso (e para advogado/médico) e até porque eu tinha contacto com a marisa cruz e a sandra cóias. mas nunca consegui. há gajas que são anorgásmicas eu sou anoprântico, faltou-me o stock de serotonina ou tá muito caro ou uma merda assim, o que explica muitas coisas.
de qualquer modo ele, percebendo que me encontrava devastado animicamente pelas recém-descobertas particularidades da minha infância, silenciou-se, para me deixar descansar. nesta altura fecho os olhos e adormeço, simultaneamente aliviado por ter condições reunidas para a practica da modalidade do sono profundo e nauseado pela meu ultra eficaz cinismo.
Chegada a Berlim
acordo com o avião em plena descenção e renovado psicosomaticamente. o calvário aproximava-se do fim. 37 mil pés a descer a um ritmo standard de 1800 pés por minuto dava-nos pouco mais de 20 minutos até largarmos com as rodas na pista, quer para o bem ou para o mal. contas feitas, na pior das hipóteses deixava de ouvir o gajo e acordava numa cama num hospital qualquer nos subúrbios do sul de berlim, com um bocado de sorte qualquer suburbio que não steglitz, onde gozo de fraca reputação e onde sou alvo de processos criminais pendentes (para além de que tenho que mudar de comboio 2 vezes até schoneberg, onde ela mora e isso é me inconveniente). sei que acabaria na pior das hipóteses numa cama de hospital porque tenho a certeza que não é a minha altura de morrer ainda, independentemente de qualquer adversidade que se apresente perante mim, incluindo a queda dum avião. já duas fontes independentes me confirmaram que irei (sobre)viver até aos 90 anos (um jovem viajante sueco que passava pela sua 2ª encarnação sobre si próprio, depois de ser baleado na cidade inglesa de bristol disse-me isto uma vez ao pé do mezcal, em 2007, no bairro alto, e uma vidente portuguesa com os seus 60 anos, em belém, também me revelou o mesmo número, em 2001), pelo que nesta altura pouca coisa que tenha que ver com a morte me preocupa realmente. sei por outro lado que o coma estará fora de questão também já que o profeta sueco me revelou que viria a ser um peão com um papel relevante no mundo e esse seria o meu destino. ora sei que a nível de actividade cerebral pouco mudaria caso acabasse por sucumbir a um coma mas duvido fortemente da eficácia do meu contributo ao mundo nesse estado de vegetação física. ou talvez o contributo fosse exactamente estar impossibilitado de comunicar com o mundo exterior. ou do acidente descobrir-se-ia a cura para uma doença qualquer. tipo saltavam-me as orelhas no momento do impacto e descobria-se que num gajo sem orelhas a sida não funciona porque o HIV salta pelos ouvidos. conservavam-me em coma até aos 90 anos, por simbolismo, altura na qual eu morria de tédio depois de 64 anos deitado numa cama em berlim a ver a bundesliga. isto era naturalmente a pior das hipóteses. na melhor das hipóteses aterravamos e eu saia da cabina nervoso com o reencontro, molhando ligeiramente com urina os slips pretos da sloggy, os mais sexys que tenho, e acabando por ir a correr para a casa de banho mal chegasse a casa dela e jogar os slips pela janela abaixo como há dias em dezembro quando tive um sonho molhado e não sabia onde esconder as boxers todas fodidas, que por acaso até já eram velhas, portanto menos mal.
apreensivo com o desenlace olho pela janela para a fernsehturm de 350 metros o que me permite identificar a distância que ainda tenho que percorrer do aeroporto ao centro de berlim. perco-me em considerações sobre como o aeroporto da portela tem duas particularidades interessantes no facto de se impor justamente no centro da cidade e mesmo assim não ter acesso ferroviário mas por exemplo alfornelos ter. tocamos com as rodas no chão e o jarek dá me um papel dum estância balnear polaca no báltico onde alegadamente todas as celebridades alemães vão. chama-se zopot apesar dele insistir veementemente em pronunciar tsopot. mais interessantemente, no verso do cartão está o email dele e o número de telefone. ele confiou-me a continuidade ou não da amizade, gesto que me levou a concluir que ele, numa profunda retroanálise enquanto eu dormia, percebeu tudo.
despeço-me dele. é um adeus emocional. "think of me in bad times and i think of you in bad times". esforço-me por verter uma lágrima: evoco na minha esfera de consciência a possibilidade da julia pinheiro viver ainda mais 5 anos. nada, como sempre. o amigo fita-me ainda da forma sobranceira moda lisboa, mas quando me dirigo a ele para a despedida sorri e transforma-se num animal amigável. só precisava dum pouco de atenção. estou a sós, agora também fisicamente. saio de SXF pela 3ª vez no espaço dum mês e meio. a neve a temperar a minha gloriosa e cinematográfica caminhada amorosa, se tivesse um ipod metia a musica do gladiador. muitas vezes acho que deveria haver uma banda sonora para episódios de vida, o que me leva à necessidade de comprar um leitor de mp3, como solução temporária. aliás um pro ruben porque lhe fodi um já não me lembro quando e outro pra mim.
subestimei outra vez a massa de ar árctica que deriva indelevelmente pela tundra russa até ao (tecnicamente) temperado leste europeu, um fenómeno climático de contornos bélicos, tal a sua violência. já outros grandes homens anteriores a mim enfrentaram olhos nos olhos este instrumento estratégico de repulsão que abençoa geopoliticamente o território da federação russa. dois séculos antes, um gajo francês quase genovês com bue irmãos é bom no campo de batalha e então ganha respeito da classe militar mas como tem recalcamentos duma infância pautada pelo autoritarismo da mãe, torna-se num megalómano impiedoso e decide invadir o resto do mundo pra provar a si próprio que ele é quem manda, e não a mãe. a subir pela polónia acima, um bocado mais à frente donde eu agora me encontrava, o gélido ar ártico desfaz as suas ambições, exterminando os seus compinchas de batalha. o sonho de meter uma população de 30 milhões de habitantes a conquistar um mundo com 1 bilião cai por terra. já no seculo passado, um gajo austro-hungaro quase alemão com bué irmaos é bom no campo de batalha e então ganha respeito da classe militar mas como tem recalcamentos duma infância pautada pelo autoritarismo do pai, ao espiar um comício dum grupo de extremistas fascina-se e adere à causa, tornando-se num megalómano xenófobo cujo objectivo passa por exterminar classes étnicas e invadir o resto do mundo, porque o goebells disse. este ainda chegou mais longe do que o frances e eu, a uma cidade outrora conhecida como estalinegrado, já dentro do monstruoso território soviético, mas os seus super-zombies de combate não aguentaram os 150 dias sem comer a 30 graus negativos para que foram programados na IG Farben e acabaram chacinados. após boa réplica, refira-se. o sonho de meter uma população de 60 milhões de habitantes a exterminar etnias de 20 milhoes e a conquistar um mundo de 3 biliões desfez-se.
o meu background, apesar de em tudo semelhante as ambas as figuras mitólogicas anteriores (portugues quase noruegues, bué irmãos e o recalcalmento causado pelo autoritarismo do meu golden retriever, o simba), acabou por produzir outros efeitos em mim. é verdade que também sou um megalómano impiedoso e xenófobo mas na verdade tenho uma ambição maior que a deles. mais que o mundo, pretendo conquistar um universo de amor no 5º E, nº30 da leberstrasse, no sul de berlim. e me tornar cantor de folk irlandês. daí que precisasse duma dose de determinação ainda maior que a deles. aliado a isso teria comigo a vantagem de conhecer o percurso deles, saber que adquiri num seminário de formação pessoal que assisti involuntariamente em oslo, em 1988. bastava-me, relativamente a este trunfo, tirar algumas horas para pensar em que é que eles falharam, e tentar evitar seguir os mesmos passos falaciosos.
a neve ininterrupta e efusivamente saudava-me na testa, berlim emocionada com a minha chegada. de schonefeld a schoneberg (schon=bonito, feld=campo, berg=montanha logo iceberg vem do eis=gelo e berg=montanha => montanha de gelo) vai 1 fatídica hora e meia de s-bahn. como poderei sobreviver à neve, ao frio, ao desamparo da solidão ártica? os compinchas do frances foderam-se à pala da hipotermia e desnutrição. os super-zombies de corrida do austro-hungaro a mesma coisa, mas também porque faltaram munições e os soviéticos usaram melhor a arma de destruição cognitiva maciça aka propaganda. posto isto, e após 3 horas de elaboração de fluxogramas e diagramas de estado, conclui que basicamente bastava-me manter quente, alimentado, armado e imune à influência externa para conseguir chegar ao meu destino. a última exigência seria porventura a mais fácil de satisfazer, em virtude do vector teimosia na minha personalidade cartesiana no bolo do caco. o problema do frio e do armamento tinha sido, à priori, já estudado à partida, em lisboa, fruto dos valiosos conselhos da minha avó. se por um lado me alertou várias vezes por telefonema de que temperaturas inóspitas a rondar os 15 graus, como aquelas que constituiram recorde mínimo mais uma vez este ano na madeira pelo 26º ano consecutivo de que me lembro, são gravosas para a saúde da população em geral e que portanto teria que me cuidar na longínqua alemanha, onde tragicamente apenas 84 milhões de habitantes por ano conseguem sobreviver aos penosos invernos, por outro soluçou a cada 5 segundos avisos relacionados com a minha segurança pessoal em terreno tedesco. levada pelo trauma de 6 anos de guerra mundial causada pelos funestos povos bárbaros da confederação de estados germânicos, continua convencida de que hoje em dia qualquer espécimen humano estrangeiro e/ou com o menor sinal de pigmentação dermal é imediatamente executado ou mandado para oswiecim para as minas de sal e posterior gaseificação, já temperado. assim, de sobreaviso pelas recomendações da minha avó, cobri ambos os problemas, ainda em lisboa.
