Hall of Fame #27 - yes, he's the love of her life

Pedro diz:
altas fotos ka fraulein conrad tem
NY/LA
a miuda é arte
por todos os poros e gestos
Hugo diz:
ya, um bocado dark
mas eu fazia-a feliz
este namorado novo parece menos nelo
Pedro diz:
yeah
é o gajo perfeito pra ela
todo neo intelectual
um especimen extremamente exclusivo, dos poucos que consegue engolfar nas suas mais diversas manifestações todos os sentimentos, emoções e virtudes/fragilidades da humanidade
espectacular
a foto 80 resume tudo


*foto 80

Announcement - to orientador de tese with love

Caro Professor,

concerteza já tomou conta da minha ausência nestas primeiras reuniões de Setembro. Sem rodeios o que se passou foi que acabei por não cumprir com o percurso académico a que me propus. Isto coloca-me numa situação desonrosa perante vós mas infelizmente como se sabe as vicissitudes da vida precipitam-nos por vezes para estes desvios. Resumidamente recebi uma oferta de trabalho para 1 ano na Alemanha com condições que, nesta altura e contexto, foram irrecusáveis. Assim acabei por me afogar academicamente o semestre passado ao me mudar para Berlim e não conto fazer mais que 5/6 cadeiras este ano, concentrando-me naquelas que não tenham componente laboratorial, já que estou geograficamente impossibilitado de me deslocar à faculdade.

A minha vontade num mundo ideal seria a de manter este tema para a tese, mas suspeito que tanto a nível de timing como de credibilidade as "odds" não estejam a meu favor nesta altura pelo que naturalmente deixarei em vossas mãos o rumo a seguir.

Cumprimentos.

Interlúdio #7 - uma outra música

hoje era uma véspera mas afinal não foi, ficou adiada para daqui a dois dias. tenho sido displicente com o apartamento, como que deixando-o em pause durante estes últimos dias, tentando perpetuá-lo. não a ele que é uma merda, mas às memórias que andam a vagabundear pela casa nestas altas horas, abrindo e fechando portas e fazendo barulhos incomuns nos electrodomésticos. não tenho medo delas, não me assolam. convivemos no mesmo espaço mas levamos vidas independentes e respeitamo-nos mutuamente.

tenho cabelos por toda a secretária, em breve não minha mas da ironia do destino encarnada na sua personagem principal. eles irritam-me, precipitam-me sempre para uma desnaturada observação duma cabeleireira antiga, "acho que ao contrário do teu pai vais ter problemas com a calvície". já percebi, vem da parte da família da minha mãe não é? antes isso que os cancros e as mortes durante o sono, poderia dizer, para chocar e arrumar a conversa. os livros estão jogados pelo chão, assim fechados lembretes em vários contornos da minha construção lisboeta: incessante, errática, emocional. li poucos até ao fim, guardo-me para a monotonia da velhice. parece-me que a maioria das pessoas guarda dinheiro para a velhice, eu guardo livros, só preciso disso e da minha memória nos tempos mortos em que espero pela visita dos meus netos e a sua alegria contaminante. as viagens faço agora, enquanto posso usar livremente o maior instrumento que tenho, o meu corpo. até aos meus netos preciso de guardar os livros em espaços de esquecimento, tipo garagens ou dispensas. dentro duma caixa emprestada pelo Sr. Luís da mercearia, com a minha velhice. até lá não os quero ver mais, aos livros de Lisboa. uma gaveta com coisas: o 2-2 entre benfica e duarte gomes no antigo estádio da luz em 2001 - o último derby da catedral, o isle of MTV em belém com morcheeba e roger sanchez, a inauguração da nova catedral frente ao nacional montevideu, as finais da taça no jamor, o carl cox no pachá de ofir, as cartas de amor, todos os preciosos bookmarks de saudosismo que de forma habitual me convencem de que tem sido um percurso bonito e preenchido, mesmo durante períodos em que me deixei encegueirar pela ideia contrária. por indução imagino o mesmo para situações futuras. sucessivamente vou aprendendo por indução até que não me deixo mais envolver por ideias fatalistas e existenciais, independentemente do momento e situação. deslizo sobre a vida, sempre à tona de água, indiferente à minha condição humana. até ter que reabrir a caixa com os livros, isto é.

há pouco saí à procura de qualquer coisa, 2 euros no bolso e a convicção de que a iria encontrar, fosse o que fosse. acho que tinha sede, mas tenho a certeza de que não tinha fome. virei à direita e desci a rua. o mendes fechado. o que será que lhe aconteceu? uma vítima da irrascibilidade do tempo, sempre louco a caminhar numa direcção, e o resto que se foda. foi o mendes que teve que ir ao ar desta vez, por alguma razão. adivinhava-se. o ar resmungão não disfarçava as dificuldades, talvez financeiras. faz sentido, é a crise não é? os mercados entraram em colapso embora só se pudesse ver pela televisão nos telejornais. há umas cenas chamadas acções que flutuam de acordo com o princípio da oferta e da procura e que ditam se a vida corre mal ou bem aos seus próprios criadores. tomaram vida, essas acções, e agora insurgiram-se contra nós. é preciso controlá-las, senão ficamos todos pobres e elas levam o dinheiro todo para casa, pra comprarem bancos e seguradoras assim a pronto. (anda uma memória louca para entrar na cozinha, mas agora não pode ser). por momentos tive convencido que queria beber uma coca-cola no mcdonald's. já não me lembro se coca-cola ou mcflurry de M&Ms. sei que não queria de certeza um wrap, não tinha fome. agarro os 2 euros dentro do meu bolso e faço a ronda ao quarteirão. não preciso de nada, tou satisfeito fisiologicamente. vim dar um passeio com a minha namorada mas ela esqueceu-se de vir, ela que gosta tanto dos mcflurrys antes de ir para a cama. (esta memória lá na cozinha já me começa a assustar, eu que normalmente não me deixo assustar). vou para casa então.

uma janela aberta num 2º andar da rua da ilha terceira derrama luz sobre a lancinante apatia local, cortinas entregues ao vento veranista. hesito em ignorar o unívoco chamamento do espírito do bairro das ilhas. indelével mas enfraquecido, quase moribundo, com funeral já marcado nos calendários dos que o conheceram. respondo com o assobio, que serve para tudo, para a praia, para a noite, para a bola. já não me ouve, é normal, pas grave. aproximo-me para lhe lançar um último olhar, àquela janela num 2º andar da rua da ilha terceira; a personificação duma era, quando a vi, ainda no cruzamento; o símbolo da sua morte, ao perto, depois de me aproximar e perceber que agora estava vazia de alma.

vou para Berlim em êxtase emocional. não só porque aventuro-me no amor mas porque cumpro com aquilo que sempre prometi a mim próprio: seguir os ímpetos de felicidade e motivação, independentemente de se traçarem por caminhos menos percorridos. depois de 8 anos, e esgotadas virtualmente todas as experiências cá, só haveria um sentido de felicidade, Berlim é apenas uma direcção.

dito isto deixo Lisboa angustiado e rancoroso com o tempo. queria viver tudo outra vez, sem as partes más é claro, mas que aprendesse o que aprendi na mesma. não me é possível acreditar na forma como fui tratado por aqueles de quem me tornei próximo em Lisboa. imagino sempre ou que esteja a desvirtuar a minha memória num sentido artificalmente positivo ou que isto seja mesmo um campos show em que triliões de assinantes de redes quânticas de TV à volta da via láctea rejubilam ou choram com a minha vida, decidindo a cada início de semana o que me vai acontecer através de mega votações telepáticas. um universo benevolente este, nesse caso. de qualquer forma não consigo encontrar outra explicação para a sorte que tive em conhecer as pessoas que conheci, brilhantes cada uma à sua maneira, e tremendamente inspiradoras, até para um ser 0 kelvin como eu.

gostaria de me separar em dois. um pedro em repeat em Lisboa e outro em shuffle, à volta do mundo. um ipedro, portanto. mas se for para escolher, que se mude a música a cada 6 meses. é uma necessidade pessoal.

new york nicks #9 - honestidade académica

AV - e termodinamica tbem ja ta feita (quase de certeza)

16 Janeiro 2009, Berlin (east side story)

A Introdução

a 10 de janeiro do ano corrente, o fruto da minha adoração parte da maior obra de engenharia jamais realizada por portugueses, uma robusta estrutura com 2,7 km de extensão suportada por dúzias de pilares feitos à base de betão e moçambicanos com mais de 50 metros (de altura, os pilares). trata-se dum domingo à tarde e cedo vejo me remetido à minha inexistência enquanto indivíduo. uma vez na altura em que era convencionado que eu tinha desalinhamentos psíquicos fui obrigado a me confessar a uma doutora, que me sugeriu outra, que me sugeriu outro, cada um mais literado sobre menos coisas que o anterior. numa sessão de esclarecimento acerca de mim próprio a 2ª mais literada sobre menos coisas decidiu soltar pró ar naquele jeito de monge budista procura-a-verdade-em-ti-jovem-aprendiz o que me pareceu uma mistura de um peido com um murmúrio qualquer. quando a instei a repetir o que disse, ela corou e após limpar a garganta com um conhaque da beira alta retorqiu num tom leve sou-tipo-a-voz-da-tua-consciência mas retoricamente confiante "saberás estar contigo próprio?". após exterminar 50 euros pra ouvir a reencarnação feminina portuguesa do siddharta decidi ir a pé para casa, do saldanha a telheiras, para me encontrar a mim mesmo e porque tinha ataques de pânico se me metesse no metro porque podia ter um ataque cardíaco e só tinha 5 a 10 minutos depois de desmaiado até que se começassem a suicidar pequenas células cerebrais em massa, desesperadas pela crise no fornecimento de oxigénio. fui o caminho todo a matutar, como é hábito, sobre as operações aritméticas possíveis nas matrículas dos carros e as suas possíveis relações com as letras até que, precisamente em frente à torre do tombo, começaram a reverberar com urgência crescente as sábias palavras da engenheira da psique. subitamente entendo agora o que ela queria dizer... na verdade tava eu ali comigo mesmo e nem me ligava meia, sempre preocupado a fazer contas ou a ler letreiros e a tentar reproduzi-los noutras línguas, nem um único esforço no sentido de encetar uma conversa comigo próprio, como se eu não existisse. ela tinha efectivamente razão, eu não sabia estar comigo próprio e, para dizer a verdade, eu até sabia porquê: estava auto amuado desde setembro de 1994, quando relutantemente aceitei voltar com o meu pai para portugal naquele infame lockheed tristar 500 vindo de NY. desde aí entrei em confronto com a minha existência e tornei-me inexistente, para minha própria protecção, limitando-me a flutuar sobre espaços à medida que o tempo passa, até voltar a NY e me perdoar a mim mesmo 20 anos depois. à semelhança dos alemães e a WW2. por causa disto, sempre que sozinho estou em contacto com algum objecto inanimado, capaz de me suscitar distracção durante o tempo que for necessário até alguém me contactar por sua própria iniciativa outra vez, normalmente 2 a 3 meses depois. não sei por exemplo estar a me bronzear ao sol calado, não sei me sentar relaxado a ler um livro com as pernas esticadas num sofá favorito e não sei circular em conversas rotineiras sem que me precipitem para o idle cerebral e deixe de reconhecer que estou em interacção com outro ser humano. normalmente, quando isto acontece, entro em pânico de aborrecimento e relembro-me da minha inexistência e então fujo, invento qualquer coisa, frequentemente vou à casa de banho (às vezes, dependendo da companhia, vou mais de 20 vezes à do lux), digo que tenho que estudar ou uma merda assim, isto pra voltar a um objecto inanimado que me distraia.

