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19 Dezembro 2008, Madrid (30 horas 3 cidades - Part II)

Recomendação: ler Part I primeiro

(...)

em Madrid, conheci a Astrid e passamos pra 19

Acordo sobressaltado com a minha execucação eminente: sinto uma presença electromagnética duma aparelho qualquer. por breves centímetros (cá está, pioneiro literário) só me ocorriam à análise mental duas hipóteses: ou eram os supracitados serviços secretos alemães a me catalogarem para efeitos de posterior arquivo legista ou a CIA ia me meter a camera pelo rabo como parte do programa ECHELON de controlo de fluxo informativo. que do meu ânus sairão informações mais relevantes para a evolução da geopolítica mundial do que da boca ou dedos (era digital) da grande maioria da população parece-me uma perspectiva segura. só não tou ainda preparado para sacrificar a minha virginidade anal (nada de piadinhas) em prol da vida de pessoas, mesmo que tenha precipitadamente declarado o contrário no meio do terror à partida de Berlim.

infelizmente, apercebi-me após inteligentemente ter aberto os olhos para auscultar o ambiente, a verdade era mais dura do que ao que imaginará momentos antes. não era o jorge gabriel a apresentar o natal dos hospitais mas eram as pitas espanholas, armadas com uma daquelas câmeras digitais que conspurcam a arte da fotografia em filme, a me fotografar anteriormente a dormir e agora em sonoras gargalhadas pelo facto de me terem acordado. o mundo faz pause. pára tudo diz o einstein, o deus da física. nisto sinto um acesso manancial de energia negra a me penetrar por todos os orifícios à excepção do anal (opção literária que não põe em cheque a minha segurança relativamente à minha masculinidade), gerando um tufão atómico dentro do habitáculo do avião. o universo acelera furiosamente em movimento giratório centrado no eixo do meu umbigo ao ponto de me transladar o cerebrelo para a vesícula biliar, como aconteceu ao josé carlos malato à nascença. a mim pede-se me um desenlace agora que estamos no clímax da tragédia espanhola. à moda antiga, sem A nem B, puxo a colatra atrás para aplicar um straight jab no repugnante nariz espanhol da mais próxima de mim. por me acordar. pelo tratado de tordesilhas (comeram-nos bem com áfrica, provou-se nos últimos séculos). pela dinastia filipina. por valença. pelo campeonato da europa. pela furia gay espanhola. pela poluição gay nos rios. pela pronuncia gay. pelo favor ao mundo heterossexual. enfim, não foram suficientes razões. congelo em pleno gesto. um rasgo de discernimento situa-me na vida: neste momento sou já um suspeito de crime na alemanha (por riscar um carro com V's... como se eu fosse escrever V's num carro, de todas as letras). seria demasiado duro para os meus pais em época natalícia lhes explicar que estava referenciado tanto pela polícia alemã como pela espanhola. suspiro e sinto que defraudei as expectativas. tantos efeitos especiais e o caralho e eu armo-me em paneleiro. podem-me enfiar a camera pelo rabo agora comento chistosamente comigo próprio. como resposta o realizador concede-me o deprimente regresso à realidade a elas a se rirem e a segregarem outras emoções jubilosas com interjeições inspiradas, tou convencido, em aves de capoeira. tive vontade de lhes oscular às duas como que servindo de mensageiro da fortuna com que foram abençoadas mas aos dois dias de namoro com a alemã seria inapropriado. aterramos no aeroporto de baratas. estamos em espanha e está sol.