uma das t-shirts sarcásticas pós-modernas obsoletas 100% polyester que costumo usar para sublinhar a minha jovialidade de espírito + uma jersey listrada horizontalmente a azul e verde de jovem adulto responsável/divertido que sabe que há momentos para tudo na vida que comprei uma vez o ano passado antes de ir para cancun na springfield com o patrício e insisti em usar dentro duma disco lá, a transpirar por todos os lados, só porque era mesmo aquela imagem semi-sofisticada que queria passar às americanas mas que elas acabaram por identificar como awkward/weird/odd + um kispo com capuz, azul escuro, às bolinhas num azul marginalmente menos escuro ao ponto de só reparar quando cheguei a casa depois de ter comprado no madeirashopping com o meu irmão para substituir uma bué louca toda em preto que me dava um ar bué independente, decidido e cool para caralho em geral que comprei na H&M na 5th avenue e perdi no outro lado do mundo 4 meses depois, em cracóvia + um casaco com capuz (bónus combo de capuz duplo) com padrão escocês em vários tons de cinzento, azul e preto da XDYE que me refinava o ar de durão barroso muito marado e descontrolado mas ao mesmo tempo com algum sentido de posicionamento no mundo da moda e que nao me serviu de grande pistola para entrar nos clubes em berlim mas que deu pra tirar umas fotos bacanas de mim a fingir que sou insane em poses espontâneas pré-estudadas em cima de pontes, parapeitos ou no topo de estátuas, serviram, discutivelmente, para manter a minha temperatura corporal acima do limiar da hipotermia, embora tenha a certeza que a ponta da vergasta tava a menos de 35º, por mais encolhido por efeito de joule que tivesse.
para protecção pessoal adquiri uma uzi de fábrico israelita no martim moniz a um angolano veterano de guerra. aliás troquei por uma medalha condecorativa aos familiares das vítimas do submarino kursk que comprei na plaza mayor de merdrid a um russo por 15 euros, em 2003, numa altura em que ainda andava com problemas pós-cirúrgicos. o angolano, seguramente nostálgico da cooperação soviética/MPLA dos anos 60/70, descortinou valor sentimental histórico num objecto de legitimidade duvidosa e francamente de sovieticidade nula. eu, por meu turno, matei dois coelhos duma cajadada só: uma uzi, tal como qualquer outro ser inanimado/animado de fábrico israelita, seguramente nunca seria impedida de entrar em solo alemão, à luz dos conhecidos e discrimnatórios eventos históricos do século passado. por outro lado, não se poderia arriscar a acusação de discriminação racial relativa a um cidadão duma ex-colónia portuguesa, pelo que, bastar-me-ia que a arma continuasse em nome do angolano e alegassemos, no aeroporto da portela, que eu era apenas o intermediário no transporte da arma até à namorada dele em berlim, e não deveriam haver problemas.
na realidade, o único verdadeiro problema que se punha nesta altura era então a alimentação. esta poderia ser uma falsa questão. na verdade, em condições normais, todos sabem como me repugna comer, o problema aqui prendia-se com o conhecimento sobejo dos factos históricos e inegáveis do passado. eles foderam-se porque não comeram e agora eu? não me podia arriscar ao conforto dos meus hábitos alimentares. era imperativo que consumisse algo ao longo da hora e meia de linha S1 que teria que percorrer ainda durante aquele dia. mas como? estamos a falar duma metrópole turca com uma minoria alemã e vários turistas americanos e espanhois, portanto uma conjuntura verdadeiramente desoladora para o comum ser humano desnutrido. o menu para todos os 6 milhões de habitantes daquele aglomerado populacional consiste numa amalgama de donner kebabs, durums, lahmacuns, bureks, hamburgeres de 99c no burger king, pretzels e todas as suas permutações possíveis ao longo da semana.
suspiro e como experimentado caixeiro-viajante que sou acedo à cultura do local em que me encontro, de resto o que acabo sempre por fazer com sucesso, à excepção de quando tive que me ambientar ao críptico procedimento cultural em miami e falhei desastrosamente ao ser europeu. interrompo a minha relação temerária com o irredutível nevão, entro numa kebab shop e peço, moreno, coberto de neve, com uma mala às costas e uma uzi debaixo do braço, uma espetada com milho frito. o gajo ao balcão responde "hallo eçpek tada! ich bin ersan" e estende a mão, como resposta à minha alegada introdução. percebi que daquele momento em diante seria conhecido como eçpek naquele estebelecimento, o que não me preocupava a não ser pelo facto de reconhecer que teria mesmo que relegar a minha saúde intestinal para segundo plano, sobre perigo de vir a perder a batalha contra o nevão da russia com amor, como aconteceu com os franceses e os zombies do austro-hungaro.
que sa foda, vou pro donner kebab, o meu 25º no espaço de 2 meses, uma espécie de sandes de alegada carne animal assada num espeto giratório a jorrar gordura, acompanhada de iguarias vegetais variadas e envolta num acessório que pode - discutivelmente - ser considerado uma variedade de pão. grosso modo, o produto da cozinha turca mais popular que existe, aquele que se pede quando se tem bué fome ou quando não se sabe bem o que pedir, basicamente está para a gastronomia turca como o big mac está para a americana.
2 euros e meio para uma bomba calórica de cerca de 800 calorias. fazendo a conversão para horas de ginásio isto equivalia sensivelmente a 1 hora em cima da passadeira a 12 km/h, o que é puxado e inconveniente, até para um masoquista crónico como eu, mas tinha que ser. era conveniente agora e now is the moment. carpe diem. vive o momento.
devorei o donner kebab, uma mistura de molho de alho, gordura e suco gástrico da regorgitação involuntária por comer muito rápido brotavam dos meus cantos da boca enquanto fazia o finish him ao último bocado de cartão, ou pão. frustrado pelos remorsos e pela impossibilidade de meter os dedos à garganta, já que tinha prometido a entes queridos que não o faria por um lado e porque ia precisar deste nutrientes num futuro próximo por outro, exigo o meu dinheiro de volta, em alemão impróprio mas decifrável. o gajo ainda falava pior que eu mas começa lá aos halalalalas dum lado para o outro e a se exaltar com a suposta perna de cordeiro que girava no espeto e a queimar bandeiras americanas. eu não tou pra meias medidas, não impressionado com o tipo de comportamento que imediatamente reconheci da CNN, digo-lhe agastado, já em inglês simples: "look, i give you two warning: one in afrikaans so you have excuse of not run away, the second in sign language...". não sei falar afrikaans e também não teria impetuosidade suficiente para lhe largar um murro em linguagem gestual assim sóbrio mas o que sei é que a reacção do ersan cobriu o meu bluff e ainda fez raise. rabo entre as pernas e fold. os turcos jogam poker de caralho, penso, brindado de novo com neve no nariz.
tal como noutros episódios humilhantes da minha vida, encontro reconforto sentando-me na última fila da última carruagem dum comboio, com a cabeça encostada ao vidro, balbuciando queixas à minha reflecção distorcida e oblíqua. a distanásia personificada. normalmente algo de espectacular acontece quando tou nestes estados de espírito. uma velha vem e conta a história da vida, um casal de backpackers anima-me com relatos das suas passagens pela somália ou uzbequistão, troco olhares cremosos com uma voluptuosa quarentona. no fim acabo sempre emergindo como um herói, ou pelos menos uma figura simpática. neste S1 que ligava schonefeld a sudkreuz fui remetido realisticamente para a minha condição unipessoal e anónima, mais um peão no xadrez duma metropolis, nada de especial.
saio em sudkreuz reatado à minha insignificância global, à minha efemeridade biológica, à minha nulidade filosófica. era exactamente neste estado de espírito que era necessário me apresentar em frente ao meu objectivo. determinado mas humilde. normalmente parece que é conveniente e adequado ser-se ou parecer-se confiante na interacção com pessoas do sexo feminino, li num livro, mas por experiência pessoal, após quebrado o gelo e encetada uma relação, há um notório favorecimento para episódios em que elas estão em posição de nos proteger emocionalmente, uma perversão do instinto maternal delas de que nós homens podemos tirar partido, até elas emanarem um puto pela cona abaixo, que canalizará para si todos esses instintos desse momento em diante. é assim num estado lastimável emocionalmente que passo por uma florista do outro lado da rua em relação à estação de comboio. dominado pela ansiedade existencial embarco no maior dos clichés e após hesitante ponderação decido me despir de racionalidade e me entregar de corpo e alma à lamechice da telenovela ou da comedia romântica com o hugh grant e a andie mcdowell/julia roberts/renée zellweger. entro na loja e compro sorridente uma rosa, como se aquele meu acto pessoalmente inédito constituísse uma cena dum filme que fosse do conhecimento de todos, incluindo a gaja chinoca que trabalhava na loja, como se estivesse a reflectir o secreto orgulho dos espectadores na minha acção seriada e categorizável. um atentado ao meu estatuto analógico.
saio da florista, entro na torgauer strasse e faço o benchmark ao meu comportamento: estou um homem diferente, mutilado, a antítese do irascível ser que brindou a ex-namorada com 0 (zero) presentes ao longo de 6 anos. quando anunciava os meus planos à minha irmã e a uma amiga, no dia anterior à partida, os comentários de ambas coincidiam com esta minha introspecção "pedro mas o que se passou contigo? nunca foste assim!". concordo, estou mais e mais à beira do precípicio, em breve serei mais um ovino de processos determinísticos, alegremente a comer a verde erva do meu lado do curral e a cagar bolinhas de cócó até que a morte me separe do meu estado híbrido animal/vegetal.
cheguei à leberstrasse, estou longe de casa. neva como se não houvesse amanhã. estou completamente sozinho no mundo, isolado. sem família, sem amigos, sem orientação. em familiar só a ténue ligação que começei a desenvolver com esta míuda de 21 anos, cinco voltas ao sol mais nova que eu, e a qual quero cimentar. não cimentar mas fazer florescer, torná-la forte mas flexível, quando convir. são 4 e meia da tarde, estou meia hora atrasado para o encontro no messenger com ela, ela já deve estar em casa, penso eu, à minha espera, em frente ao computador. e eu estou aqui em baixo e tenho uma rosa para ela *sigh*. é uma opção burra em retrospectiva, estou a esgotar dois elementos surpresa numa única ocasião, devia ter guardado a rosa para quando lhe metesse os cornos com uma argentina, para o ano, na viagem à américa do sul, mas que sa foda, gastei 2 euros naquela merda e não vou deitar fora. milhões de gajos a querer oferecer flores às gajas à volta do mundo e não podem. não vou desperdiçar.
abordo um jovem alemão para me ajudar. a ideia é tocar à campainha, ele dizer que é o homem do gás e assim me abrir a porta de entrada do prédio e depois lá em cima eu lhe aparecer direito na cara, para ela nem ter tempo de fantasiar sobre o reencontro ou dizer ao gajo que tá com ela pra se pendurar na janela. quero ver a reacção nua e crua, no strings attached. o plano funciona, subo as escadas num misto turbilhoso de emoções. não sei bem o que esperar, toco à campainha. o flatmate, um híbrido mamute/austrolopiteco abre a porta, ele reconhece-me de dezembro, meto o dedo à frente da boca, vertical, como o mourinho na taça da liga contra o liverpool, em 2005. xiiiuuuu. entro pelo apartamento adentro, ela tá à porta do quarto, apareço-lhe com a rosa em punho, a mala puxada na outra mão, ambos elementos simbólicos da minha caminhada. ela não acredita, não sabe como reagir... é normal... eu já sou velho e também não sei. é contudo um momento que carrega uma inequívoca declaração de intenções.
e eu continuo a dar azo à minha esquizofrénica obssessão de que namoro com uma estrangeira na flor da idade. tou a gostar, não me mediquem.