nessa noite, tinha deixado o meu objecto inanimado predilecto, o meu primo rodrigo, no carro do meu tio e tive que me contentar com o segundo, um arcaico ábaco eléctrónico da intel ligado a um monitor de 19 polegadas que os meus progenitores têm lá em casa disposto de forma geometricamente perfeita num mesa wengué perpetua e imaculadadamente limpa. sentado nesse tipo de ambiente de geometria sagrada só rivalizado pela câmara principal da pirâmide de keops começei a sentir uma multitude de acessos emocionais características a seres humanos. temi pela minha saúde e pedi 4 zolofts emprestados à minha mãe como quem pede cigarros, para voltar ao estado emocional fundamental. mas em vão, a verdade é que pela primeira vez em 10 anos sentia verdadeiramente a falta de alguém.

a 10 de janeiro de 1916 ter-lhe-ia escrito uma carta do lado oposto da grande guerra, a 3400 km de distância, eu entente, ela dos poderes centrais, a combinar para nos encontrarmos a cavalo a meio caminho, em andorra, a tempo de apanhar as viagens de finalistas lá em março. esperaria 1 mês pela resposta ao mesmo tempo que acordaria todos os dias às 4 da manhã para ir a pé do Funchal à Calheta por tortuosas levadas para trabalhar no engenho de mel de cana, o "ouro branco", nessa altura já em franco declínio comercial. acumularia riquezas na ordem dos 3 ou 4 contos de real para comprar um pónei, por ser mais barato, e uma canoa, e partia ainda mais destemido que o gonçalves zarco e os seus capangas no sentido inverso da sua gloriosa jornada, à descoberta de sagres, e depois montava o pónei ao longo das praias algarvias e planícies andaluzas até granada e vendia-o lá por 8 contos, que para eles era tuta e meia, e comprava a alhambra para ela e uma prancha de snowboard da solomon pra ir dando voltas à serra nevada até ter notícias do paradeiro dela (dizia-lhe na carta original pra ela me mandar resposta para granada). se não obtivesse resposta até novembro de 1918 assumiria que se tinha apaixonado por um otomano emigrado em berlim ou que tinha se voluntariado para a linha da frente nas margens do marne e partiria a prancha de snowboard contra a alhambra antes de correr até versalhes e organizar, num rasgo de lucidez altruista que só o fim das relações conseguem me incutir, uma manifestação anacrónica contra o tratado que 21 anos depois seria indirectamente responsável pela morte de milhões de seres humanos, e judeus.

infelizmente, no entanto, estando a 10 de janeiro de 2009, a história foi menos interessante. telefonei-lhe do meu telefone móvel e falei com ela em tempo real à tal distância de 3400 km; perguntei-lhe se ia a londres visitar o pai no futuro próximo, por precaução; troquei lamechices próprias dum gajo que pauta a sua conduta pelo que viu os outros fazerem na televisão e na escola; desliguei e perguntei a um amigo numa cena que dá pra trocar mensagens escritas com outros em tempo real também se me podia emprestar 110 euros para ir a berlim prá semana porque a minha merda que dá pra pagar coisas enquanto sentado numa cadeira em casa a olhar para um monitor tava avariada. ele acedeu, pressionei o meu dedo uma dúzia de vezes contra um botão, dactilografei um bocado e em 10 minutos soube que se me apresentasse num lugar pré-definido com identificação pessoal daí a 6 dias, era possível que me transportassem para a capital da tríplice aliança, se não me fosse emitido um mandato de busca pela interpol até lá nem me apresentasse visivelmente embriagado.

durante estes 6 dias penitenciei-me de saudade e aborrecimento. lembrei-me várias vezes do d'este viver neste papel aqui descripto do lobo antuntes, e de certa forma, de todos os outros 56.999 combatentes do ultramar e de como tudo era mais fácil para eles. todos os dias diferentes, sempre em movimento físico e mental, sempre em contacto com novos estímulos aos sentidos e sempre em acesos convívios interculturais com os locais. basicamente um interrail em africa pago pelo estado português e eu aqui sem nada pra fazer, a viver, cheirar e degustar sentidos vulgares e facilmente acessíveis, farto dos chatos queijos camembert, a arrogante água evian, ou o espanhol presunto pata negra bolota, tudo à distância duma passada. eles lá em períodos semestrais ou anuais com as assanhadas e quentes africanas e eu cá com a minha mãe e irmã que já conheço de cor há 26 e 24 anos respectivamente.

e então morosamente lá chegou o meu dia de partida e do eterno paradoxo de arrependimento em não ter dado mais atenção aos cães, de não ter visitado a minha madrinha ou não ter explodido com a sede do nacional, na rua adjacente à praça colombo (para os interessados). nunca tenho paciência para dar iniciativa aos dois primeiros - apesar de gostar sempre e ficar agradado comigo mesmo quando os faço, particularmente quando a minha madrinha me paga 50 euros pela visita, menos quando o zeca me encharca em baba de boxer, de resto ultra medicinal parece-me, mas com um aroma notavelmente próximo àquilo que eu consideraria ser o sémen do spot, podre por causa alimentação monótona baseada em eukanuba de fígado de vaca. já relativamente ao último trata-se duma questão logística, o mercado da nitroglicerina é, ainda hoje, de complicado acesso. uma vez encomendei pelo ebay 2 kg desse negócio da serra leoa mas na semana seguinte as autoridades leonenses contactaram-me a informar que neste momento e durante os próximos tempos o stock estava esgotado porque tava a ser tudo canalizado para a frente revolucionária unida, o grupo rebelde que eles comandam e suportam para dar ilusão de que o governo luta contra uma tentativa de golpe de estado e justificar xixi e cócó. foi o mais perto que tive de levar a cabo uma acção que enaltece a seriedade e bons costumes do povo madeirense.

a hora chegou e fui me embora despedindo-me de todos e todas. hoje em dia as despedidas na minha família já não têm o valor cinematográfico que tinham há uns anos, na minha opinião. perdeu-se o drama induzido pela minha mãe de quem não sabia se jamais me voltaria a ver durante todo o curso da vida, apesar de se saber a localização exacta de cada parte e haverem terminais móveis para comunicação remota, para se substituir por um rotineiro semi-mecânico abraço de até breve de 2 meses em média seguido por uma alarmante mas genérica alusão à hora e uma possível perda do vôo. desta vez, apesar da minha precisão natural para chegar no último minuto ao balcão de check-in, cheguei 1 minuto do lado errado do tempo mas o gajo que tava no check-in era madeirense, um ser que, para além das quadradas objectividades regulamentares é capaz de perceber porque é que são estabelecidas e usar o bom senso para articular um número baseado numa regra rígida com a sua razoabilidade na aplicação, um pouco como os polícias deveriam fazer, se possuissem cérebro. mas também tavamos no aeroporto da madeira, no o'hare em chicago talvez não fosse recomendável se armar em ser humano.

e lá parti eu da ilha, ao levantar vôo descobri que desta vez pintada em tons diferentes relativamente às outras 173 vezes que parti da ilha, mais vivos, mais alegres, o mar mais azul e benigno, o ilheu da ponta de são lourenço um símbolo de independência e solidez e não de isolamento, machico razoavelmente não tão asqueroso (também porque não se viam os habitantes daquela altura) e as nuvens todas em forma de alemanha reunificada. isto levou a que tivesse uma viagem pensativa, revolvendo em torno da viragem do tempo e da natureza predominantemente imprevisível das coisas. materializei esta divagação sobre a forma duma curiosa e abstracta projecção mental do descubra as diferenças na minha vida, culminando e terminando a fantasia na altura em que me lembrei de fazer o antes e depois do meu percurso académico e voltei ao meu assento tamanho criança/anão a bordo daquele airbus a319 da easyjet com 127 assentos tamanho criança/anão. tive a tentação e o tempo suficiente em idle para suspeitar da legitimidade do meu rumo enquanto homem mas rapidamente afastei ideias loucas de estudar. o que queria neste momento era ir para a alemanha ficar todo o dia deitado na cama a comer bratwursts e donner kebabs a ver o flavour flav ou o next na mtv enquanto ela ia à escola até às 3 da tarde e entretanto ficava de noite e eu ficava deprimido até ela voltar com uma garrafa de vinho dornfelder ou martini bianco. o que resolvia tudo e fechava o ciclo diário associado ao meu ritmo circadiano.

A Escala em Lisboa

com isto tudo nem tive tempo de equacionar do que é que me teria esquecido na madeira desta vez e só ao simular que ia tirar a chave de casa da mala, já em lisboa, ao chegar à porta do meu prédio, é que percebi o sucedido. felizmente, tratando-se dum acontecimento recorrente já tinha o procedimento de emergência automatizado e só tive que dar umas dezenas de passos e tocar à campainha do pronto socorro ruben para me albergar durante umas horas até recuperar a minha ligação à capital da alemanha, de manhã. ofereceu-me a noite em sua casa a troco de 25 euros, o melhor preço de todos os meus amigos. feliz por ter um sofá em miniatura onde dormir adormeci à base de valdispert sonhando a noite toda que era uma raíz de valeriana gigante e que tentava obstinadamente destruir os laboratórios da pfizer nos states por causa da zoloft, essa puta de plástico mais popular do que eu.

acordo solidário com a minha sujeita de sonho e viro-me para a cientologia como única resposta, não tomo medicamentos sintéticos de agora em diante porque só são um mero instrumento de manipulação mental por parte de grupos lobbyistas da indústria farmacêutica. a dianética diz que só posso tomar medicamentos sintéticos produzidos pela igreja da cientologia e só os tethans de 5ª grau pra cima podem administrá-los senão xenu vai fazer explodir outra vez o dispositivo nuclear de 500 megatoneladas no supervulcão subterrâneo de yellowstone park e dividir o continente norte americano a meio criando sucessivas quedas de água maiores que as cataratas de angel na venezuela por toda a racha à medida que a fractura tectónica vai enchendo com maçicas correntes de água do ártico e do golfo do méxico, até estas se encontrarem a meio caminho no midwest americano em kansas city praí e embaterem uma na outra e criarem um repuxo gigantesco maior que o de oeiras e a teresa zambujo ficar fodida porque lhe plagiaram mas pra melhor, como os alemães fazem tecnologicamente ao japão.