tou vestido a preceito para explorar a antártida e tá sol. que sorte a minha que os casacos não cabem dentro da mala, que já transborda bocados de tecido pelas costuras. há coisas piores: algures nos últimos meses decidi que tinha piada (pessoalmente) se não só fosse o mcgyver do século XXI mas também um energúmeno. para isso arranjei um neologismus que soasse cool e que simulasse que se tratava duma filosofia de vida. sou carefree. muito louco. acéfalo. ainda por cima é nome de marca de pensos higiénicos. mas pelo menos fui coerente e agi consoante a pancada. não tenho telefone nem o número de telefone do João, um supra viajante que trabalha em madrid e que noutra memorável ocasião me serviu de anfitrião, juntamente com uns ex-amigos que tinha, o cabeças, gryn e bruno (tou a brincar bruno). olho para um mapa chegado ao interface do metropolitano no aeroporto. sei que a casa dele se situa a leste (literalmente) do parque del bueno retiro, porque outrora ficamos presos lá dentro do parque à noite com o grau e tivemos que saltar as grades, o gryn tendo rasgado as calças no processo. verifico o nome das zonas à direita do parque. goya e ibiza, o nome dum pseudo artista e o nome duma pseudo party island. decido escolher a que me suscitar memórias musicais primeiro. instantaneamente oiço o som do pop & crack dum vinyl nas minhas costas. olho para trás. tão cerca de 20 funcionários do metro de madrid dispostos em forma de coração. dos altifalantes do metro repercute a voz "próxima estación, eivissa". o preto com ar gay que forma o vértice do coração estala os dedos "e uno e dos e tres". "WOOOOOWW WE'RE GOING TO IBIZA" os funcionários coreografam e do coração passam a formar os contornos geográficos de ibiza num único movimento homossexual e concertado. "WOOOOOOOW BACK TO THE ISLAND". mudam para um copo de martini. "WOOOOOOOW WE'RE GONNA HAVE A PARTY". mar mediterraneo. "WOOOOW IN THE MEDITERRANEAN SEA". a cara do rei juan carlos. e por aí fora. uma performance cintilante em toda a honestidade. convenceram-me.

mas calma ibiza fica em madrid? pensava que era uma ilha no mediterraneo mas também os atlas que lia quando era puto tinham vários erros. não tinham vários países que sei hoje que existem da sic notícias e a russia parecia exageradamente maior. talvez se tenham equivocado com ibiza e esta seja apenas um bairro de madrid. ou entao uma ilha num lago em madrid prai. pago 2 euros para o metro e reparo que, embora asseado, o metro de madrid é provavelmente o mais claustrofóbico com que já tive oportunidade de privar momentos de intimidade transportativa. talvez isso explique porque razão seja o terceiro mais extenso do mundo (se formos a acreditar nos panfletos propagandeantes) atrás de NY e Londres, totalizando 271 Kms de vias férreas subterrâneas. efectivamente pouparam na altura dos tectos e na amplitude dos túneis/estações para que pudessem chegar a mais sítios. astutos, os engenheiros de caminhos e canais. isso trás contrapartidas de variante grau de gravidade, dependendo das nossas convicções políticas. ao chegar a mais sítios e nomeadamente zonas suburbanas de baixo custo habitacional estamos a permitir que cidadãos com menores posses, geralmente imigrantes, usufruam de todo este nobre sistema de transporte. isso pode heterogenizar em demasia o ambiente dentro das carruagens e talvez até retirar algum brilho à excelência tecnológica que patenteiam por todos os poros electro-mecanicos. na realidade, se adormecesse na carruagem e acordasse repentinamente seguramente pensaria, em primeira instância, que me encontrava numa qualquer cidade inca do século XIV (para os menos versados historicamente a cuzco da actualidade serve). curiosamente mudo na estação de colombia. essa sei que não fica em madrid. nao faria sentido anualmente centenas de pessoas tentarem transportar cocaína de avião da colômbia para a península ibérica se a colombia ficasse justamente na península ibérica. há gente para tudo, quero dizer, basta olhar para intelectos como o george bush, jesualdo ferreira ou francisco stromp para perceber que a mente humana é capaz das maiores barbaridades imagináveis mas um povo que inventou a paella ou o opus dei parece-me "francamente" (haha) capaz de mais (é uma fria análise, não é um elogio).