BONUS TRACK
os emails que o jarek me mandou, posteriormente, incluindo uma foto.
1. "Dear My brather Pedro hehe !!
super, that you write to me. Sorry, but J"m outside in my house-at uncle and J have not book of words translate english-polisch. In sunday I Comeback to my house and writing about your girl. She's very interesting girl and beautiful. Is good woman .
I'm very lucky that you writing to me, I thinking about you and your future. In sunday visit to my home cuzin- teatcher of language english and I write to you. Sending
my photo from Lecco ( Italy)- september "08
bye bye Pedro my brother:-) Jarek"

2. "Hi Dear brother hehe - in my opinion - your girl is very self confident, going straight into the target. Also fully decided for everything to reach the goal. In your relationship she will take a lead, she is too conservative and too tough for you. Best wishes Jarek oh, maby in marth I visit Porto and Coimbra hehe, but maby... Bye my brother Pedro hehe" [perfil psicológico da minha namorada traçado a partir duma única fotografia]
3. "elo elo ma friend. This is only my opinion about your beautiful girl.Don't worry of my opinion. Promotion for low cost to Porto is the end and my friend with job can't fly in march.... Lisboa fascination me and non stop thinking about beautiful city and brazillian girl hehe. So you now is a Berlin or Lisbon? wishes all better Jarek
4. "hey my friend,what"s going on? Tomorrow I fly to Sewille on 5 days. Also, I would like visit to Cadiz. Now temperature is Sewille is 20 C and sunny. Many wishes for you girl and you. Jarek"
5. "hey PEDRO, hmm end sweet dream and tomorrow I comeback via Italy/BERGAMO to Warsaw. Yesterday temperature in Sewilla was 22 and sunny. Now I have a brown skin hahah like Bambo. In BERGAMO/ prowinza Lombardia I spending 24h and Iwould like Alps *about 60km from Bergamo*. I was in Bergamo on summer, very old town *CITTA ALTA* beautiful places. So, next travel to LISBON HAHA/Now is crizis and polish zloty not good / 1 euro / 4,65 zlotych.....
Best wishes Pedro , ciao"
6. "hey Pedro my friend, now Im wisit to VALENCIA and raining, raining, raining hehe
beautiful city but this rain. Tomorrow I fly to Warsaw via Duisseldorf /Germany/. Now what you doing?Where is your beautiful girl?Now I visit sauna and must goes on traning body building hehe. So, wishes the best PEDRO, Jarek ciao"
a 10 de janeiro do ano corrente, o fruto da minha adoração parte da maior obra de engenharia jamais realizada por portugueses, uma robusta estrutura com 2,7 km de extensão suportada por dúzias de pilares feitos à base de betão e moçambicanos com mais de 50 metros (de altura, os pilares). trata-se dum domingo à tarde e cedo vejo me remetido à minha inexistência enquanto indivíduo. uma vez na altura em que era convencionado que eu tinha desalinhamentos psíquicos fui obrigado a me confessar a uma doutora, que me sugeriu outra, que me sugeriu outro, cada um mais literado sobre menos coisas que o anterior. numa sessão de esclarecimento acerca de mim próprio a 2ª mais literada sobre menos coisas decidiu soltar pró ar naquele jeito de monge budista procura-a-verdade-em-ti-jovem-aprendiz o que me pareceu uma mistura de um peido com um murmúrio qualquer. quando a instei a repetir o que disse, ela corou e após limpar a garganta com um conhaque da beira alta retorqiu num tom leve sou-tipo-a-voz-da-tua-consciência mas retoricamente confiante "saberás estar contigo próprio?". após exterminar 50 euros pra ouvir a reencarnação feminina portuguesa do siddharta decidi ir a pé para casa, do saldanha a telheiras, para me encontrar a mim mesmo e porque tinha ataques de pânico se me metesse no metro porque podia ter um ataque cardíaco e só tinha 5 a 10 minutos depois de desmaiado até que se começassem a suicidar pequenas células cerebrais em massa, desesperadas pela crise no fornecimento de oxigénio. fui o caminho todo a matutar, como é hábito, sobre as operações aritméticas possíveis nas matrículas dos carros e as suas possíveis relações com as letras até que, precisamente em frente à torre do tombo, começaram a reverberar com urgência crescente as sábias palavras da engenheira da psique. subitamente entendo agora o que ela queria dizer... na verdade tava eu ali comigo mesmo e nem me ligava meia, sempre preocupado a fazer contas ou a ler letreiros e a tentar reproduzi-los noutras línguas, nem um único esforço no sentido de encetar uma conversa comigo próprio, como se eu não existisse. ela tinha efectivamente razão, eu não sabia estar comigo próprio e, para dizer a verdade, eu até sabia porquê: estava auto amuado desde setembro de 1994, quando relutantemente aceitei voltar com o meu pai para portugal naquele infame lockheed tristar 500 vindo de NY. desde aí entrei em confronto com a minha existência e tornei-me inexistente, para minha própria protecção, limitando-me a flutuar sobre espaços à medida que o tempo passa, até voltar a NY e me perdoar a mim mesmo 20 anos depois. à semelhança dos alemães e a WW2. por causa disto, sempre que sozinho estou em contacto com algum objecto inanimado, capaz de me suscitar distracção durante o tempo que for necessário até alguém me contactar por sua própria iniciativa outra vez, normalmente 2 a 3 meses depois. não sei por exemplo estar a me bronzear ao sol calado, não sei me sentar relaxado a ler um livro com as pernas esticadas num sofá favorito e não sei circular em conversas rotineiras sem que me precipitem para o idle cerebral e deixe de reconhecer que estou em interacção com outro ser humano. normalmente, quando isto acontece, entro em pânico de aborrecimento e relembro-me da minha inexistência e então fujo, invento qualquer coisa, frequentemente vou à casa de banho (às vezes, dependendo da companhia, vou mais de 20 vezes à do lux), digo que tenho que estudar ou uma merda assim, isto pra voltar a um objecto inanimado que me distraia.
nessa noite, tinha deixado o meu objecto inanimado predilecto, o meu primo rodrigo, no carro do meu tio e tive que me contentar com o segundo, um arcaico ábaco eléctrónico da intel ligado a um monitor de 19 polegadas que os meus progenitores têm lá em casa disposto de forma geometricamente perfeita num mesa wengué perpetua e imaculadadamente limpa. sentado nesse tipo de ambiente de geometria sagrada só rivalizado pela câmara principal da pirâmide de keops começei a sentir uma multitude de acessos emocionais características a seres humanos. temi pela minha saúde e pedi 4 zolofts emprestados à minha mãe como quem pede cigarros, para voltar ao estado emocional fundamental. mas em vão, a verdade é que pela primeira vez em 10 anos sentia verdadeiramente a falta de alguém.
a 10 de janeiro de 1916 ter-lhe-ia escrito uma carta do lado oposto da grande guerra, a 3400 km de distância, eu entente, ela dos poderes centrais, a combinar para nos encontrarmos a cavalo a meio caminho, em andorra, a tempo de apanhar as viagens de finalistas lá em março. esperaria 1 mês pela resposta ao mesmo tempo que acordaria todos os dias às 4 da manhã para ir a pé do Funchal à Calheta por tortuosas levadas para trabalhar no engenho de mel de cana, o "ouro branco", nessa altura já em franco declínio comercial. acumularia riquezas na ordem dos 3 ou 4 contos de real para comprar um pónei, por ser mais barato, e uma canoa, e partia ainda mais destemido que o gonçalves zarco e os seus capangas no sentido inverso da sua gloriosa jornada, à descoberta de sagres, e depois montava o pónei ao longo das praias algarvias e planícies andaluzas até granada e vendia-o lá por 8 contos, que para eles era tuta e meia, e comprava a alhambra para ela e uma prancha de snowboard da solomon pra ir dando voltas à serra nevada até ter notícias do paradeiro dela (dizia-lhe na carta original pra ela me mandar resposta para granada). se não obtivesse resposta até novembro de 1918 assumiria que se tinha apaixonado por um otomano emigrado em berlim ou que tinha se voluntariado para a linha da frente nas margens do marne e partiria a prancha de snowboard contra a alhambra antes de correr até versalhes e organizar, num rasgo de lucidez altruista que só o fim das relações conseguem me incutir, uma manifestação anacrónica contra o tratado que 21 anos depois seria indirectamente responsável pela morte de milhões de seres humanos, e judeus.
infelizmente, no entanto, estando a 10 de janeiro de 2009, a história foi menos interessante. telefonei-lhe do meu telefone móvel e falei com ela em tempo real à tal distância de 3400 km; perguntei-lhe se ia a londres visitar o pai no futuro próximo, por precaução; troquei lamechices próprias dum gajo que pauta a sua conduta pelo que viu os outros fazerem na televisão e na escola; desliguei e perguntei a um amigo numa cena que dá pra trocar mensagens escritas com outros em tempo real também se me podia emprestar 110 euros para ir a berlim prá semana porque a minha merda que dá pra pagar coisas enquanto sentado numa cadeira em casa a olhar para um monitor tava avariada. ele acedeu, pressionei o meu dedo uma dúzia de vezes contra um botão, dactilografei um bocado e em 10 minutos soube que se me apresentasse num lugar pré-definido com identificação pessoal daí a 6 dias, era possível que me transportassem para a capital da tríplice aliança, se não me fosse emitido um mandato de busca pela interpol até lá nem me apresentasse visivelmente embriagado.
durante estes 6 dias penitenciei-me de saudade e aborrecimento. lembrei-me várias vezes do d'este viver neste papel aqui descripto do lobo antuntes, e de certa forma, de todos os outros 56.999 combatentes do ultramar e de como tudo era mais fácil para eles. todos os dias diferentes, sempre em movimento físico e mental, sempre em contacto com novos estímulos aos sentidos e sempre em acesos convívios interculturais com os locais. basicamente um interrail em africa pago pelo estado português e eu aqui sem nada pra fazer, a viver, cheirar e degustar sentidos vulgares e facilmente acessíveis, farto dos chatos queijos camembert, a arrogante água evian, ou o espanhol presunto pata negra bolota, tudo à distância duma passada. eles lá em períodos semestrais ou anuais com as assanhadas e quentes africanas e eu cá com a minha mãe e irmã que já conheço de cor há 26 e 24 anos respectivamente.