chego outra vez last minute às 11:15 da manhã ao check-in apenas munido do meu passaporte camufladamente desligado da capa, proeza alcançada à base de vodka red bull e uma máquina de lavar a 13 de agosto de 2008 em novalja e que conseguiu misteriosamente apagar só e apenas o carimbo do homeland security department dos states, levando me a concluir que, ao contrário do que seria de esperar, a tinta produzida na fronteira entre a sérvia e a macedónia é mais forte do que aquela produzida em NY. como sempre, e recorrentemente curioso, o ar de surpresa do/a operador(a) de check-in logo de início ao verificar o estado do meu passaporte e o consequente lançamento dum olhar de leniente compaixão burocrática como se eu lhes ficasse a dever qualquer coisa a partir daquele momento e para todo o sempre. as pessoas, e também os operadores de check-in, não deixam passar incólume a possibilidade de se se certificarem que sabemos que fizeram alguma coisa por nós, um prenúncio discutível de que na realidade o fazem primordialmente por reconhecimento.

vou prá habitual gate 13, recordando-me da mítica homónima do estádio toumba, em salónica, e a fonte de inspiração para o cântico de eleição dos rapazes sem nome esta época. sento-me à espera do gongo para o nostálgico processo de formar duas filas easyjet A e B. vou sempre a correr invariavelmente para a fila B porque gosto sempre de ir à janela, pra ir identificando figuras geométricas macónicas no alinhamento das ruas nas cidades e também na esperança de avistar um daqueles ovnis que desde os 8 anos procuro nas janelas dos aviões e das minhas casas à noite pra entrar em contacto telepático com eles e me esclarecerem duma vez por todas se realmente zeta reticulii é roxa porque conheço uma pessoa que ia adorar aquilo então e gostava que lhe raptassem pra sempre, se possível. ao meu lado encontra-se uma viajante seguramente experimentada. possui dreadlocks(atenção que se disseres rastas vens da babylon) e tresanda a cabelo não lavado. complementa a sua evidente falta dum homem com uma backpack de dimensões aproximadas a um, se bem que de pequno porte, e aposto que mete a lata de desodorizante num sítio qualquer estratégico, em jeito de emulação genital. por causa do gesto técnico de se deitar em cima dos bancos ao invés de se sentar civilizadamente apenas num deles ou se deitar altruisticamente no chão, impossibilita que 2 outras pessoas se possam sentar. assisto a todo o processo de sucessivos futuros colegas de vôo a se indecidirem sobre o curso de acção a tomar, numa calma e serenidade próprias de quem só estava ali de passagem e cuja alma já se encontrava 4 horas à frente do corpo. nem o facto de ela não saber de nada e tudo isto constituir a primeira surpresa romântica que faço na minha vida me causava grande desequilíbrio emocional. estava num estado de paciência extrema, um modo de actuação que descobri que se activa automaticamente cada vez que tenho que embarcar em viagens técnica ou psicologicamente morosas e que refinei ao longo dos últimos dois anos em comboios, aviões e barcos por todo o mundo conhecido.

por entre os habituais personagens cinzentos dos aeroportos que por ali deambulavam, um portentoso humanoide de cabelo rapado louro e aspecto ríspido, a aparentar os seus 30 e pouco anos, surge e começa a inspeccionar a criatura a meu lado. começa a murmuriar qualquer coisa numa língua do leste europeu a um ser fisicamente diametralmente oposto a ele, com os seus 60 anos, e acaba a olhar pra mim. percebendo a sua linguagem corporal conclui que tinha tentado uma piada e sorri, com medo de represálias. nunca imaginei eu que tinha dado início a um relacionamento de profunda intimidade espiritual, originado ali, naquele momento singular de empatia emocional, e reforçado no curso das 3 horas e meia de vôo até berlim, nas quais contava desesperadamente dormir. o rambo do leste europeu, inspirado no meu sorriso, e erróneamente sentindo um mínimo nicho de abertura da minha parte para estabelecimento de relações interpessoais, vem na minha direcção e inquire no mais efusivo entusiasmo: "where are you from?". ele tinha encontrado um amigo.

hesitei em lhe responder um qualquer país anónimo do leste europeu como a hungria, mas qualquer um que não o dele serviria, para não ter que inventar uma história de emigração ou de abandono como justificação para não falar a língua, mas havia qualquer coisa nos olhos dele que justificavam um estender de mão. ignorando a bateria de perguntas e comentários sobre o meu país que a verdade adivinhava, todas elas respondidas na ordem das yotta vezes na minha antiguidade e história recente - uma chaga inevitável do diluimento de culturas por efeito de globalização - respondo-lhe resignado: "Portugal..."

era a reposta que ele ansiava: um rapaz local, relativamente novo e aparentemente relaxado com quem poderia partilhar todas as histórias imaginárias que vivera em portugal na semana anterior. nesta altura já me tinha apercebido naturalmente que tinha encontrado um amigo para as próximas 4 horas e provavelmente para a vida, a minha única dúvida prendia-se nesta altura apenas com o centro de massa da conversa que teria que alimentar, se em gajas ou se em pasteis de belém, fado e castelos/palácios.

ele contra-responde como se fosse a última nacionalidade que ele esperasse encontrar no aeroporto de Lisboa "PORTUGAL?! WOW YES I HERE FOR ONE WEEK, VERY GOOD, NICE GIRLS HAHAHAHAHAHA". desata numa incompreensível gargalhada histérica, totalmente desadequada tanto ao seu calibre físico como ao facto de provir dum ser humano. a minha dúvida estava esclarecida, dentro em breve discutiriamos como as polacas e portuguesas, apesar de diferentes, são as melhores gajas do mundo, de como perdi uma namorada portuguesa por causa duma gaja polaca, de como ele apanhou-se com 2 brasileiras na praia de carcavelos (*sigh*) na madrugada anterior e penetrou ambas (não chegou a dizer mas acredito que talvez em simultâneo até) ali mesmo, à homem. de como o colega de 60 anos dele apaixonou-se por uma outra brasileira de 18 anos que encontraram com as outras duas no centro de lisboa (xD) e portanto levou-a para o quarto de hotel para uma doce noite de paixão em vez de optar pelo sujo e crú sex on the beach. enfim, de todas as sub-ramificações destas conversas que um jovem de 12 anos a atinigir a puberdade conseguiria imaginar. isto tudo como hours d'oeuvre para a viagem propriamente dita e o consequente aprofundar da nossa relação.

imediatamente após divagar sobre a promiscuidade das portuguesas, que segundo ele, é maior que a das polacas (aliás ele teve com 3 portuguesas durante a semana, para além das duas brasileiras), puxa o travão de mão e faz uma curva de 90 graus à direita em slide, entra na recta do pessoal: "why you go to german?". após concordar em enaltecer bipartidamente portuguesas e polacas como classes femininas superiores não sabia como lhe explicar que ia visitar a minha namorada alemã.

nos cerca de 5 segundos desconfortáveis que se geraram a seguir à pergunta, uma pletora de condicionantes foram-se agregando à minha resposta, desde o desconforto histórico que 1939 poderia criar, à possibilidade dele me agredir violenta e descontroladamente por lhe ter desiludido enquanto amigo de vida, tendo previamente sido falso quanto a preferir tugas e polacas, declarações que lhe tinham na altura aquecido o coração, estou certo. de qualquer forma, se esta amizade era para continuar, ter-lhe-ia que ser franco e o momento era agora, ou nunca: "...ah yes, i have a german girlfriend...". a mutação na expressão dos seus olhos foi semelhante àquela dum miúdo que pede uma playstation 3 no natal e, ao abrir o presente, vê-se com um arcaico e obsoleto subbuteo nas mãos. claramente magoado mas demasiado boa pessoa para não tentar escondê-lo, tenta disfarçar com manobras retóricas: "GERMAN??! NO GERMAN GIRLS SHIT!! GOOD LOOKING GUY LIKE YOU MUST HAVE POLISH GIRL! POLISH GIRLS BEST YES? BLONDE [enquanto gesticulava um cabelo frisado louro, o que até lhe assentava bem, na minha imaginação], BLUE EYES, VERY GOOD! YES?!". sabia que resposta lhe dar mas tava a me questionar sobre o tempo que se pouparia em conversas do género se se usasse o inglês económico dele. "heheheh yes, yes, polish girls very good but this german girl is nice too, different from the other german girls because she's half english and half australian". relativamente mentira, mas para o contexto servia. "AHHH YES ENGLISH GIRLS BIG BOOB HAHHAHAAH", acompanhado do semi previsível gesto, não fosse ele desenhar duas esferas do tamanho de bolas de futebol no ar em frente ao seu peito e optar por deitar a língua de fora e simular a auto estimulação dos mamilos que, segundo ele, revelou-me mais tarde, as inglesas fazem no banho e é causa directa no crescimento extra no tamanho dos seios.

"do you have picture of girlfriend?". felizmente não tinha, senão não iria conseguir mentir e embora esteja mais do que satisfeito com as medidas da minha girlfriend estou certo que, baseado nas expectativas astronómicas dele em relação às boobs das inglesas, viria como um segundo momento de desilusão. talvez este inultrapassável, condenando de forma irreversível a nossa promisora relação.

somos chamados para formar as filas A e B, e num canto da minha alma residia uma esperança ínfima de que ele se iria limitar a ir com o amigo de 60 anos para dentro do avião. rapidamente percebi que era mais provável o dias da cunha construir uma frase com nexo. enquanto a paradigmática mulher deprimida e mal disposta - cuja ocupação passa por rasgar bilhetes pelo picotado e ostentar sorrisos cínicios cor de laranja da easyjet enquanto aguarda toda e qualquer oportunidade de atacar o ignorante viajante casual e posteriormente partilhar com os seus semelhantes mais um conto sobre a ignobilidade do exército dos que não fazem da sua vida o cumprimento de protocolos aeroportuários - anunciava a complexa tarefa de dispor cerca de 150 cabeças de gado com vontade própria e o que se pode chamar, no pior dos casos, uma remota capacidade de raciocínio em duas filas principais e outra prioritária para quem pagou mais 12 euros e para deficientes (passe a redundância), ele já me estava a dar sinais de que caminho a tomar: "[por entre o irritante ecoar no corredor da estéril voz da robô anunciante]MY FRIEND I DONT LIKE, HE BORING HAHAHAHA AND OLD! HAHAHAHA! YOU WANT COME WITH ME? IN PLANE?".