saio então em ibiza e espero ser recebido por uma atmosfera veraneante e aberta sexualmente, com estrangeiras ricas - ou deseperadamente a tentarem no aparentar por 15 dias na vida - a se passearem em bikinis, trikinis e fios dentais enquanto mitras do sul de espanha, com bonés com padrão em xadrez e t-shirts estampadas com o número "69" à frente e a sempre hilariante expressão "de puta madre" atrás, oferecem drogas sintéticas com 2% de pureza em troco de vivas e eternas amizades. tenho pastilha elástica que comprei na alemanha, o que poderá resultar para ludibriar garinas de nacionalidade americana mas pouco mais. tenho também a minha mala que pode servir como arma de arremeso contra britânicas obesas e depravadas. aquelas com glândulas mamárias de 20 kgs cada lado (só deus sabe o que anda lá dentro daquelas sacas, pode ser qualquer coisa, leite, castanhas, petróleo, a maddie... até universos paralelos admito). foi com grande excitação então que emergi do subverso dos transportes públicos da capital de espanha. aliás, depois de uma hora em madrid, já contagiado pela arrogância das suas gentes, para mim já era a capital do mundo. aliás, a única cidade do mundo, a cidade à qual todos os 5 milhões de habitantes do universo chamavam casa. não há música, nem praias, nem estrangeiras de bikini às bolinhas amarelas. em vez disso há uma rua com uma plataforma pedonal com duas filas de árvores no meio e caminhos rodoviários de duas vias de cada lado. há prédios com uma altura média de 6 andares a encerrarem os limites da rua. há o Dia, cinco pastelarias por metro quadrado, uma quantidade brutal de peugeots e 9 em cada 9 indivíduos aparentam ter mais de 65 anos. tiro um momento para pensar: queres ver que ibiza fica em lisboa e eu nunca soube? a prova dos nove: olho para o chão. no chão não existem defectos caninos e a calçada está obssessivamente alinhada perfazendo figuras geométricas perfeitamente regulares. não estamos em lisboa seguramente. vou a um mapa e certifico-me do nome da cidade "ayuntamiento de madrid". já aprendi mais qualquer coisa, sei agora o nome oficial de madrid. ibiza é mesmo um bairro de madrid mas em vez de ser um local de diversão e lazer para as massas juvenis é um complexo para reformados com 5 por 5 quarteirões.

agastado fisica e emocionalmente enceto a minha procura pela residência do João. cruzo-me com uma idosa que se movimentava com o tronco a formar um ângulo constante de 45 graus com o vector normal à terra. sinto pena e compaixão. a minha bioquímica está me a trair. conviver 24 horas por dia, mesmo com os melhores amigos, pode ser um exercício penoso e saturante pelo que preciso duns momentos a sós da minha mala e fecho eclair para reestabelecer o meu habitual patamar emotivo de indiferença ao próximo. necessito urgentemente de encontrar a casa do João e me isolar na casa de banho a me esbofetear ao espelho. faz-te homem rapaz, insisto pessoalmente. se bem me lembro, a partir desta rua onde nos sentamos por uma ocasião a degustar vodka económica com red bull sugar free (finanças e calorias sempre factores determinantes este ano), o kubiko dele é acessível facilmente. tento me orientar pela memória, ignorando o que os meses consecutivos de aniquilação neuronal possam significar para a sua fidelidade, e acabo, na primeira tentativa, à porta do prédio correcto e afirmativo. sei disto por referências. há um hospital ao fundo da rua (foi aliviante notar isso na altura porque ainda tinha resquícios de hipocondria) e um café de ar intimidatório para jovens estudantes desprendidos das convenções sociais da classe média alta para cima. são 11 da manhã e é quinta-feira. elaboro um fluxograma no caderninho cor-de-rosa que ela horas antes me tinha dado quando lhe pedi um bloco para escrever durante a viagem, gerando micro discussão quanto ao facto de eu achar que era um bocado gay. João (initialize) -> vive aqui? (variável = hospital, café | decisão = sim) -> está em casa? (variável = quinta-feira, não é estudante | decisão = 95% probabilidade não. verificar tocando à campainha. se não funcionar contactar) -> sei o número e letra do flat? (variável = neblina mnemésica | decisão = não) -> sei o contacto? (variável = facebook, telefone | decisão = tenho o número dele no facebook. procurar internet café e cabine telefónica.). grato aos ensinamentos de excelência que adquiri no Instituto Superior Técnico (arrepio) em cadeiras como algoritmos e estruturas de dados, consegui me situar e ser capaz de descrever analiticamente o problema e deduzir a sua respectiva solução. formalizei o facto enunciando um novo teorma.

Teorema de Madrid : Dado "entrar em casa do João", sejam "ele tar a trabalhar", "eu não saber o número da porta", "eu não ter telemóvel" e "eu ter o número dele no facebook" pertencentes ao domínio da minha estupidez contido no espírito carefree. "encontrar um internet café" e "encontrar uma cabine telefónica" constituem soluções correlacionadas de "entrar em casa do João". a demonstração é trivial e fica como exercício para casa.