e então morosamente lá chegou o meu dia de partida e do eterno paradoxo de arrependimento em não ter dado mais atenção aos cães, de não ter visitado a minha madrinha ou não ter explodido com a sede do nacional, na rua adjacente à praça colombo (para os interessados). nunca tenho paciência para dar iniciativa aos dois primeiros - apesar de gostar sempre e ficar agradado comigo mesmo quando os faço, particularmente quando a minha madrinha me paga 50 euros pela visita, menos quando o zeca me encharca em baba de boxer, de resto ultra medicinal parece-me, mas com um aroma notavelmente próximo àquilo que eu consideraria ser o sémen do spot, podre por causa alimentação monótona baseada em eukanuba de fígado de vaca. já relativamente ao último trata-se duma questão logística, o mercado da nitroglicerina é, ainda hoje, de complicado acesso. uma vez encomendei pelo ebay 2 kg desse negócio da serra leoa mas na semana seguinte as autoridades leonenses contactaram-me a informar que neste momento e durante os próximos tempos o stock estava esgotado porque tava a ser tudo canalizado para a frente revolucionária unida, o grupo rebelde que eles comandam e suportam para dar ilusão de que o governo luta contra uma tentativa de golpe de estado e justificar xixi e cócó. foi o mais perto que tive de levar a cabo uma acção que enaltece a seriedade e bons costumes do povo madeirense.
a hora chegou e fui me embora despedindo-me de todos e todas. hoje em dia as despedidas na minha família já não têm o valor cinematográfico que tinham há uns anos, na minha opinião. perdeu-se o drama induzido pela minha mãe de quem não sabia se jamais me voltaria a ver durante todo o curso da vida, apesar de se saber a localização exacta de cada parte e haverem terminais móveis para comunicação remota, para se substituir por um rotineiro semi-mecânico abraço de até breve de 2 meses em média seguido por uma alarmante mas genérica alusão à hora e uma possível perda do vôo. desta vez, apesar da minha precisão natural para chegar no último minuto ao balcão de check-in, cheguei 1 minuto do lado errado do tempo mas o gajo que tava no check-in era madeirense, um ser que, para além das quadradas objectividades regulamentares é capaz de perceber porque é que são estabelecidas e usar o bom senso para articular um número baseado numa regra rígida com a sua razoabilidade na aplicação, um pouco como os polícias deveriam fazer, se possuissem cérebro. mas também tavamos no aeroporto da madeira, no o'hare em chicago talvez não fosse recomendável se armar em ser humano.
e lá parti eu da ilha, ao levantar vôo descobri que desta vez pintada em tons diferentes relativamente às outras 173 vezes que parti da ilha, mais vivos, mais alegres, o mar mais azul e benigno, o ilheu da ponta de são lourenço um símbolo de independência e solidez e não de isolamento, machico razoavelmente não tão asqueroso (também porque não se viam os habitantes daquela altura) e as nuvens todas em forma de alemanha reunificada. isto levou a que tivesse uma viagem pensativa, revolvendo em torno da viragem do tempo e da natureza predominantemente imprevisível das coisas. materializei esta divagação sobre a forma duma curiosa e abstracta projecção mental do descubra as diferenças na minha vida, culminando e terminando a fantasia na altura em que me lembrei de fazer o antes e depois do meu percurso académico e voltei ao meu assento tamanho criança/anão a bordo daquele airbus a319 da easyjet com 127 assentos tamanho criança/anão. tive a tentação e o tempo suficiente em idle para suspeitar da legitimidade do meu rumo enquanto homem mas rapidamente afastei ideias loucas de estudar. o que queria neste momento era ir para a alemanha ficar todo o dia deitado na cama a comer bratwursts e donner kebabs a ver o flavour flav ou o next na mtv enquanto ela ia à escola até às 3 da tarde e entretanto ficava de noite e eu ficava deprimido até ela voltar com uma garrafa de vinho dornfelder ou martini bianco. o que resolvia tudo e fechava o ciclo diário associado ao meu ritmo circadiano.
A Escala em Lisboa
com isto tudo nem tive tempo de equacionar do que é que me teria esquecido na madeira desta vez e só ao simular que ia tirar a chave de casa da mala, já em lisboa, ao chegar à porta do meu prédio, é que percebi o sucedido. felizmente, tratando-se dum acontecimento recorrente já tinha o procedimento de emergência automatizado e só tive que dar umas dezenas de passos e tocar à campainha do pronto socorro ruben para me albergar durante umas horas até recuperar a minha ligação à capital da alemanha, de manhã. ofereceu-me a noite em sua casa a troco de 25 euros, o melhor preço de todos os meus amigos. feliz por ter um sofá em miniatura onde dormir adormeci à base de valdispert sonhando a noite toda que era uma raíz de valeriana gigante e que tentava obstinadamente destruir os laboratórios da pfizer nos states por causa da zoloft, essa puta de plástico mais popular do que eu.
acordo solidário com a minha sujeita de sonho e viro-me para a cientologia como única resposta, não tomo medicamentos sintéticos de agora em diante porque só são um mero instrumento de manipulação mental por parte de grupos lobbyistas da indústria farmacêutica. a dianética diz que só posso tomar medicamentos sintéticos produzidos pela igreja da cientologia e só os tethans de 5ª grau pra cima podem administrá-los senão xenu vai fazer explodir outra vez o dispositivo nuclear de 500 megatoneladas no supervulcão subterrâneo de yellowstone park e dividir o continente norte americano a meio criando sucessivas quedas de água maiores que as cataratas de angel na venezuela por toda a racha à medida que a fractura tectónica vai enchendo com maçicas correntes de água do ártico e do golfo do méxico, até estas se encontrarem a meio caminho no midwest americano em kansas city praí e embaterem uma na outra e criarem um repuxo gigantesco maior que o de oeiras e a teresa zambujo ficar fodida porque lhe plagiaram mas pra melhor, como os alemães fazem tecnologicamente ao japão.
chego outra vez last minute às 11:15 da manhã ao check-in apenas munido do meu passaporte camufladamente desligado da capa, proeza alcançada à base de vodka red bull e uma máquina de lavar a 13 de agosto de 2008 em novalja e que conseguiu misteriosamente apagar só e apenas o carimbo do homeland security department dos states, levando me a concluir que, ao contrário do que seria de esperar, a tinta produzida na fronteira entre a sérvia e a macedónia é mais forte do que aquela produzida em NY. como sempre, e recorrentemente curioso, o ar de surpresa do/a operador(a) de check-in logo de início ao verificar o estado do meu passaporte e o consequente lançamento dum olhar de leniente compaixão burocrática como se eu lhes ficasse a dever qualquer coisa a partir daquele momento e para todo o sempre. as pessoas, e também os operadores de check-in, não deixam passar incólume a possibilidade de se se certificarem que sabemos que fizeram alguma coisa por nós, um prenúncio discutível de que na realidade o fazem primordialmente por reconhecimento.
vou prá habitual gate 13, recordando-me da mítica homónima do estádio toumba, em salónica, e a fonte de inspiração para o cântico de eleição dos rapazes sem nome esta época. sento-me à espera do gongo para o nostálgico processo de formar duas filas easyjet A e B. vou sempre a correr invariavelmente para a fila B porque gosto sempre de ir à janela, pra ir identificando figuras geométricas macónicas no alinhamento das ruas nas cidades e também na esperança de avistar um daqueles ovnis que desde os 8 anos procuro nas janelas dos aviões e das minhas casas à noite pra entrar em contacto telepático com eles e me esclarecerem duma vez por todas se realmente zeta reticulii é roxa porque conheço uma pessoa que ia adorar aquilo então e gostava que lhe raptassem pra sempre, se possível. ao meu lado encontra-se uma viajante seguramente experimentada. possui dreadlocks(atenção que se disseres rastas vens da babylon) e tresanda a cabelo não lavado. complementa a sua evidente falta dum homem com uma backpack de dimensões aproximadas a um, se bem que de pequno porte, e aposto que mete a lata de desodorizante num sítio qualquer estratégico, em jeito de emulação genital. por causa do gesto técnico de se deitar em cima dos bancos ao invés de se sentar civilizadamente apenas num deles ou se deitar altruisticamente no chão, impossibilita que 2 outras pessoas se possam sentar. assisto a todo o processo de sucessivos futuros colegas de vôo a se indecidirem sobre o curso de acção a tomar, numa calma e serenidade próprias de quem só estava ali de passagem e cuja alma já se encontrava 4 horas à frente do corpo. nem o facto de ela não saber de nada e tudo isto constituir a primeira surpresa romântica que faço na minha vida me causava grande desequilíbrio emocional. estava num estado de paciência extrema, um modo de actuação que descobri que se activa automaticamente cada vez que tenho que embarcar em viagens técnica ou psicologicamente morosas e que refinei ao longo dos últimos dois anos em comboios, aviões e barcos por todo o mundo conhecido.
por entre os habituais personagens cinzentos dos aeroportos que por ali deambulavam, um portentoso humanoide de cabelo rapado louro e aspecto ríspido, a aparentar os seus 30 e pouco anos, surge e começa a inspeccionar a criatura a meu lado. começa a murmuriar qualquer coisa numa língua do leste europeu a um ser fisicamente diametralmente oposto a ele, com os seus 60 anos, e acaba a olhar pra mim. percebendo a sua linguagem corporal conclui que tinha tentado uma piada e sorri, com medo de represálias. nunca imaginei eu que tinha dado início a um relacionamento de profunda intimidade espiritual, originado ali, naquele momento singular de empatia emocional, e reforçado no curso das 3 horas e meia de vôo até berlim, nas quais contava desesperadamente dormir. o rambo do leste europeu, inspirado no meu sorriso, e erróneamente sentindo um mínimo nicho de abertura da minha parte para estabelecimento de relações interpessoais, vem na minha direcção e inquire no mais efusivo entusiasmo: "where are you from?". ele tinha encontrado um amigo.
hesitei em lhe responder um qualquer país anónimo do leste europeu como a hungria, mas qualquer um que não o dele serviria, para não ter que inventar uma história de emigração ou de abandono como justificação para não falar a língua, mas havia qualquer coisa nos olhos dele que justificavam um estender de mão. ignorando a bateria de perguntas e comentários sobre o meu país que a verdade adivinhava, todas elas respondidas na ordem das yotta vezes na minha antiguidade e história recente - uma chaga inevitável do diluimento de culturas por efeito de globalização - respondo-lhe resignado: "Portugal..."