conformado com o meu destino solto um "yeah yeah... ok", já nesta fase triturado psicologicamente. as possibilidades de dormir durante o vôo desvaneciam-se a cada chilrear daquela ave rara mas ainda punha a hipótese de ele se estar só a referir a ENTRAR dentro do avião com ele, dúvida que ficou no ar pela sua particular falta de articulação no discurso em inglês.

proseguimos em conjunto para a fila, eu admitidamente despreocupado com seja o que fosse que os outros 148 passageiros do vôo fossem conceber acerca da minha relação com esta máquina de guerra infantil que não sabia se expressar doutra forma que não no limiar da explosão dos tímpanos dos seus ouvintes voluntários e involuntários que se encontrassem num raio de 2 km. era como se estivesse a discursar para uma audiência de 1 milhão de inválidos auditivos, sem microfone. era como se estivessemos no meio dos bosques da pomerânia ocidental a resistir ao avanço alemão durante a 2ª guerra mundial, gritando palavras de ordem que tivessem que ver com as nossas vidas privadas, com todos os outros membros do batalhão a escutar atenta e perplexamente. e num avião de lisboa para berlim eis que o meu novo amigo descobre uma conhecida polaca, na posição de fila imediatamente contígua à nossa, à frente. equacionei-me sobre a oportunidade de negócio que constituia a aparente falta duma ligação aérea entre ambos os países mas a reacção da jovem em questão à jovial e alegre solicitação em polaco do meu amigo catalisou-me as atenções para a linguagem corporal de ambos. ela claramente não o conhecia, ou então não se lembrava dele. ele parecia lhe explicar a situação em que se conheceram, numa espécie de retórica emocional enquanto ela aparentava preferir não ceder a embarcar, ao contrário de mim, no fantástico mundo da fantasia em que ele vivia, talvez já ciente, à priori, do que significaria em termos de danos psiquícos, num futuro próximo.

finalmente, após 2 ou 3 minutos de troca de grunhidos melódicos que pareciam seguir, grosso modo, um padrão linguístico (não vejo outra forma de classificar a língua polaca), ela desistiu e relutantemente aceitou que o conhecia de algum lado, a interjeição e a linguagem corporal para esta concessão sendo aparentemente universal.
ele vira-se para mim e explica que a conheçeu algures em belém, durante a sua estadia em lisboa, e estava completamente obliterado pela espantosa coincidência de a encontrar outra vez no aeroporto. águas tantas, começei a admitir a possibilidade de se tratar não dum polaco mas dum extraterrestre disfarçado de polaco - uma escolha de nacionalidade inócua claramente intencional, para passar despercebido na terra -, numa alegria ingénua partindo à descoberta dos habitantes deste planeta, rejubilando com toda e qualquer vicissitude que gravitasse em torno da condição humana.

o tempo, esse, não parava, e como tal a ordem cronológica de prioridade de embarque cumpria-se ritualmente. eu, mais uma vez parte integrante desse ritual, invariavelmente no mesmo papel de triste e renegado membro da fila B, observava, ao som do polaco, um misto de casais de meia idade com carrinhos de bébé a comunicar com ar enfadado em alemão e grupos de jovens portugueses de topo modal, pertencentes a subculturas urbanas vanguardistas, peregrinando orgulhosamente em direcção aos bairros berlinenses de kreuzberg e prenzlauer berg, a meca e medina do pseudo alternativismo de aparência e costumes, paradoxalmente caracterizadamente ocidental.

estava totalemente deslocado, como sempre, mas em breve encontrar-me-ia outra vez, e o melhor de tudo é que ela não fazia ideia de nada. na noite anterior inteligentemente sugeri que ela comprasse uma webcam para nos podermos ver pela net, procedendo a satirizar que tava contente que nos iamos ver no dia seguinte antes de artificialmente pôr a hipótese, em jeito de suposta imaginação, de nos vermos realmente em carne e osso. marcamos para as 4 horas da tarde, GMT +1, no messenger, um fait divers que usei para garantir que ela se encontrasse em casa a essa hora.

passamos pela operadora da gate que previamente me tinha suscitado asco esterotipado e concedo uma última chance à classe que ela representa só para poder escrever um parágrafo totalmente desperdiçado neste texto. entramos no avião ambos num clima de excitação, por razões diferentes. o amigo dele senta-se a meio do avião enquanto me fita de forma estranha e ameaçadora, eu prossigo até ao fundo do avião, estatisticamente a zona de maior índice de sobrevivência em caso de desastre aéreo, e sento-me à janela. ele parece ter ficado com o amigo mas subitamente continua na direcção da minha fila, após trocar algumas palavras com o amigo enquanto apontando para mim, o amigo aparentemente desiludido com ele. vem sorridente na minha direcção, o nosso companheirismo de viagem agora um dado adquirido. solicita-me de pronto "can i go in window?". desarmado, como fosse tão irrecusável quanto negar um rebuçado a uma criança de 5 anos, levanto-me e vou para a coxia. uma viagem surreal e interminável estava prestes a começar, iamos aterrar em berlim isso era certo, mas não deixava de sentir que de resto era destination unknown.

A Viagem (esta parte é chata)

para ele, contudo, o nosso destino estava traçado. na sua mente tinhamos construído já um rapport que nos punha no patamar de melhores amigos. talvez por isso tenha ficado a saber, sem que para isso tivesse apresentado vontade, que o meu novo amigo era um rapaz de 45 anos polaco que tinha como ocupação ser guarda-costas de figuras de estado na polónia. o seu nome era Jaroslav mas eu, sendo seu amigo, podia lhe tratar por Jarek. em pleno vôo não hesitou em ligar o telemóvel para me mostrar fotos com o papa joão paulo II, com o michael jackson quando actuou em varsóvia e um video particularmente interessante dele a proteger o papa no meio da multidão numa visita à polónia há uns anos atrás. era divorciado e vivia sozinho com o tio numa cidade pequena no meio da polónia. viajava com o seu amigo de 60 anos a cada 2 meses e planeava as viagens com 6 meses de antecedência. depois de lisboa ia a bari e a sevilha (2 e 4 meses depois respectivamente). enfim, providenciou-me uma multitude de informações e factos acerca da sua vida que de nada serviram para construir uma base racional para o seu comportamento.

a determinada altura, e introduções consumadas, tentei me certificar que ele percebia que eu estava, de facto, com os olhos fechados, a tentar dormir. em vão, naturalmente: a cada 2 microsegundos, sempre sensivelmente 1 microsegundo já depois de entrar em REM, era me solicitada a atenção com uma pergunta sobre um qualquer tema que lhe ocorresse na altura. evidentemente, mais cedo ou mais tarde iriamos passar para o campo pessoal, terreno que piso com à vontade em qualquer ocasião exceptuando quando estou à beira do colapso físico. a perseverança dele era verdadeiramente fora do comum. de nada valiam os meus esforços para tornar as respostas desinteressantes ou ocas, o homem era uma fonte interminável de criatividade inquisitiva e eu apercebi-me que nada havia a fazer senão ir aos lavabos, lavar a cara e me manter acordado, evitando assim os consecutivos sustos próprios de quem vê o seu princípio de sono sistematicamente interrompido por uma violenta sucessão de perguntas gratuitas.

em boa altura o fiz, foi a melhor maneira de me preparar para a carga emocional que me afrontaria. voando já sobre terreno francês, dá-se a abertura da sessão de psicanálise. emocionalmente inspirado pelas minhas renovadas reacções pacientes de abertura para uma conversa, inclusivamente emulando ocasionalmente emoções positivas, parte para a troca de galhardetes: "you are very great person, pedro". atónito e perplexo retribuo o habitual recíproco "yes you too, jarek". independentemente das iniciais alegações de masculinidade por parte dele devo confessar que tudo me passou pela cabeça nesta altura, inclusivamente a possibilidade de estar a lhe dar esperanças de algum dia haver entre nós paixão e exploração sexual. à margem, a psicanálise esotérica:

- i can see in your eyes, you very good person, i want be your friend, we friends?
- yes, jarek, we are friends...
- you very great, come here...

é nesta altura que bloqueio, ele, um monstro lamechas com o dobro do meu tamanho, inclina o seu corpo totalmente sobre o assento de segurança que eu tinha deixado entre nós e estende os seus braços na minha direcção. ele podia me ter beijado, agredido ou cuspido na cara, para mim nunca nada se tinha passado, tudo não passaria dum momento salvador dali, uma espécie de grande masturbador pós-moderno, a bordo dum airbus a319. abro também os meus braços e acolho o seu generoso corpo nos meus braços. deu-se a fusão da nossa intimidade. eternizamos a amizade, mas ele notou que qualquer coisa estava errada. mal o abraço acaba, olha com ternura e em jeito de compreensão tenta me encaminhar para repostas acerca de mim:

- "pedro...?"
- "yes jarek?"
- "i can see you have problem with .. how you say.. in german is said affektion"
- "hmmm, i don't know, maybe"
- "you father and mother not hug you when you small children i think"

penso por um momento nesta pergunta desferida sem preparação, um exemplo primário da habilidade em saltar barreiras de intimidade deste ser inclassificável que, aos 45 anos, era basicamente um bébé em ponto grande com a aparente inteligência emocional dum velho de 80 anos. se é verdade que me considero mais frio do que me desenharia se fosse o gajo que toma as decisões, nunca me pareceu ser culpa dos meus pais mas mais do percurso que tomei. um gajo chamado robert frost uma vez disse que dois caminhos divergiam numa floresta, e alegou ter tomado o caminho menos utilizado. segundo ele, isso fez toda a diferença. várias vezes na vida me relacionei com esta alegoria da floresta do frost pelo que, na realidade, jarek o bárbaro sensível me tinha captado a atenção com esta indagação. sim não liberto facilmente o tipo de hormonas que me leva à procura da intimidade física. sim abraçei-lhe de forma semi relutante, mas porquê é que ambos tinhamos necessidades tão distintas no campo afectuoso? seria de mim ou dele? limitei-me à resposta diplomática:

- "yes, i think the normal every parent gives to their child.. yes i felt loved when i was a kid"

era o que diria independentemente do que pensasse, não era justo denunciar qualquer tipo de negligência afectiva por parte dos meus pais a um polaco assim ao deus de ará.

- "i can see you needed a hug, it was good for you.. you very good person i see in eyes.. when i protect pope karol wojtyla, jan pawel sekund, he look into my eye one time and smile... i not believe in god before.. now i believe and i have power to see if people good...i change very much"

nesta altura deixei-me imergir na fantasia etérea de que era realmente boa pessoa, convencido pela retórica sem espinhas de jarek, talvez um anjo convocado àquele vôo da easyjet para me redireccionar para um caminho de positivismo e amor, se bem que de figura duvidável e relativamente inesperada para a percepção que tinha doutros anjos como o gabriel ou o uriel.

fico sem palavras e admitidamente pensativo. pensei por momentos o que estariam os outros espectadores a bordo a pensar e se já alguma vez tinha assistido a qualquer coisa do género, na qualidade de espectador, nos mais de 200 vôos que já fiz na minha vida. não, nunca. estatisticamente isto era uma aberração.