num nível teórico, como é normal, estava em controlo, fruto das minhas supremas capabilidades analíticas. a aplicação interplanar teoria/prática nunca foi, contudo, uma virtude que de dispusesse aos magotes. na realidade, e a título de exemplo, apesar de me considerar particularmente conhecedor da moral e dos bons costumes raramente o consigo demonstrar no lamacento relvado vital onde explano o meu futebol argentino. é como se fosse um miudinho à saida da escola que em vez de ir para casa deu a mão ao hedonismo e ainda hoje tenta resistir timidamente, meio fascinado, meio confuso, à tentação. dito isto não consigo deixar de meter uma bola com a mão quando me apetece, não consigo deixar de fazer uma ou outra rótula saltar a quem merece, e a mim o que os comentadores dizem nem aquece nem arrefece (vai buscar manuel alegre, pensas que és o único que consegue liricizar o mundano futebol?). de volta à terra e descortinada a solução teórica teria obviamente que agir em conformidade com o que o mcgyver do século XXI faria: nada. encaixei-me então num dos degraus da porta de entrada, a inconsolável mala a meu lado, e imagino o João a sair do trabalho lá para as 7, talvez mais tarde, perdendo-me em cenários martirizantes, habilidade que evoco cada vez que preciso de auto-estima. isto porque acabo sempre concluindo que sou um indivíduo áspero e de carácter extremamente forte para poder aguentar torturas deste calibre. cerca de 10 segundos volvidos a porta abre. um indíviduo aparentando ser o cantiflas e com um tempo melódico de fala ainda mais piano que o meu observa que não posso permanecer naquele local porque dificulta a passagem dos inquilinos. meço visualmente a largura da escadaria de entrada e ocupo, numa estimativa dura comigo próprio, um quarto do espaço disponível para tráfego pedonal. percebo o que ele quer dizer, o que me leva de volta ao espelho daquela casa de banho em berlim. é inapropriado estarem ursos à porta daquele distinto complexo habitacional. levanto-me pacientemente como tantas vezes o fiz contra a minha vontade por ser tolerante às crenças, convicções e convenções de todos os outros 6 biliões 999 milhões, 999 mil e 999 seres humanos à face da terra. viro-me, no meu fleumático mais kara davis, e revelo-lhe a razão para o meu posicionamento estratégico nas escadas, se calhar ele até me pode ajudar. o cantiflas é o porteiro daquela merda concerteza saberá em que andar vive o João. ele diz que não vive nenhum João no prédio e que o único estrangeiro que vivia lá era um italiano que tinha bazado nessa semana. seguramente o flatmate do joão concluo e transmito para descrédito do patusco mexicano. trocamos ideias em tom gradualmente mais intenso. noto que não se trata somente dum despique argumentativo mas também, e cada vez mais, dum showdon a ver quem fala mais devagar. ambos sentimo-nos incomodados por partilharmos a mesma particularidade, uma característica que nos distingue da maioria da população. as palavras reverberam-se das nossas cordas vocais a uma velocidade absurdamente baixa e com tendência a piorar. visualizo as ondas sonoras a se propagarem e contorcerem pelo lúgubre hall de entrada em câmera lenta, como que contracenando uma cena de mais uma sequela súperflua do irmãos wachowski. acabamos, catalizados pelo entusiasmo competitivo, a protagonizar uma autêntica conversa entre trissómicos, já totalmente ignorando a génese do argumento. declaro-me unilateralmente o vencedor e ele acedeu mas penso que porque não percebeu o que eu disse. sinto-me mais único que nunca mas continuo com o meu problema inicial.

tamos em madrid, seguramente haverá um internet café ao virar de cada esquina argumento auto-divinamente, de ego inflamado pela minha mais recente vitória competitiva. dobro uma duas três quatro cinco seis mil esquinas e já tou em goya, subindo pela narvaez acima. é meio dia, tou há uma hora à procura dum internet café e não o encontro. só vejo estabelecimentos comerciais a se auto proclamarem bodegas. divago sobre se esta forma de masoquismo comercial funciona. se sim então os consumidores espanhois devem ser sádicos, o que explica as touradas, a monarquia e a ETA. simpatizo com esta forma de marketing, afinal de contas eu próprio tenho os meus acessos de masoquismo ocasionalmente três ou quatro vezes por dia quanto me corto nos tornozelos pra ninguém ver. às vezes vejo jogos do sporting e espero até ao paulo bento falar no flash interview. já fui ao estádio também. o que me trás de volta à necessidade de insultar alguém. apetece-me todo e qualquer transeunte mas é tudo à base de velhadas que ao mínimo sinal de desequilíbrio ambiental entram em combustão espontânea. preciso de luta e não posso matar ninguém por enquanto. (...)