era a reposta que ele ansiava: um rapaz local, relativamente novo e aparentemente relaxado com quem poderia partilhar todas as histórias imaginárias que vivera em portugal na semana anterior. nesta altura já me tinha apercebido naturalmente que tinha encontrado um amigo para as próximas 4 horas e provavelmente para a vida, a minha única dúvida prendia-se nesta altura apenas com o centro de massa da conversa que teria que alimentar, se em gajas ou se em pasteis de belém, fado e castelos/palácios.
ele contra-responde como se fosse a última nacionalidade que ele esperasse encontrar no aeroporto de Lisboa "PORTUGAL?! WOW YES I HERE FOR ONE WEEK, VERY GOOD, NICE GIRLS HAHAHAHAHAHA". desata numa incompreensível gargalhada histérica, totalmente desadequada tanto ao seu calibre físico como ao facto de provir dum ser humano. a minha dúvida estava esclarecida, dentro em breve discutiriamos como as polacas e portuguesas, apesar de diferentes, são as melhores gajas do mundo, de como perdi uma namorada portuguesa por causa duma gaja polaca, de como ele apanhou-se com 2 brasileiras na praia de carcavelos (*sigh*) na madrugada anterior e penetrou ambas (não chegou a dizer mas acredito que talvez em simultâneo até) ali mesmo, à homem. de como o colega de 60 anos dele apaixonou-se por uma outra brasileira de 18 anos que encontraram com as outras duas no centro de lisboa (xD) e portanto levou-a para o quarto de hotel para uma doce noite de paixão em vez de optar pelo sujo e crú sex on the beach. enfim, de todas as sub-ramificações destas conversas que um jovem de 12 anos a atinigir a puberdade conseguiria imaginar. isto tudo como hours d'oeuvre para a viagem propriamente dita e o consequente aprofundar da nossa relação.
imediatamente após divagar sobre a promiscuidade das portuguesas, que segundo ele, é maior que a das polacas (aliás ele teve com 3 portuguesas durante a semana, para além das duas brasileiras), puxa o travão de mão e faz uma curva de 90 graus à direita em slide, entra na recta do pessoal: "why you go to german?". após concordar em enaltecer bipartidamente portuguesas e polacas como classes femininas superiores não sabia como lhe explicar que ia visitar a minha namorada alemã.
nos cerca de 5 segundos desconfortáveis que se geraram a seguir à pergunta, uma pletora de condicionantes foram-se agregando à minha resposta, desde o desconforto histórico que 1939 poderia criar, à possibilidade dele me agredir violenta e descontroladamente por lhe ter desiludido enquanto amigo de vida, tendo previamente sido falso quanto a preferir tugas e polacas, declarações que lhe tinham na altura aquecido o coração, estou certo. de qualquer forma, se esta amizade era para continuar, ter-lhe-ia que ser franco e o momento era agora, ou nunca: "...ah yes, i have a german girlfriend...". a mutação na expressão dos seus olhos foi semelhante àquela dum miúdo que pede uma playstation 3 no natal e, ao abrir o presente, vê-se com um arcaico e obsoleto subbuteo nas mãos. claramente magoado mas demasiado boa pessoa para não tentar escondê-lo, tenta disfarçar com manobras retóricas: "GERMAN??! NO GERMAN GIRLS SHIT!! GOOD LOOKING GUY LIKE YOU MUST HAVE POLISH GIRL! POLISH GIRLS BEST YES? BLONDE [enquanto gesticulava um cabelo frisado louro, o que até lhe assentava bem, na minha imaginação], BLUE EYES, VERY GOOD! YES?!". sabia que resposta lhe dar mas tava a me questionar sobre o tempo que se pouparia em conversas do género se se usasse o inglês económico dele. "heheheh yes, yes, polish girls very good but this german girl is nice too, different from the other german girls because she's half english and half australian". relativamente mentira, mas para o contexto servia. "AHHH YES ENGLISH GIRLS BIG BOOB HAHHAHAAH", acompanhado do semi previsível gesto, não fosse ele desenhar duas esferas do tamanho de bolas de futebol no ar em frente ao seu peito e optar por deitar a língua de fora e simular a auto estimulação dos mamilos que, segundo ele, revelou-me mais tarde, as inglesas fazem no banho e é causa directa no crescimento extra no tamanho dos seios.
"do you have picture of girlfriend?". felizmente não tinha, senão não iria conseguir mentir e embora esteja mais do que satisfeito com as medidas da minha girlfriend estou certo que, baseado nas expectativas astronómicas dele em relação às boobs das inglesas, viria como um segundo momento de desilusão. talvez este inultrapassável, condenando de forma irreversível a nossa promisora relação.
somos chamados para formar as filas A e B, e num canto da minha alma residia uma esperança ínfima de que ele se iria limitar a ir com o amigo de 60 anos para dentro do avião. rapidamente percebi que era mais provável o dias da cunha construir uma frase com nexo. enquanto a paradigmática mulher deprimida e mal disposta - cuja ocupação passa por rasgar bilhetes pelo picotado e ostentar sorrisos cínicios cor de laranja da easyjet enquanto aguarda toda e qualquer oportunidade de atacar o ignorante viajante casual e posteriormente partilhar com os seus semelhantes mais um conto sobre a ignobilidade do exército dos que não fazem da sua vida o cumprimento de protocolos aeroportuários - anunciava a complexa tarefa de dispor cerca de 150 cabeças de gado com vontade própria e o que se pode chamar, no pior dos casos, uma remota capacidade de raciocínio em duas filas principais e outra prioritária para quem pagou mais 12 euros e para deficientes (passe a redundância), ele já me estava a dar sinais de que caminho a tomar: "[por entre o irritante ecoar no corredor da estéril voz da robô anunciante]MY FRIEND I DONT LIKE, HE BORING HAHAHAHA AND OLD! HAHAHAHA! YOU WANT COME WITH ME? IN PLANE?".
conformado com o meu destino solto um "yeah yeah... ok", já nesta fase triturado psicologicamente. as possibilidades de dormir durante o vôo desvaneciam-se a cada chilrear daquela ave rara mas ainda punha a hipótese de ele se estar só a referir a ENTRAR dentro do avião com ele, dúvida que ficou no ar pela sua particular falta de articulação no discurso em inglês.
proseguimos em conjunto para a fila, eu admitidamente despreocupado com seja o que fosse que os outros 148 passageiros do vôo fossem conceber acerca da minha relação com esta máquina de guerra infantil que não sabia se expressar doutra forma que não no limiar da explosão dos tímpanos dos seus ouvintes voluntários e involuntários que se encontrassem num raio de 2 km. era como se estivesse a discursar para uma audiência de 1 milhão de inválidos auditivos, sem microfone. era como se estivessemos no meio dos bosques da pomerânia ocidental a resistir ao avanço alemão durante a 2ª guerra mundial, gritando palavras de ordem que tivessem que ver com as nossas vidas privadas, com todos os outros membros do batalhão a escutar atenta e perplexamente. e num avião de lisboa para berlim eis que o meu novo amigo descobre uma conhecida polaca, na posição de fila imediatamente contígua à nossa, à frente. equacionei-me sobre a oportunidade de negócio que constituia a aparente falta duma ligação aérea entre ambos os países mas a reacção da jovem em questão à jovial e alegre solicitação em polaco do meu amigo catalisou-me as atenções para a linguagem corporal de ambos. ela claramente não o conhecia, ou então não se lembrava dele. ele parecia lhe explicar a situação em que se conheceram, numa espécie de retórica emocional enquanto ela aparentava preferir não ceder a embarcar, ao contrário de mim, no fantástico mundo da fantasia em que ele vivia, talvez já ciente, à priori, do que significaria em termos de danos psiquícos, num futuro próximo.
finalmente, após 2 ou 3 minutos de troca de grunhidos melódicos que pareciam seguir, grosso modo, um padrão linguístico (não vejo outra forma de classificar a língua polaca), ela desistiu e relutantemente aceitou que o conhecia de algum lado, a interjeição e a linguagem corporal para esta concessão sendo aparentemente universal.
ele vira-se para mim e explica que a conheçeu algures em belém, durante a sua estadia em lisboa, e estava completamente obliterado pela espantosa coincidência de a encontrar outra vez no aeroporto. águas tantas, começei a admitir a possibilidade de se tratar não dum polaco mas dum extraterrestre disfarçado de polaco - uma escolha de nacionalidade inócua claramente intencional, para passar despercebido na terra -, numa alegria ingénua partindo à descoberta dos habitantes deste planeta, rejubilando com toda e qualquer vicissitude que gravitasse em torno da condição humana.
o tempo, esse, não parava, e como tal a ordem cronológica de prioridade de embarque cumpria-se ritualmente. eu, mais uma vez parte integrante desse ritual, invariavelmente no mesmo papel de triste e renegado membro da fila B, observava, ao som do polaco, um misto de casais de meia idade com carrinhos de bébé a comunicar com ar enfadado em alemão e grupos de jovens portugueses de topo modal, pertencentes a subculturas urbanas vanguardistas, peregrinando orgulhosamente em direcção aos bairros berlinenses de kreuzberg e prenzlauer berg, a meca e medina do pseudo alternativismo de aparência e costumes, paradoxalmente caracterizadamente ocidental.
estava totalemente deslocado, como sempre, mas em breve encontrar-me-ia outra vez, e o melhor de tudo é que ela não fazia ideia de nada. na noite anterior inteligentemente sugeri que ela comprasse uma webcam para nos podermos ver pela net, procedendo a satirizar que tava contente que nos iamos ver no dia seguinte antes de artificialmente pôr a hipótese, em jeito de suposta imaginação, de nos vermos realmente em carne e osso. marcamos para as 4 horas da tarde, GMT +1, no messenger, um fait divers que usei para garantir que ela se encontrasse em casa a essa hora.
passamos pela operadora da gate que previamente me tinha suscitado asco esterotipado e concedo uma última chance à classe que ela representa só para poder escrever um parágrafo totalmente desperdiçado neste texto. entramos no avião ambos num clima de excitação, por razões diferentes. o amigo dele senta-se a meio do avião enquanto me fita de forma estranha e ameaçadora, eu prossigo até ao fundo do avião, estatisticamente a zona de maior índice de sobrevivência em caso de desastre aéreo, e sento-me à janela. ele parece ter ficado com o amigo mas subitamente continua na direcção da minha fila, após trocar algumas palavras com o amigo enquanto apontando para mim, o amigo aparentemente desiludido com ele. vem sorridente na minha direcção, o nosso companheirismo de viagem agora um dado adquirido. solicita-me de pronto "can i go in window?". desarmado, como fosse tão irrecusável quanto negar um rebuçado a uma criança de 5 anos, levanto-me e vou para a coxia. uma viagem surreal e interminável estava prestes a começar, iamos aterrar em berlim isso era certo, mas não deixava de sentir que de resto era destination unknown.