- "don't cry pedro.." [delicadamente sorri]
- "hehe, i'm not gonna cry"
- "i here for you, i your friend, to help..."

que sa foda, o que gajo que pense que vou chorar, tou me a cagar, até me apetecia chorar naquela altura, ele era verdadeiramente uma boa pessoa, era impossível não querer corresponder às suas expectativas. fingi-me triste para conceder que ele tinha acertado na mouche e tinha causado em mim uma reacção de deitar toda a repressão emocional que acumulei pela falta de afecto dos meus pais naquele abraço enternecedor alguns kilómetros acima de lyon, mas não consegui chorar. já tinha tentado chorar noutras ocasiões, algumas para simular desespero perante uma injustiça, noutras para perceber se tinha capacidade para tal, se por acaso acabasse por não conseguir ser astrofísico e querer seguir a carreira de actor, porque diziam que eu tinha jeito para isso (e para advogado/médico) e até porque eu tinha contacto com a marisa cruz e a sandra cóias. mas nunca consegui. há gajas que são anorgásmicas eu sou anoprântico, faltou-me o stock de serotonina ou tá muito caro ou uma merda assim, o que explica muitas coisas.

de qualquer modo ele, percebendo que me encontrava devastado animicamente pelas recém-descobertas particularidades da minha infância, silenciou-se, para me deixar descansar. nesta altura fecho os olhos e adormeço, simultaneamente aliviado por ter condições reunidas para a practica da modalidade do sono profundo e nauseado pela meu ultra eficaz cinismo.

Chegada a Berlim

acordo com o avião em plena descenção e renovado psicosomaticamente. o calvário aproximava-se do fim. 37 mil pés a descer a um ritmo standard de 1800 pés por minuto dava-nos pouco mais de 20 minutos até largarmos com as rodas na pista, quer para o bem ou para o mal. contas feitas, na pior das hipóteses deixava de ouvir o gajo e acordava numa cama num hospital qualquer nos subúrbios do sul de berlim, com um bocado de sorte qualquer suburbio que não steglitz, onde gozo de fraca reputação e onde sou alvo de processos criminais pendentes (para além de que tenho que mudar de comboio 2 vezes até schoneberg, onde ela mora e isso é me inconveniente). sei que acabaria na pior das hipóteses numa cama de hospital porque tenho a certeza que não é a minha altura de morrer ainda, independentemente de qualquer adversidade que se apresente perante mim, incluindo a queda dum avião. já duas fontes independentes me confirmaram que irei (sobre)viver até aos 90 anos (um jovem viajante sueco que passava pela sua 2ª encarnação sobre si próprio, depois de ser baleado na cidade inglesa de bristol disse-me isto uma vez ao pé do mezcal, em 2007, no bairro alto, e uma vidente portuguesa com os seus 60 anos, em belém, também me revelou o mesmo número, em 2001), pelo que nesta altura pouca coisa que tenha que ver com a morte me preocupa realmente. sei por outro lado que o coma estará fora de questão também já que o profeta sueco me revelou que viria a ser um peão com um papel relevante no mundo e esse seria o meu destino. ora sei que a nível de actividade cerebral pouco mudaria caso acabasse por sucumbir a um coma mas duvido fortemente da eficácia do meu contributo ao mundo nesse estado de vegetação física. ou talvez o contributo fosse exactamente estar impossibilitado de comunicar com o mundo exterior. ou do acidente descobrir-se-ia a cura para uma doença qualquer. tipo saltavam-me as orelhas no momento do impacto e descobria-se que num gajo sem orelhas a sida não funciona porque o HIV salta pelos ouvidos. conservavam-me em coma até aos 90 anos, por simbolismo, altura na qual eu morria de tédio depois de 64 anos deitado numa cama em berlim a ver a bundesliga. isto era naturalmente a pior das hipóteses. na melhor das hipóteses aterravamos e eu saia da cabina nervoso com o reencontro, molhando ligeiramente com urina os slips pretos da sloggy, os mais sexys que tenho, e acabando por ir a correr para a casa de banho mal chegasse a casa dela e jogar os slips pela janela abaixo como há dias em dezembro quando tive um sonho molhado e não sabia onde esconder as boxers todas fodidas, que por acaso até já eram velhas, portanto menos mal.

apreensivo com o desenlace olho pela janela para a fernsehturm de 350 metros o que me permite identificar a distância que ainda tenho que percorrer do aeroporto ao centro de berlim. perco-me em considerações sobre como o aeroporto da portela tem duas particularidades interessantes no facto de se impor justamente no centro da cidade e mesmo assim não ter acesso ferroviário mas por exemplo alfornelos ter. tocamos com as rodas no chão e o jarek dá me um papel dum estância balnear polaca no báltico onde alegadamente todas as celebridades alemães vão. chama-se zopot apesar dele insistir veementemente em pronunciar tsopot. mais interessantemente, no verso do cartão está o email dele e o número de telefone. ele confiou-me a continuidade ou não da amizade, gesto que me levou a concluir que ele, numa profunda retroanálise enquanto eu dormia, percebeu tudo.

despeço-me dele. é um adeus emocional. "think of me in bad times and i think of you in bad times". esforço-me por verter uma lágrima: evoco na minha esfera de consciência a possibilidade da julia pinheiro viver ainda mais 5 anos. nada, como sempre. o amigo fita-me ainda da forma sobranceira moda lisboa, mas quando me dirigo a ele para a despedida sorri e transforma-se num animal amigável. só precisava dum pouco de atenção. estou a sós, agora também fisicamente. saio de SXF pela 3ª vez no espaço dum mês e meio. a neve a temperar a minha gloriosa e cinematográfica caminhada amorosa, se tivesse um ipod metia a musica do gladiador. muitas vezes acho que deveria haver uma banda sonora para episódios de vida, o que me leva à necessidade de comprar um leitor de mp3, como solução temporária. aliás um pro ruben porque lhe fodi um já não me lembro quando e outro pra mim.

subestimei outra vez a massa de ar árctica que deriva indelevelmente pela tundra russa até ao (tecnicamente) temperado leste europeu, um fenómeno climático de contornos bélicos, tal a sua violência. já outros grandes homens anteriores a mim enfrentaram olhos nos olhos este instrumento estratégico de repulsão que abençoa geopoliticamente o território da federação russa. dois séculos antes, um gajo francês quase genovês com bue irmãos é bom no campo de batalha e então ganha respeito da classe militar mas como tem recalcamentos duma infância pautada pelo autoritarismo da mãe, torna-se num megalómano impiedoso e decide invadir o resto do mundo pra provar a si próprio que ele é quem manda, e não a mãe. a subir pela polónia acima, um bocado mais à frente donde eu agora me encontrava, o gélido ar ártico desfaz as suas ambições, exterminando os seus compinchas de batalha. o sonho de meter uma população de 30 milhões de habitantes a conquistar um mundo com 1 bilião cai por terra. já no seculo passado, um gajo austro-hungaro quase alemão com bué irmaos é bom no campo de batalha e então ganha respeito da classe militar mas como tem recalcamentos duma infância pautada pelo autoritarismo do pai, ao espiar um comício dum grupo de extremistas fascina-se e adere à causa, tornando-se num megalómano xenófobo cujo objectivo passa por exterminar classes étnicas e invadir o resto do mundo, porque o goebells disse. este ainda chegou mais longe do que o frances e eu, a uma cidade outrora conhecida como estalinegrado, já dentro do monstruoso território soviético, mas os seus super-zombies de combate não aguentaram os 150 dias sem comer a 30 graus negativos para que foram programados na IG Farben e acabaram chacinados. após boa réplica, refira-se. o sonho de meter uma população de 60 milhões de habitantes a exterminar etnias de 20 milhoes e a conquistar um mundo de 3 biliões desfez-se.

o meu background, apesar de em tudo semelhante as ambas as figuras mitólogicas anteriores (portugues quase noruegues, bué irmãos e o recalcalmento causado pelo autoritarismo do meu golden retriever, o simba), acabou por produzir outros efeitos em mim. é verdade que também sou um megalómano impiedoso e xenófobo mas na verdade tenho uma ambição maior que a deles. mais que o mundo, pretendo conquistar um universo de amor no 5º E, nº30 da leberstrasse, no sul de berlim. e me tornar cantor de folk irlandês. daí que precisasse duma dose de determinação ainda maior que a deles. aliado a isso teria comigo a vantagem de conhecer o percurso deles, saber que adquiri num seminário de formação pessoal que assisti involuntariamente em oslo, em 1988. bastava-me, relativamente a este trunfo, tirar algumas horas para pensar em que é que eles falharam, e tentar evitar seguir os mesmos passos falaciosos.

a neve ininterrupta e efusivamente saudava-me na testa, berlim emocionada com a minha chegada. de schonefeld a schoneberg (schon=bonito, feld=campo, berg=montanha logo iceberg vem do eis=gelo e berg=montanha => montanha de gelo) vai 1 fatídica hora e meia de s-bahn. como poderei sobreviver à neve, ao frio, ao desamparo da solidão ártica? os compinchas do frances foderam-se à pala da hipotermia e desnutrição. os super-zombies de corrida do austro-hungaro a mesma coisa, mas também porque faltaram munições e os soviéticos usaram melhor a arma de destruição cognitiva maciça aka propaganda. posto isto, e após 3 horas de elaboração de fluxogramas e diagramas de estado, conclui que basicamente bastava-me manter quente, alimentado, armado e imune à influência externa para conseguir chegar ao meu destino. a última exigência seria porventura a mais fácil de satisfazer, em virtude do vector teimosia na minha personalidade cartesiana no bolo do caco. o problema do frio e do armamento tinha sido, à priori, já estudado à partida, em lisboa, fruto dos valiosos conselhos da minha avó. se por um lado me alertou várias vezes por telefonema de que temperaturas inóspitas a rondar os 15 graus, como aquelas que constituiram recorde mínimo mais uma vez este ano na madeira pelo 26º ano consecutivo de que me lembro, são gravosas para a saúde da população em geral e que portanto teria que me cuidar na longínqua alemanha, onde tragicamente apenas 84 milhões de habitantes por ano conseguem sobreviver aos penosos invernos, por outro soluçou a cada 5 segundos avisos relacionados com a minha segurança pessoal em terreno tedesco. levada pelo trauma de 6 anos de guerra mundial causada pelos funestos povos bárbaros da confederação de estados germânicos, continua convencida de que hoje em dia qualquer espécimen humano estrangeiro e/ou com o menor sinal de pigmentação dermal é imediatamente executado ou mandado para oswiecim para as minas de sal e posterior gaseificação, já temperado. assim, de sobreaviso pelas recomendações da minha avó, cobri ambos os problemas, ainda em lisboa.

uma das t-shirts sarcásticas pós-modernas obsoletas 100% polyester que costumo usar para sublinhar a minha jovialidade de espírito + uma jersey listrada horizontalmente a azul e verde de jovem adulto responsável/divertido que sabe que há momentos para tudo na vida que comprei uma vez o ano passado antes de ir para cancun na springfield com o patrício e insisti em usar dentro duma disco lá, a transpirar por todos os lados, só porque era mesmo aquela imagem semi-sofisticada que queria passar às americanas mas que elas acabaram por identificar como awkward/weird/odd + um kispo com capuz, azul escuro, às bolinhas num azul marginalmente menos escuro ao ponto de só reparar quando cheguei a casa depois de ter comprado no madeirashopping com o meu irmão para substituir uma bué louca toda em preto que me dava um ar bué independente, decidido e cool para caralho em geral que comprei na H&M na 5th avenue e perdi no outro lado do mundo 4 meses depois, em cracóvia + um casaco com capuz (bónus combo de capuz duplo) com padrão escocês em vários tons de cinzento, azul e preto da XDYE que me refinava o ar de durão barroso muito marado e descontrolado mas ao mesmo tempo com algum sentido de posicionamento no mundo da moda e que nao me serviu de grande pistola para entrar nos clubes em berlim mas que deu pra tirar umas fotos bacanas de mim a fingir que sou insane em poses espontâneas pré-estudadas em cima de pontes, parapeitos ou no topo de estátuas, serviram, discutivelmente, para manter a minha temperatura corporal acima do limiar da hipotermia, embora tenha a certeza que a ponta da vergasta tava a menos de 35º, por mais encolhido por efeito de joule que tivesse.

para protecção pessoal adquiri uma uzi de fábrico israelita no martim moniz a um angolano veterano de guerra. aliás troquei por uma medalha condecorativa aos familiares das vítimas do submarino kursk que comprei na plaza mayor de merdrid a um russo por 15 euros, em 2003, numa altura em que ainda andava com problemas pós-cirúrgicos. o angolano, seguramente nostálgico da cooperação soviética/MPLA dos anos 60/70, descortinou valor sentimental histórico num objecto de legitimidade duvidosa e francamente de sovieticidade nula. eu, por meu turno, matei dois coelhos duma cajadada só: uma uzi, tal como qualquer outro ser inanimado/animado de fábrico israelita, seguramente nunca seria impedida de entrar em solo alemão, à luz dos conhecidos e discrimnatórios eventos históricos do século passado. por outro lado, não se poderia arriscar a acusação de discriminação racial relativa a um cidadão duma ex-colónia portuguesa, pelo que, bastar-me-ia que a arma continuasse em nome do angolano e alegassemos, no aeroporto da portela, que eu era apenas o intermediário no transporte da arma até à namorada dele em berlim, e não deveriam haver problemas.

na realidade, o único verdadeiro problema que se punha nesta altura era então a alimentação. esta poderia ser uma falsa questão. na verdade, em condições normais, todos sabem como me repugna comer, o problema aqui prendia-se com o conhecimento sobejo dos factos históricos e inegáveis do passado. eles foderam-se porque não comeram e agora eu? não me podia arriscar ao conforto dos meus hábitos alimentares. era imperativo que consumisse algo ao longo da hora e meia de linha S1 que teria que percorrer ainda durante aquele dia. mas como? estamos a falar duma metrópole turca com uma minoria alemã e vários turistas americanos e espanhois, portanto uma conjuntura verdadeiramente desoladora para o comum ser humano desnutrido. o menu para todos os 6 milhões de habitantes daquele aglomerado populacional consiste numa amalgama de donner kebabs, durums, lahmacuns, bureks, hamburgeres de 99c no burger king, pretzels e todas as suas permutações possíveis ao longo da semana.

suspiro e como experimentado caixeiro-viajante que sou acedo à cultura do local em que me encontro, de resto o que acabo sempre por fazer com sucesso, à excepção de quando tive que me ambientar ao críptico procedimento cultural em miami e falhei desastrosamente ao ser europeu. interrompo a minha relação temerária com o irredutível nevão, entro numa kebab shop e peço, moreno, coberto de neve, com uma mala às costas e uma uzi debaixo do braço, uma espetada com milho frito. o gajo ao balcão responde "hallo eçpek tada! ich bin ersan" e estende a mão, como resposta à minha alegada introdução. percebi que daquele momento em diante seria conhecido como eçpek naquele estebelecimento, o que não me preocupava a não ser pelo facto de reconhecer que teria mesmo que relegar a minha saúde intestinal para segundo plano, sobre perigo de vir a perder a batalha contra o nevão da russia com amor, como aconteceu com os franceses e os zombies do austro-hungaro.

que sa foda, vou pro donner kebab, o meu 25º no espaço de 2 meses, uma espécie de sandes de alegada carne animal assada num espeto giratório a jorrar gordura, acompanhada de iguarias vegetais variadas e envolta num acessório que pode - discutivelmente - ser considerado uma variedade de pão. grosso modo, o produto da cozinha turca mais popular que existe, aquele que se pede quando se tem bué fome ou quando não se sabe bem o que pedir, basicamente está para a gastronomia turca como o big mac está para a americana.

2 euros e meio para uma bomba calórica de cerca de 800 calorias. fazendo a conversão para horas de ginásio isto equivalia sensivelmente a 1 hora em cima da passadeira a 12 km/h, o que é puxado e inconveniente, até para um masoquista crónico como eu, mas tinha que ser. era conveniente agora e now is the moment. carpe diem. vive o momento.
devorei o donner kebab, uma mistura de molho de alho, gordura e suco gástrico da regorgitação involuntária por comer muito rápido brotavam dos meus cantos da boca enquanto fazia o finish him ao último bocado de cartão, ou pão. frustrado pelos remorsos e pela impossibilidade de meter os dedos à garganta, já que tinha prometido a entes queridos que não o faria por um lado e porque ia precisar deste nutrientes num futuro próximo por outro, exigo o meu dinheiro de volta, em alemão impróprio mas decifrável. o gajo ainda falava pior que eu mas começa lá aos halalalalas dum lado para o outro e a se exaltar com a suposta perna de cordeiro que girava no espeto e a queimar bandeiras americanas. eu não tou pra meias medidas, não impressionado com o tipo de comportamento que imediatamente reconheci da CNN, digo-lhe agastado, já em inglês simples: "look, i give you two warning: one in afrikaans so you have excuse of not run away, the second in sign language...". não sei falar afrikaans e também não teria impetuosidade suficiente para lhe largar um murro em linguagem gestual assim sóbrio mas o que sei é que a reacção do ersan cobriu o meu bluff e ainda fez raise. rabo entre as pernas e fold. os turcos jogam poker de caralho, penso, brindado de novo com neve no nariz.

tal como noutros episódios humilhantes da minha vida, encontro reconforto sentando-me na última fila da última carruagem dum comboio, com a cabeça encostada ao vidro, balbuciando queixas à minha reflecção distorcida e oblíqua. a distanásia personificada. normalmente algo de espectacular acontece quando tou nestes estados de espírito. uma velha vem e conta a história da vida, um casal de backpackers anima-me com relatos das suas passagens pela somália ou uzbequistão, troco olhares cremosos com uma voluptuosa quarentona. no fim acabo sempre emergindo como um herói, ou pelos menos uma figura simpática. neste S1 que ligava schonefeld a sudkreuz fui remetido realisticamente para a minha condição unipessoal e anónima, mais um peão no xadrez duma metropolis, nada de especial.

saio em sudkreuz reatado à minha insignificância global, à minha efemeridade biológica, à minha nulidade filosófica. era exactamente neste estado de espírito que era necessário me apresentar em frente ao meu objectivo. determinado mas humilde. normalmente parece que é conveniente e adequado ser-se ou parecer-se confiante na interacção com pessoas do sexo feminino, li num livro, mas por experiência pessoal, após quebrado o gelo e encetada uma relação, há um notório favorecimento para episódios em que elas estão em posição de nos proteger emocionalmente, uma perversão do instinto maternal delas de que nós homens podemos tirar partido, até elas emanarem um puto pela cona abaixo, que canalizará para si todos esses instintos desse momento em diante. é assim num estado lastimável emocionalmente que passo por uma florista do outro lado da rua em relação à estação de comboio. dominado pela ansiedade existencial embarco no maior dos clichés e após hesitante ponderação decido me despir de racionalidade e me entregar de corpo e alma à lamechice da telenovela ou da comedia romântica com o hugh grant e a andie mcdowell/julia roberts/renée zellweger. entro na loja e compro sorridente uma rosa, como se aquele meu acto pessoalmente inédito constituísse uma cena dum filme que fosse do conhecimento de todos, incluindo a gaja chinoca que trabalhava na loja, como se estivesse a reflectir o secreto orgulho dos espectadores na minha acção seriada e categorizável. um atentado ao meu estatuto analógico.

saio da florista, entro na torgauer strasse e faço o benchmark ao meu comportamento: estou um homem diferente, mutilado, a antítese do irascível ser que brindou a ex-namorada com 0 (zero) presentes ao longo de 6 anos. quando anunciava os meus planos à minha irmã e a uma amiga, no dia anterior à partida, os comentários de ambas coincidiam com esta minha introspecção "pedro mas o que se passou contigo? nunca foste assim!". concordo, estou mais e mais à beira do precípicio, em breve serei mais um ovino de processos determinísticos, alegremente a comer a verde erva do meu lado do curral e a cagar bolinhas de cócó até que a morte me separe do meu estado híbrido animal/vegetal.

cheguei à leberstrasse, estou longe de casa. neva como se não houvesse amanhã. estou completamente sozinho no mundo, isolado. sem família, sem amigos, sem orientação. em familiar só a ténue ligação que começei a desenvolver com esta míuda de 21 anos, cinco voltas ao sol mais nova que eu, e a qual quero cimentar. não cimentar mas fazer florescer, torná-la forte mas flexível, quando convir. são 4 e meia da tarde, estou meia hora atrasado para o encontro no messenger com ela, ela já deve estar em casa, penso eu, à minha espera, em frente ao computador. e eu estou aqui em baixo e tenho uma rosa para ela *sigh*. é uma opção burra em retrospectiva, estou a esgotar dois elementos surpresa numa única ocasião, devia ter guardado a rosa para quando lhe metesse os cornos com uma argentina, para o ano, na viagem à américa do sul, mas que sa foda, gastei 2 euros naquela merda e não vou deitar fora. milhões de gajos a querer oferecer flores às gajas à volta do mundo e não podem. não vou desperdiçar.

abordo um jovem alemão para me ajudar. a ideia é tocar à campainha, ele dizer que é o homem do gás e assim me abrir a porta de entrada do prédio e depois lá em cima eu lhe aparecer direito na cara, para ela nem ter tempo de fantasiar sobre o reencontro ou dizer ao gajo que tá com ela pra se pendurar na janela. quero ver a reacção nua e crua, no strings attached. o plano funciona, subo as escadas num misto turbilhoso de emoções. não sei bem o que esperar, toco à campainha. o flatmate, um híbrido mamute/austrolopiteco abre a porta, ele reconhece-me de dezembro, meto o dedo à frente da boca, vertical, como o mourinho na taça da liga contra o liverpool, em 2005. xiiiuuuu. entro pelo apartamento adentro, ela tá à porta do quarto, apareço-lhe com a rosa em punho, a mala puxada na outra mão, ambos elementos simbólicos da minha caminhada. ela não acredita, não sabe como reagir... é normal... eu já sou velho e também não sei. é contudo um momento que carrega uma inequívoca declaração de intenções.

e eu continuo a dar azo à minha esquizofrénica obssessão de que namoro com uma estrangeira na flor da idade. tou a gostar, não me mediquem.