A Viagem (esta parte é chata)
para ele, contudo, o nosso destino estava traçado. na sua mente tinhamos construído já um rapport que nos punha no patamar de melhores amigos. talvez por isso tenha ficado a saber, sem que para isso tivesse apresentado vontade, que o meu novo amigo era um rapaz de 45 anos polaco que tinha como ocupação ser guarda-costas de figuras de estado na polónia. o seu nome era Jaroslav mas eu, sendo seu amigo, podia lhe tratar por Jarek. em pleno vôo não hesitou em ligar o telemóvel para me mostrar fotos com o papa joão paulo II, com o michael jackson quando actuou em varsóvia e um video particularmente interessante dele a proteger o papa no meio da multidão numa visita à polónia há uns anos atrás. era divorciado e vivia sozinho com o tio numa cidade pequena no meio da polónia. viajava com o seu amigo de 60 anos a cada 2 meses e planeava as viagens com 6 meses de antecedência. depois de lisboa ia a bari e a sevilha (2 e 4 meses depois respectivamente). enfim, providenciou-me uma multitude de informações e factos acerca da sua vida que de nada serviram para construir uma base racional para o seu comportamento.
a determinada altura, e introduções consumadas, tentei me certificar que ele percebia que eu estava, de facto, com os olhos fechados, a tentar dormir. em vão, naturalmente: a cada 2 microsegundos, sempre sensivelmente 1 microsegundo já depois de entrar em REM, era me solicitada a atenção com uma pergunta sobre um qualquer tema que lhe ocorresse na altura. evidentemente, mais cedo ou mais tarde iriamos passar para o campo pessoal, terreno que piso com à vontade em qualquer ocasião exceptuando quando estou à beira do colapso físico. a perseverança dele era verdadeiramente fora do comum. de nada valiam os meus esforços para tornar as respostas desinteressantes ou ocas, o homem era uma fonte interminável de criatividade inquisitiva e eu apercebi-me que nada havia a fazer senão ir aos lavabos, lavar a cara e me manter acordado, evitando assim os consecutivos sustos próprios de quem vê o seu princípio de sono sistematicamente interrompido por uma violenta sucessão de perguntas gratuitas.
em boa altura o fiz, foi a melhor maneira de me preparar para a carga emocional que me afrontaria. voando já sobre terreno francês, dá-se a abertura da sessão de psicanálise. emocionalmente inspirado pelas minhas renovadas reacções pacientes de abertura para uma conversa, inclusivamente emulando ocasionalmente emoções positivas, parte para a troca de galhardetes: "you are very great person, pedro". atónito e perplexo retribuo o habitual recíproco "yes you too, jarek". independentemente das iniciais alegações de masculinidade por parte dele devo confessar que tudo me passou pela cabeça nesta altura, inclusivamente a possibilidade de estar a lhe dar esperanças de algum dia haver entre nós paixão e exploração sexual. à margem, a psicanálise esotérica:
- i can see in your eyes, you very good person, i want be your friend, we friends?
- yes, jarek, we are friends...
- you very great, come here...
é nesta altura que bloqueio, ele, um monstro lamechas com o dobro do meu tamanho, inclina o seu corpo totalmente sobre o assento de segurança que eu tinha deixado entre nós e estende os seus braços na minha direcção. ele podia me ter beijado, agredido ou cuspido na cara, para mim nunca nada se tinha passado, tudo não passaria dum momento salvador dali, uma espécie de grande masturbador pós-moderno, a bordo dum airbus a319. abro também os meus braços e acolho o seu generoso corpo nos meus braços. deu-se a fusão da nossa intimidade. eternizamos a amizade, mas ele notou que qualquer coisa estava errada. mal o abraço acaba, olha com ternura e em jeito de compreensão tenta me encaminhar para repostas acerca de mim:
- "pedro...?"
- "yes jarek?"
- "i can see you have problem with .. how you say.. in german is said affektion"
- "hmmm, i don't know, maybe"
- "you father and mother not hug you when you small children i think"
penso por um momento nesta pergunta desferida sem preparação, um exemplo primário da habilidade em saltar barreiras de intimidade deste ser inclassificável que, aos 45 anos, era basicamente um bébé em ponto grande com a aparente inteligência emocional dum velho de 80 anos. se é verdade que me considero mais frio do que me desenharia se fosse o gajo que toma as decisões, nunca me pareceu ser culpa dos meus pais mas mais do percurso que tomei. um gajo chamado robert frost uma vez disse que dois caminhos divergiam numa floresta, e alegou ter tomado o caminho menos utilizado. segundo ele, isso fez toda a diferença. várias vezes na vida me relacionei com esta alegoria da floresta do frost pelo que, na realidade, jarek o bárbaro sensível me tinha captado a atenção com esta indagação. sim não liberto facilmente o tipo de hormonas que me leva à procura da intimidade física. sim abraçei-lhe de forma semi relutante, mas porquê é que ambos tinhamos necessidades tão distintas no campo afectuoso? seria de mim ou dele? limitei-me à resposta diplomática:
- "yes, i think the normal every parent gives to their child.. yes i felt loved when i was a kid"
era o que diria independentemente do que pensasse, não era justo denunciar qualquer tipo de negligência afectiva por parte dos meus pais a um polaco assim ao deus de ará.
- "i can see you needed a hug, it was good for you.. you very good person i see in eyes.. when i protect pope karol wojtyla, jan pawel sekund, he look into my eye one time and smile... i not believe in god before.. now i believe and i have power to see if people good...i change very much"
nesta altura deixei-me imergir na fantasia etérea de que era realmente boa pessoa, convencido pela retórica sem espinhas de jarek, talvez um anjo convocado àquele vôo da easyjet para me redireccionar para um caminho de positivismo e amor, se bem que de figura duvidável e relativamente inesperada para a percepção que tinha doutros anjos como o gabriel ou o uriel.
fico sem palavras e admitidamente pensativo. pensei por momentos o que estariam os outros espectadores a bordo a pensar e se já alguma vez tinha assistido a qualquer coisa do género, na qualidade de espectador, nos mais de 200 vôos que já fiz na minha vida. não, nunca. estatisticamente isto era uma aberração.
- "don't cry pedro.." [delicadamente sorri]
- "hehe, i'm not gonna cry"
- "i here for you, i your friend, to help..."
que sa foda, o que gajo que pense que vou chorar, tou me a cagar, até me apetecia chorar naquela altura, ele era verdadeiramente uma boa pessoa, era impossível não querer corresponder às suas expectativas. fingi-me triste para conceder que ele tinha acertado na mouche e tinha causado em mim uma reacção de deitar toda a repressão emocional que acumulei pela falta de afecto dos meus pais naquele abraço enternecedor alguns kilómetros acima de lyon, mas não consegui chorar. já tinha tentado chorar noutras ocasiões, algumas para simular desespero perante uma injustiça, noutras para perceber se tinha capacidade para tal, se por acaso acabasse por não conseguir ser astrofísico e querer seguir a carreira de actor, porque diziam que eu tinha jeito para isso (e para advogado/médico) e até porque eu tinha contacto com a marisa cruz e a sandra cóias. mas nunca consegui. há gajas que são anorgásmicas eu sou anoprântico, faltou-me o stock de serotonina ou tá muito caro ou uma merda assim, o que explica muitas coisas.
de qualquer modo ele, percebendo que me encontrava devastado animicamente pelas recém-descobertas particularidades da minha infância, silenciou-se, para me deixar descansar. nesta altura fecho os olhos e adormeço, simultaneamente aliviado por ter condições reunidas para a practica da modalidade do sono profundo e nauseado pela meu ultra eficaz cinismo.
Chegada a Berlim
acordo com o avião em plena descenção e renovado psicosomaticamente. o calvário aproximava-se do fim. 37 mil pés a descer a um ritmo standard de 1800 pés por minuto dava-nos pouco mais de 20 minutos até largarmos com as rodas na pista, quer para o bem ou para o mal. contas feitas, na pior das hipóteses deixava de ouvir o gajo e acordava numa cama num hospital qualquer nos subúrbios do sul de berlim, com um bocado de sorte qualquer suburbio que não steglitz, onde gozo de fraca reputação e onde sou alvo de processos criminais pendentes (para além de que tenho que mudar de comboio 2 vezes até schoneberg, onde ela mora e isso é me inconveniente). sei que acabaria na pior das hipóteses numa cama de hospital porque tenho a certeza que não é a minha altura de morrer ainda, independentemente de qualquer adversidade que se apresente perante mim, incluindo a queda dum avião. já duas fontes independentes me confirmaram que irei (sobre)viver até aos 90 anos (um jovem viajante sueco que passava pela sua 2ª encarnação sobre si próprio, depois de ser baleado na cidade inglesa de bristol disse-me isto uma vez ao pé do mezcal, em 2007, no bairro alto, e uma vidente portuguesa com os seus 60 anos, em belém, também me revelou o mesmo número, em 2001), pelo que nesta altura pouca coisa que tenha que ver com a morte me preocupa realmente. sei por outro lado que o coma estará fora de questão também já que o profeta sueco me revelou que viria a ser um peão com um papel relevante no mundo e esse seria o meu destino. ora sei que a nível de actividade cerebral pouco mudaria caso acabasse por sucumbir a um coma mas duvido fortemente da eficácia do meu contributo ao mundo nesse estado de vegetação física. ou talvez o contributo fosse exactamente estar impossibilitado de comunicar com o mundo exterior. ou do acidente descobrir-se-ia a cura para uma doença qualquer. tipo saltavam-me as orelhas no momento do impacto e descobria-se que num gajo sem orelhas a sida não funciona porque o HIV salta pelos ouvidos. conservavam-me em coma até aos 90 anos, por simbolismo, altura na qual eu morria de tédio depois de 64 anos deitado numa cama em berlim a ver a bundesliga. isto era naturalmente a pior das hipóteses. na melhor das hipóteses aterravamos e eu saia da cabina nervoso com o reencontro, molhando ligeiramente com urina os slips pretos da sloggy, os mais sexys que tenho, e acabando por ir a correr para a casa de banho mal chegasse a casa dela e jogar os slips pela janela abaixo como há dias em dezembro quando tive um sonho molhado e não sabia onde esconder as boxers todas fodidas, que por acaso até já eram velhas, portanto menos mal.