BONUS TRACK

os emails que o jarek me mandou, posteriormente, incluindo uma foto.

1. "Dear My brather Pedro hehe !!

super, that you write to me. Sorry, but J"m outside in my house-at uncle and J have not book of words translate english-polisch. In sunday I Comeback to my house and writing about your girl. She's very interesting girl and beautiful. Is good woman .

I'm very lucky that you writing to me, I thinking about you and your future. In sunday visit to my home cuzin- teatcher of language english and I write to you. Sending
my photo from Lecco ( Italy)- september "08

bye bye Pedro my brother:-) Jarek"




2. "Hi Dear brother hehe - in my opinion - your girl is very self confident, going straight into the target. Also fully decided for everything to reach the goal. In your relationship she will take a lead, she is too conservative and too tough for you. Best wishes Jarek oh, maby in marth I visit Porto and Coimbra hehe, but maby... Bye my brother Pedro hehe" [perfil psicológico da minha namorada traçado a partir duma única fotografia]

3. "elo elo ma friend. This is only my opinion about your beautiful girl.Don't worry of my opinion. Promotion for low cost to Porto is the end and my friend with job can't fly in march.... Lisboa fascination me and non stop thinking about beautiful city and brazillian girl hehe. So you now is a Berlin or Lisbon? wishes all better Jarek

4. "hey my friend,what"s going on? Tomorrow I fly to Sewille on 5 days. Also, I would like visit to Cadiz. Now temperature is Sewille is 20 C and sunny. Many wishes for you girl and you. Jarek"

5. "hey PEDRO, hmm end sweet dream and tomorrow I comeback via Italy/BERGAMO to Warsaw. Yesterday temperature in Sewilla was 22 and sunny. Now I have a brown skin hahah like Bambo. In BERGAMO/ prowinza Lombardia I spending 24h and Iwould like Alps *about 60km from Bergamo*. I was in Bergamo on summer, very old town *CITTA ALTA* beautiful places. So, next travel to LISBON HAHA/Now is crizis and polish zloty not good / 1 euro / 4,65 zlotych.....

Best wishes Pedro , ciao"


6. "hey Pedro my friend, now Im wisit to VALENCIA and raining, raining, raining hehe

beautiful city but this rain. Tomorrow I fly to Warsaw via Duisseldorf /Germany/. Now what you doing?Where is your beautiful girl?Now I visit sauna and must goes on traning body building hehe. So, wishes the best PEDRO, Jarek ciao"

new york nicks #8 - just another night out

Covão - "Mais absinto Não, Não"

mais uma vítima do absinto squad

confusio #9 - um infinitio vazio por preencher

atenção: andré valente, vulgo cabeça de porco, não se encontra online

este acontecimento macabro deu-se às 16:00 do dia 17 de junho de 2008.

confusio #8 - o real madrid do facebook

conheço um gajo que fez o upload de 47 albums de fotos para o facelook, desde outubro de 2008 a maio de 2009, incluindo fotos de eventos tão insólitos como barbecues, cartadas, idas à praia ou passeios pela cidade de Lisboa (vários deste género em particular).

desisto, não tenho mãos a medir perante este tipo de agressividade no marketing social.

Announcement - crónica duma morte anunciada há 2 meses

após equação pesarosa percebi que não existe viabilidade social no twitter e decidi unilateral e incondicionalmente acabar com o projecto.

não consigo de forma alguma me promover se só 6 ou 7 americanos/portugueses me seguem.

vou canalizar esforços para o facebook e para os nicks no messenger.

hall of fame #24 - flirt literário

Hi Faye,

I'm a portuguese writer (www.franciscosalgueiro.com) and always willing to meet interesting people from around the world, since different people and cultures
are my source of inspiration.
How would you like to meet for a coffee?

Bye,
Francisco

Interlúdio #6 - o verão de 2009


*agradecia que se alguém lesse isto, previamente pusesse a música recomendada a tocar e esperasse até ao segundo 30, isto para uma melhor apreciação do texto, obrigado.

. fui à janela e tudo se revelou: o filha da puta do verão de 2009 está aí, a confirmação ocorreu-me sobre a forma de factores climatéricos: o sol desaparecia por trás de um sétimo das colinas de lisboa visto da minha janela no bairro das ilhas e eu esperava naturalmente uma queda repentina da temperatura: qual não foi o meu espanto quando a temperatura não só se mantem amena em termos técnicos como em termos relativos ainda subiu por efeito psicológico.

. já me tinha vindo a incomodar a discrepância climática com o calendário, lembro-me muito bem perfeitamente que no ano transacto nos finais de abril já inalava areia nas costas lusitanas.

. a constatação imediatamente evocou-me tons nostálgicos de imprevisibilidade e intensidade de vivência multinacional. vou estranhar acordar 3 dias seguidos no mesmo lugar, dormir em camas, guiar um carro. no autocarro de volta da Costa, se tiver cansado, vou atar a minha mochila aos meus pulsos e quando acordar, acordo em sobressalto porque não saí em Breclav, na fronteira com a Hungria. vou todos os dias ao supermercado comprar latas do que for mais barato pra levar para um hostel imaginário em frente à minha casa e pago com Zlotys. de 3 em 3 dias faço a linha de sintra com um backpack às costas 12 vezes para cada lado, e quando sair em campolide, procuro um mapa com as direcções para a minha casa, o flamingo hostel, na rua szewska. vou passar os meus serões na sala de convívio dos hostels de lisboa a comentar em português o quão boa é a gaja checa ou o quão anormal é o gajo americano e cada australiano que conhecer vou dizer "foda-se esta merda do leste europeu tá cheia destes gajos" mal ele vire as costas. quando apanhar um barco mal saia no meu destino vou apanhar o metro para Syntagma para ver a acrópole ou espero que o Tony the legend apareça e diariamente vou procurar piscinas com uma sunset party cheia de meninos australianos a beber bacardi breezer a 4 euros. alguns dos dias vou dormir com o cachecol do PAOK de salónica e repetidamente fazer a conversão do alfabeto grego pró romano até ficar com dores de cabeça. à tarde vou comprar uma garrafa de vodka e escolher uma praça no centro da cidade para consumi-la em tronco nú até ao limiar do coma. de madrugada vou insistir que quero um pita gyros a 2 euros nas roulottes da 24 de julho. foda-se nunca pensei que pudesse sentir tanta falta do trak-trak dos comboios a andarem a 15 km/h nas planícies da macedónia ou acordar com o revisor a me blasfemar em croata por tar com os pés em cima do assento. apesar disto, mais importantemente, não vou mandar SMS ou mensagens no facebook para uma alemã em barcelona.

. este ano, o verão de 2009, marca o último da minha vida no paradigma actual profissional: um estudante procrastinador consciente. a partir do verão de 2010 vou 15 dias ao algarve com o resto da manada ou onde quer que os alemães vão os seus 15 dias cerimoniais de praia - talvez à (ainda) menos entusiasmante costa báltica. ou largo o trabalho e faço qualquer coisa de jeito com a minha vida.

é um verão de inflexão, este último verão dos meus primeiros 26 anos de vida.

fait diversos #11 - cardozo duplo com gelo

"Cardozo luta pelo Óscar até ao fim" - in msn desporto (23/05/2009)

este homem é uma fonte interminável de trocadilhos, para a imprensa desportiva

hall of fame #23 - a prova dum mito

Pedro says (19:24):
da me os teus dados biométricos
rodriman says (19:24):
1,83
84kg
penis 21cm
perimetro penis 24cm
Pedro says (19:25):
tens 24cm de penis o q?
tens no maximo 20
rodriman says (19:25):
tou a gozar caralho
Pedro says (19:27):
tens 1,83?
entao tb tenho
rodriman says (19:27):
so se for de saltos
Pedro says (19:27):
tens 84 kg?
tas a gozar fds eu tenho 77 e sou gordo
e és seco n tens cabedal nenhum
Pedro says (19:28):
deves ter msm um mangalho de 24 cm
rodriman says (19:29):
lol

new york knicks #7 - optimismo crónico

AV - Life don't have surprises for me... it's easy to see what comes next, nothing

Announcement - 26 mudanças de atitude


como todos os zero leitores deste blog sabem faço anos daqui a pouco. só quero avisar que vou fazer uma lista P de todos aqueles que me vão contactar durante o dia de amanhã e vou subtrair-los a uma lista O que já tinha feito ontem, contendo todas as pessoas que conheço. vou carregar ambas as listas, a todo o tempo, num bolso a definir das calças de ganga que uso todos os dias. A lista P será ordenada por ordem cronológica de contacto.

o meu tratamento às pessoas que conheço no decorrer deste ano pedriano que se avizinha dependerá fortemente da lista em que se encontrarem. para os que figuram na lista P prometo brindes e coisas bonitas de variados calibres, dependendo da posição que ocupam na lista. para os que figuram na lista O, peças de arte cropovegetal no correio e uma denúncia neste blog através da publicação da lista na sua íntegra com (des)apreciações individuais a todos os seus constituintes.

foram avisados com 48 minutos de antecedência...