apreensivo com o desenlace olho pela janela para a fernsehturm de 350 metros o que me permite identificar a distância que ainda tenho que percorrer do aeroporto ao centro de berlim. perco-me em considerações sobre como o aeroporto da portela tem duas particularidades interessantes no facto de se impor justamente no centro da cidade e mesmo assim não ter acesso ferroviário mas por exemplo alfornelos ter. tocamos com as rodas no chão e o jarek dá me um papel dum estância balnear polaca no báltico onde alegadamente todas as celebridades alemães vão. chama-se zopot apesar dele insistir veementemente em pronunciar tsopot. mais interessantemente, no verso do cartão está o email dele e o número de telefone. ele confiou-me a continuidade ou não da amizade, gesto que me levou a concluir que ele, numa profunda retroanálise enquanto eu dormia, percebeu tudo.
despeço-me dele. é um adeus emocional. "think of me in bad times and i think of you in bad times". esforço-me por verter uma lágrima: evoco na minha esfera de consciência a possibilidade da julia pinheiro viver ainda mais 5 anos. nada, como sempre. o amigo fita-me ainda da forma sobranceira moda lisboa, mas quando me dirigo a ele para a despedida sorri e transforma-se num animal amigável. só precisava dum pouco de atenção. estou a sós, agora também fisicamente. saio de SXF pela 3ª vez no espaço dum mês e meio. a neve a temperar a minha gloriosa e cinematográfica caminhada amorosa, se tivesse um ipod metia a musica do gladiador. muitas vezes acho que deveria haver uma banda sonora para episódios de vida, o que me leva à necessidade de comprar um leitor de mp3, como solução temporária. aliás um pro ruben porque lhe fodi um já não me lembro quando e outro pra mim.
subestimei outra vez a massa de ar árctica que deriva indelevelmente pela tundra russa até ao (tecnicamente) temperado leste europeu, um fenómeno climático de contornos bélicos, tal a sua violência. já outros grandes homens anteriores a mim enfrentaram olhos nos olhos este instrumento estratégico de repulsão que abençoa geopoliticamente o território da federação russa. dois séculos antes, um gajo francês quase genovês com bue irmãos é bom no campo de batalha e então ganha respeito da classe militar mas como tem recalcamentos duma infância pautada pelo autoritarismo da mãe, torna-se num megalómano impiedoso e decide invadir o resto do mundo pra provar a si próprio que ele é quem manda, e não a mãe. a subir pela polónia acima, um bocado mais à frente donde eu agora me encontrava, o gélido ar ártico desfaz as suas ambições, exterminando os seus compinchas de batalha. o sonho de meter uma população de 30 milhões de habitantes a conquistar um mundo com 1 bilião cai por terra. já no seculo passado, um gajo austro-hungaro quase alemão com bué irmaos é bom no campo de batalha e então ganha respeito da classe militar mas como tem recalcamentos duma infância pautada pelo autoritarismo do pai, ao espiar um comício dum grupo de extremistas fascina-se e adere à causa, tornando-se num megalómano xenófobo cujo objectivo passa por exterminar classes étnicas e invadir o resto do mundo, porque o goebells disse. este ainda chegou mais longe do que o frances e eu, a uma cidade outrora conhecida como estalinegrado, já dentro do monstruoso território soviético, mas os seus super-zombies de combate não aguentaram os 150 dias sem comer a 30 graus negativos para que foram programados na IG Farben e acabaram chacinados. após boa réplica, refira-se. o sonho de meter uma população de 60 milhões de habitantes a exterminar etnias de 20 milhoes e a conquistar um mundo de 3 biliões desfez-se.
o meu background, apesar de em tudo semelhante as ambas as figuras mitólogicas anteriores (portugues quase noruegues, bué irmãos e o recalcalmento causado pelo autoritarismo do meu golden retriever, o simba), acabou por produzir outros efeitos em mim. é verdade que também sou um megalómano impiedoso e xenófobo mas na verdade tenho uma ambição maior que a deles. mais que o mundo, pretendo conquistar um universo de amor no 5º E, nº30 da leberstrasse, no sul de berlim. e me tornar cantor de folk irlandês. daí que precisasse duma dose de determinação ainda maior que a deles. aliado a isso teria comigo a vantagem de conhecer o percurso deles, saber que adquiri num seminário de formação pessoal que assisti involuntariamente em oslo, em 1988. bastava-me, relativamente a este trunfo, tirar algumas horas para pensar em que é que eles falharam, e tentar evitar seguir os mesmos passos falaciosos.
a neve ininterrupta e efusivamente saudava-me na testa, berlim emocionada com a minha chegada. de schonefeld a schoneberg (schon=bonito, feld=campo, berg=montanha logo iceberg vem do eis=gelo e berg=montanha => montanha de gelo) vai 1 fatídica hora e meia de s-bahn. como poderei sobreviver à neve, ao frio, ao desamparo da solidão ártica? os compinchas do frances foderam-se à pala da hipotermia e desnutrição. os super-zombies de corrida do austro-hungaro a mesma coisa, mas também porque faltaram munições e os soviéticos usaram melhor a arma de destruição cognitiva maciça aka propaganda. posto isto, e após 3 horas de elaboração de fluxogramas e diagramas de estado, conclui que basicamente bastava-me manter quente, alimentado, armado e imune à influência externa para conseguir chegar ao meu destino. a última exigência seria porventura a mais fácil de satisfazer, em virtude do vector teimosia na minha personalidade cartesiana no bolo do caco. o problema do frio e do armamento tinha sido, à priori, já estudado à partida, em lisboa, fruto dos valiosos conselhos da minha avó. se por um lado me alertou várias vezes por telefonema de que temperaturas inóspitas a rondar os 15 graus, como aquelas que constituiram recorde mínimo mais uma vez este ano na madeira pelo 26º ano consecutivo de que me lembro, são gravosas para a saúde da população em geral e que portanto teria que me cuidar na longínqua alemanha, onde tragicamente apenas 84 milhões de habitantes por ano conseguem sobreviver aos penosos invernos, por outro soluçou a cada 5 segundos avisos relacionados com a minha segurança pessoal em terreno tedesco. levada pelo trauma de 6 anos de guerra mundial causada pelos funestos povos bárbaros da confederação de estados germânicos, continua convencida de que hoje em dia qualquer espécimen humano estrangeiro e/ou com o menor sinal de pigmentação dermal é imediatamente executado ou mandado para oswiecim para as minas de sal e posterior gaseificação, já temperado. assim, de sobreaviso pelas recomendações da minha avó, cobri ambos os problemas, ainda em lisboa.
uma das t-shirts sarcásticas pós-modernas obsoletas 100% polyester que costumo usar para sublinhar a minha jovialidade de espírito + uma jersey listrada horizontalmente a azul e verde de jovem adulto responsável/divertido que sabe que há momentos para tudo na vida que comprei uma vez o ano passado antes de ir para cancun na springfield com o patrício e insisti em usar dentro duma disco lá, a transpirar por todos os lados, só porque era mesmo aquela imagem semi-sofisticada que queria passar às americanas mas que elas acabaram por identificar como awkward/weird/odd + um kispo com capuz, azul escuro, às bolinhas num azul marginalmente menos escuro ao ponto de só reparar quando cheguei a casa depois de ter comprado no madeirashopping com o meu irmão para substituir uma bué louca toda em preto que me dava um ar bué independente, decidido e cool para caralho em geral que comprei na H&M na 5th avenue e perdi no outro lado do mundo 4 meses depois, em cracóvia + um casaco com capuz (bónus combo de capuz duplo) com padrão escocês em vários tons de cinzento, azul e preto da XDYE que me refinava o ar de durão barroso muito marado e descontrolado mas ao mesmo tempo com algum sentido de posicionamento no mundo da moda e que nao me serviu de grande pistola para entrar nos clubes em berlim mas que deu pra tirar umas fotos bacanas de mim a fingir que sou insane em poses espontâneas pré-estudadas em cima de pontes, parapeitos ou no topo de estátuas, serviram, discutivelmente, para manter a minha temperatura corporal acima do limiar da hipotermia, embora tenha a certeza que a ponta da vergasta tava a menos de 35º, por mais encolhido por efeito de joule que tivesse.
para protecção pessoal adquiri uma uzi de fábrico israelita no martim moniz a um angolano veterano de guerra. aliás troquei por uma medalha condecorativa aos familiares das vítimas do submarino kursk que comprei na plaza mayor de merdrid a um russo por 15 euros, em 2003, numa altura em que ainda andava com problemas pós-cirúrgicos. o angolano, seguramente nostálgico da cooperação soviética/MPLA dos anos 60/70, descortinou valor sentimental histórico num objecto de legitimidade duvidosa e francamente de sovieticidade nula. eu, por meu turno, matei dois coelhos duma cajadada só: uma uzi, tal como qualquer outro ser inanimado/animado de fábrico israelita, seguramente nunca seria impedida de entrar em solo alemão, à luz dos conhecidos e discrimnatórios eventos históricos do século passado. por outro lado, não se poderia arriscar a acusação de discriminação racial relativa a um cidadão duma ex-colónia portuguesa, pelo que, bastar-me-ia que a arma continuasse em nome do angolano e alegassemos, no aeroporto da portela, que eu era apenas o intermediário no transporte da arma até à namorada dele em berlim, e não deveriam haver problemas.
na realidade, o único verdadeiro problema que se punha nesta altura era então a alimentação. esta poderia ser uma falsa questão. na verdade, em condições normais, todos sabem como me repugna comer, o problema aqui prendia-se com o conhecimento sobejo dos factos históricos e inegáveis do passado. eles foderam-se porque não comeram e agora eu? não me podia arriscar ao conforto dos meus hábitos alimentares. era imperativo que consumisse algo ao longo da hora e meia de linha S1 que teria que percorrer ainda durante aquele dia. mas como? estamos a falar duma metrópole turca com uma minoria alemã e vários turistas americanos e espanhois, portanto uma conjuntura verdadeiramente desoladora para o comum ser humano desnutrido. o menu para todos os 6 milhões de habitantes daquele aglomerado populacional consiste numa amalgama de donner kebabs, durums, lahmacuns, bureks, hamburgeres de 99c no burger king, pretzels e todas as suas permutações possíveis ao longo da semana.
suspiro e como experimentado caixeiro-viajante que sou acedo à cultura do local em que me encontro, de resto o que acabo sempre por fazer com sucesso, à excepção de quando tive que me ambientar ao críptico procedimento cultural em miami e falhei desastrosamente ao ser europeu. interrompo a minha relação temerária com o irredutível nevão, entro numa kebab shop e peço, moreno, coberto de neve, com uma mala às costas e uma uzi debaixo do braço, uma espetada com milho frito. o gajo ao balcão responde "hallo eçpek tada! ich bin ersan" e estende a mão, como resposta à minha alegada introdução. percebi que daquele momento em diante seria conhecido como eçpek naquele estebelecimento, o que não me preocupava a não ser pelo facto de reconhecer que teria mesmo que relegar a minha saúde intestinal para segundo plano, sobre perigo de vir a perder a batalha contra o nevão da russia com amor, como aconteceu com os franceses e os zombies do austro-hungaro.
que sa foda, vou pro donner kebab, o meu 25º no espaço de 2 meses, uma espécie de sandes de alegada carne animal assada num espeto giratório a jorrar gordura, acompanhada de iguarias vegetais variadas e envolta num acessório que pode - discutivelmente - ser considerado uma variedade de pão. grosso modo, o produto da cozinha turca mais popular que existe, aquele que se pede quando se tem bué fome ou quando não se sabe bem o que pedir, basicamente está para a gastronomia turca como o big mac está para a americana.
2 euros e meio para uma bomba calórica de cerca de 800 calorias. fazendo a conversão para horas de ginásio isto equivalia sensivelmente a 1 hora em cima da passadeira a 12 km/h, o que é puxado e inconveniente, até para um masoquista crónico como eu, mas tinha que ser. era conveniente agora e now is the moment. carpe diem. vive o momento.
devorei o donner kebab, uma mistura de molho de alho, gordura e suco gástrico da regorgitação involuntária por comer muito rápido brotavam dos meus cantos da boca enquanto fazia o finish him ao último bocado de cartão, ou pão. frustrado pelos remorsos e pela impossibilidade de meter os dedos à garganta, já que tinha prometido a entes queridos que não o faria por um lado e porque ia precisar deste nutrientes num futuro próximo por outro, exigo o meu dinheiro de volta, em alemão impróprio mas decifrável. o gajo ainda falava pior que eu mas começa lá aos halalalalas dum lado para o outro e a se exaltar com a suposta perna de cordeiro que girava no espeto e a queimar bandeiras americanas. eu não tou pra meias medidas, não impressionado com o tipo de comportamento que imediatamente reconheci da CNN, digo-lhe agastado, já em inglês simples: "look, i give you two warning: one in afrikaans so you have excuse of not run away, the second in sign language...". não sei falar afrikaans e também não teria impetuosidade suficiente para lhe largar um murro em linguagem gestual assim sóbrio mas o que sei é que a reacção do ersan cobriu o meu bluff e ainda fez raise. rabo entre as pernas e fold. os turcos jogam poker de caralho, penso, brindado de novo com neve no nariz.
tal como noutros episódios humilhantes da minha vida, encontro reconforto sentando-me na última fila da última carruagem dum comboio, com a cabeça encostada ao vidro, balbuciando queixas à minha reflecção distorcida e oblíqua. a distanásia personificada. normalmente algo de espectacular acontece quando tou nestes estados de espírito. uma velha vem e conta a história da vida, um casal de backpackers anima-me com relatos das suas passagens pela somália ou uzbequistão, troco olhares cremosos com uma voluptuosa quarentona. no fim acabo sempre emergindo como um herói, ou pelos menos uma figura simpática. neste S1 que ligava schonefeld a sudkreuz fui remetido realisticamente para a minha condição unipessoal e anónima, mais um peão no xadrez duma metropolis, nada de especial.
saio em sudkreuz reatado à minha insignificância global, à minha efemeridade biológica, à minha nulidade filosófica. era exactamente neste estado de espírito que era necessário me apresentar em frente ao meu objectivo. determinado mas humilde. normalmente parece que é conveniente e adequado ser-se ou parecer-se confiante na interacção com pessoas do sexo feminino, li num livro, mas por experiência pessoal, após quebrado o gelo e encetada uma relação, há um notório favorecimento para episódios em que elas estão em posição de nos proteger emocionalmente, uma perversão do instinto maternal delas de que nós homens podemos tirar partido, até elas emanarem um puto pela cona abaixo, que canalizará para si todos esses instintos desse momento em diante. é assim num estado lastimável emocionalmente que passo por uma florista do outro lado da rua em relação à estação de comboio. dominado pela ansiedade existencial embarco no maior dos clichés e após hesitante ponderação decido me despir de racionalidade e me entregar de corpo e alma à lamechice da telenovela ou da comedia romântica com o hugh grant e a andie mcdowell/julia roberts/renée zellweger. entro na loja e compro sorridente uma rosa, como se aquele meu acto pessoalmente inédito constituísse uma cena dum filme que fosse do conhecimento de todos, incluindo a gaja chinoca que trabalhava na loja, como se estivesse a reflectir o secreto orgulho dos espectadores na minha acção seriada e categorizável. um atentado ao meu estatuto analógico.
saio da florista, entro na torgauer strasse e faço o benchmark ao meu comportamento: estou um homem diferente, mutilado, a antítese do irascível ser que brindou a ex-namorada com 0 (zero) presentes ao longo de 6 anos. quando anunciava os meus planos à minha irmã e a uma amiga, no dia anterior à partida, os comentários de ambas coincidiam com esta minha introspecção "pedro mas o que se passou contigo? nunca foste assim!". concordo, estou mais e mais à beira do precípicio, em breve serei mais um ovino de processos determinísticos, alegremente a comer a verde erva do meu lado do curral e a cagar bolinhas de cócó até que a morte me separe do meu estado híbrido animal/vegetal.
cheguei à leberstrasse, estou longe de casa. neva como se não houvesse amanhã. estou completamente sozinho no mundo, isolado. sem família, sem amigos, sem orientação. em familiar só a ténue ligação que começei a desenvolver com esta míuda de 21 anos, cinco voltas ao sol mais nova que eu, e a qual quero cimentar. não cimentar mas fazer florescer, torná-la forte mas flexível, quando convir. são 4 e meia da tarde, estou meia hora atrasado para o encontro no messenger com ela, ela já deve estar em casa, penso eu, à minha espera, em frente ao computador. e eu estou aqui em baixo e tenho uma rosa para ela *sigh*. é uma opção burra em retrospectiva, estou a esgotar dois elementos surpresa numa única ocasião, devia ter guardado a rosa para quando lhe metesse os cornos com uma argentina, para o ano, na viagem à américa do sul, mas que sa foda, gastei 2 euros naquela merda e não vou deitar fora. milhões de gajos a querer oferecer flores às gajas à volta do mundo e não podem. não vou desperdiçar.
abordo um jovem alemão para me ajudar. a ideia é tocar à campainha, ele dizer que é o homem do gás e assim me abrir a porta de entrada do prédio e depois lá em cima eu lhe aparecer direito na cara, para ela nem ter tempo de fantasiar sobre o reencontro ou dizer ao gajo que tá com ela pra se pendurar na janela. quero ver a reacção nua e crua, no strings attached. o plano funciona, subo as escadas num misto turbilhoso de emoções. não sei bem o que esperar, toco à campainha. o flatmate, um híbrido mamute/austrolopiteco abre a porta, ele reconhece-me de dezembro, meto o dedo à frente da boca, vertical, como o mourinho na taça da liga contra o liverpool, em 2005. xiiiuuuu. entro pelo apartamento adentro, ela tá à porta do quarto, apareço-lhe com a rosa em punho, a mala puxada na outra mão, ambos elementos simbólicos da minha caminhada. ela não acredita, não sabe como reagir... é normal... eu já sou velho e também não sei. é contudo um momento que carrega uma inequívoca declaração de intenções.
e eu continuo a dar azo à minha esquizofrénica obssessão de que namoro com uma estrangeira na flor da idade. tou a gostar, não me mediquem.
BONUS TRACK
os emails que o jarek me mandou, posteriormente, incluindo uma foto.
1. "Dear My brather Pedro hehe !!
super, that you write to me. Sorry, but J"m outside in my house-at uncle and J have not book of words translate english-polisch. In sunday I Comeback to my house and writing about your girl. She's very interesting girl and beautiful. Is good woman .
I'm very lucky that you writing to me, I thinking about you and your future. In sunday visit to my home cuzin- teatcher of language english and I write to you. Sending
my photo from Lecco ( Italy)- september "08
bye bye Pedro my brother:-) Jarek"

2. "Hi Dear brother hehe - in my opinion - your girl is very self confident, going straight into the target. Also fully decided for everything to reach the goal. In your relationship she will take a lead, she is too conservative and too tough for you. Best wishes Jarek oh, maby in marth I visit Porto and Coimbra hehe, but maby... Bye my brother Pedro hehe" [perfil psicológico da minha namorada traçado a partir duma única fotografia]
3. "elo elo ma friend. This is only my opinion about your beautiful girl.Don't worry of my opinion. Promotion for low cost to Porto is the end and my friend with job can't fly in march.... Lisboa fascination me and non stop thinking about beautiful city and brazillian girl hehe. So you now is a Berlin or Lisbon? wishes all better Jarek
4. "hey my friend,what"s going on? Tomorrow I fly to Sewille on 5 days. Also, I would like visit to Cadiz. Now temperature is Sewille is 20 C and sunny. Many wishes for you girl and you. Jarek"
5. "hey PEDRO, hmm end sweet dream and tomorrow I comeback via Italy/BERGAMO to Warsaw. Yesterday temperature in Sewilla was 22 and sunny. Now I have a brown skin hahah like Bambo. In BERGAMO/ prowinza Lombardia I spending 24h and Iwould like Alps *about 60km from Bergamo*. I was in Bergamo on summer, very old town *CITTA ALTA* beautiful places. So, next travel to LISBON HAHA/Now is crizis and polish zloty not good / 1 euro / 4,65 zlotych.....
Best wishes Pedro , ciao"
6. "hey Pedro my friend, now Im wisit to VALENCIA and raining, raining, raining hehe
beautiful city but this rain. Tomorrow I fly to Warsaw via Duisseldorf /Germany/. Now what you doing?Where is your beautiful girl?Now I visit sauna and must goes on traning body building hehe. So, wishes the best PEDRO, Jarek ciao"
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