P.S. fui eu que fiz o gráfico, tive na dúvida para assumir a autoria porque ainda não percebi se se qualifica como gabanço ou confissão

9 de Janeiro de 2009, Funchal (sunday bloody sunday)

decorria o ano de 2009, há cerca de 5 meses - e presentemente em simultâneo. mas no passado eu encontrava-me no funchal, mais propriamente na minha habitação no garajau (nao devia revelar este tipo de pormenores). normalmente nos 9s de janeiro já não me encontro na ilha, normalmente porque tenho exames, normalmente porque apesar da vida que me venderam ter vindo gradualmente a cair em descrédito nas minhas hostes existenciais, tomo as rédeas da responsabilidade académica motivado pela compaixão que sinto pelos meus patrocinadores oficiais (investidores - há quem veja as coisas nesses tristes termos - TER UM FILHO A ESTUDAR É UM INVESTIMENTO PARA A FAMÍLIA - é a adaptação moderna ocidental do conceito de ter 14 filhos pra se poder cavar mais batatas). Assim isto pra dizer que não curto a música q tá a dar e vou mudá-la o que poderá originar quebra de raciocínio e já que escrevo tudo de seguida sem olhar pra trás isto pode não fazer muito sentido. **RATM - KILLING IN THE NAME OF.mp3 - tou com a adrenalina das 4 am**

bem, as meninas alemães estavam na Madeira. um mês antes tinha iniciado a minha cavalgada triunfante para conquistar uma delas, ignorando por completo todas as insignificantes vicissitudes paralelas da minha vida como perder cadeiras, foder as férias aos amigos (desculpem way e mike em berlim e estoicolmo, desculpa só way no estados unidos da madeira) ou me tornar um bulímico moderado e consciente - reparei que enumero sempre 3 coisas, quando é pra enumerar, mas 2 é pouco e 4 é exagerado portanto vou continuar nesta medida - mas não de propósito pq não faço merdas de forma premeditada já que sou um espírito livre e ser random é fixe (só li kerouac depois de já ser assim...).

na noite anterior tinhamos tado nas vespas, a discoteca da moda há 20 anos apesar de nobres esforços da concorrência (particularmente o molhe, onde só começei a entrar por cunha apenas para descobrir que divertia-me mais quando ficava lá fora a ler as mãos às gajas que tavam na fila e a andar à porrada com xavelhas - ocasionalmente e sempre por provocações involuntárias). fomos lá bater no encalçe dum passeio matutino antisocial pela baixa funchalina e duma festa privada (*chic*) de casais onde discuti com o meu par e acabei por me sentir deslocado apesar de conhecer todos. sin embargo fiz o que mandam as regras em caso de nos sentirmos deslocados numa festa e bebi aguardente até o limite de capotar. mas uma aguardente potente, daquela que o ruben não consegue beber e/ou que faz o martelo fantasiar de que se encontra no GTA4 e se chama niko belic. **Mando Diao - Annie's Angle - descobri que odeio esta merda, delete**


Figura 1///eu e ruben trocamos impressões

como é hábito, depois de embriagado(eufemismo), ganhei a habilidade de rir e fazer rir e parti para mais uma actuação notável a nível social, culminando no realinhamento emocional com a minha futura ex-namorada. a minha situação é curiosa e contrária às definições psicológicas: eu não tenho problemas sociais por causa do alcoolismo, pelo contrário, eu só como alcóolico resolvo os meus problemas sociais.


Figura 2///momento de obtenção de clímax social

dito isto retomo as vespas e o tal negligenciar do amigo que me visitava na madeira(amo-te luís), atraído por uma motivação obsoleta de alguns meses antes, deixando-o completamente de parte (e à motivação obsoleta) para poder aproveitar o momento de coragem alcóolica e dar linguados na minha namorada duma ponta a outra da pista. isto porque só andavamos há 15 dias e eu já não beijava uma gaja sóbrio há 1 ano e meio (tempo passado desde que a minha última namorada acabou comigo injustificadamente) mais meio (sim os últimos 6 meses de relação foram frios), portanto simplesmente comportava-me como um troglodita de 12 anos durante o dia mas à noite era o grande campeão macho dos beijos porque tinha justificação para beber. **KINGS OF LEON - SEX ON FIRE.mp3 - o mundo é meu**


Figura 3///entusiasmado com o alcóol

na verdade acabamos por sair todos muito bem aviados daquele estabelecimento de diversão noctura, tou convicto que cada um com as suas razões (no caso da minha deusa a situação foi clara - a determinado momento ficamos sozinhos com a minha ex-namorada e duas das suas três irmãs num daqueles grupos de dança que inexplicavalmente se formam em círculo). tinhamos o carro direitinho à porta, eu já o trouxera da festa privatta a uma média de 130 km/h pela encosta abaixo e fui imediatamente afastado da possibilidade de o voltar a conduzir pelo conselho de trento. em vez disso deixei o carro nas mãos da motivação obsoleta do meu amigo (é uma miuda porreira, laura se tás a ler isto tou a ser injusto porque posso) que garantira que estaria em condições de nos dirigir a casa. ok senhora.


Figura 4///"i'll take the car"

escusado será dizer que mal entrei para o banco de trás do carro e para o conforto peitoral da minha cônjugue adormeci. isto em vão já que apenas 2 minutos depois acordei em sobressalto com "oh noooo"'s a todo o espectro sonoro audível. uma operação stop com polícias paradigmáticos (bigode e uniforme azul), portanto ou era um scam muito bem feito ou vai na volta era mesmo verdade. e foi verdade. e ela acusou 1.3 gramas de alcóol por km^3 de sangue. e tudo a rir, e eu pra mim foda-se mas estes gajos nunca foram apanhados numa stop com alcóol ou q? somos todos meninos aqui? era como se não soubessem a) que iamos tar até às 10 da manhã na esquadra e b) que havia a possibilidade real de no outro dia ainda termos que voltar para ir buscar a condutora encarcerada. confirmou-se a a) para meu desespero (entretanto obviamente reprimi fortemente a atitude de gracejo deles todos e acabei eu próprio encarcerado socialmente nas 3 horas que tivemos na esquadra) mas a b) não, para desespero do way. ficou marcado julgamento para daí a 2 dias.

10 da manhã chegamos a casa comigo a conduzir a viatura ainda em estado lastimável, a minha única preocupação durante os 15 minutos de viagem sendo tentar não bater no carro do meu pai quando chegasse. como se não bastasse todo este cenário os meus pais tavam acordados o que naturalmente não constitui nenhum problema não fossem eles me relembrar que teriamos que comparecer a um almoço de família pré-marcado e de desmarcação parcial impossível ao meio dia, num aglomerado de casas remoto chamado ribeiro frio, no meio da ilha. isto veio como um choque para mim: não só teria que aguentar um almoço de família inteiro com uma ressaca clássica mas também disporia de todo o dia para matutar nos prováveis 1000 euros de multa a dividir por 4 que era nosso destino pagar como preço pelaquela brincadeira dumas horas antes.**Tiga - Shoes.mp3 - tou no lux sem pagar 12 euros"

com isto tudo nem tentei simulações de sexo, já que sexo ainda era cedo (gosto das mulheres assim, difíceis) e limitei-me a dormir, provavelmente até para alívio dela. 2 horas passadas acordo como fantasiara 2 horas antes: com o lobo frontal esquerdo temporariamente desactivado e o direito em agonia. mais, tinha que guiar e já tavamos atrasados porque era pra tar lá ao meio dia e já era meio dia e elas ainda tinham pela frente 2 horas de maquilhagem e manipulação de cabelo.

depois de me ter sentado dentro do carro à espera delas durante 2 horas que pareceram 2 anos lá partimos para o restaurante em marcha rápida, como é meu timbre, apenas para aos 20 minutos de viagem, no meio da serra, meter o carro numa vala e rasgar um pneu. a este ponto para mim já podia acontecer tudo. tava num estado de resignação tal que me tornara imune a qualquer estímulo ou evento exteriores à minha convicção esperançosa de que aquele dia um dia ia acabar.

vou ao sport baggage sacar da chave pra mudar o pneu só para descobrir que a chave não era adequada. isto levou a que por uma fracção de segundo reactivasse o meu lobo frontal esquerdo para me indagar sobre a lógica do fabricante em pôr uma chave que não servia às rodas do carro em que se encontrava. conclui que era uma boa oportunidade para me irar e finalmente tomar um curso de acção útil e então amandei com a chave para meio do mato espinhoso da floresta laurissilva, património da humanidade. achei humoroso na mesma maneira que se acha quando um ser humano como o mr. bean sofre episódios sistemáticos de infelicidade consecutiva. **Smashing Pumpkins - Tonight - guitar hero world tour, dava tudo pra jogar agora**

um carro faz stopped atrás de nós e sai um velho de 30 anos ao qual explicamos todo o sucedido nas últimas 6 horas. o gajo ri-se nostalgicamente, de certeza relacionando as nossas peripécias com as dele na altura que tinha a nossa tenra idade, e oferece ajuda. a primeira merda que reparo é que a chave dele é igual à nossa pelo que soltei logo a minha contribuição conhecedora ao informar de que afinal de contas a ajuda dele nao ia adiantar nada. felizmente ele, como é hábito com a maioria das pessoas, ignorou a minha opinião precipitada e limitou-se a tirar as capas dos pernos das rodas. assim já servia, tanto a chave dele, como a minha - agora perdida no meio do mato como castigo por ser inútil, como os bébés norte coreanos. a patroa deliberou que eu deveria ir buscar a chave de volta e prontamente acedi sem partir para a agressividade verbal, racionalmente trabalhando para ver se conseguia um bocado de sexo antes que ela bazasse 3 dias mais tarde. acabou por não ser tão mau quanto isso (refiro-me a ir buscar a chave ao mato). a comichão insuportável das urtigas e o ardor constante dos espinhos da carqueja acabaram por deslocalizar a atenção da minha cabeça em erupção.

vou interromper esta história porque não tenho paxorra pra tentar desesperadamente fazer o resto parecer mais interessante do que o que foi. comemos espetada, milho frito, salada, bebemos brisa maracujá, vimos ovelhas a brincar e fomos pra casa ver o pôr-do-sol e eu, sóbrio, nem um beijo lhe dei, à minha namorada. felizmente no verão vou ter mais 12 oportunidades para compensar.


Figura 5///romântico, mas não o suficiente

agora que me lembro podia ter escrito sobre tanta merda interessante que se passou nos últimos 25 (quase 26 xD) anos mas tava a efectuar a minha habitual ronda nostálgica de fotos da minha deusa (obrigado pat por cunhares o termo) antes de dormir e lembrei-me desta vulgar história com contornos de banalidade a roçar o livro que quando tinha 15 anos era da categoria intelectual mas se fosse parte do programa de Português B como a aparição não valia um caralho - falo do alquimista, livro traduzido para 753 línguas o que diz muito (ou tudo) sobre o IQ médio da população mundial (é 100). boa noite e boa sorte. **buraka som sistema - kalemba.mp3 - pongo love é o que está a batereeeeh**

confusio #7 - arte cropovegetal

olá ontem engoli sem mastigar um prato de milho doce em 10 segundos. o meu motif foi que um compincha esperava por mim lá em baixo pra irmos ao quiz perder tempo;

hoje quando fiz cócó olhei para baixo e parecia uma massaroca;

quando era (mais) puto vomitei uma folha de alface quase inteira. já descobri o meu talento. vou tentar com outros legumes e fazer disto uma arte. hoje à noite são bróculos inteiros e amanho espero encontrar qualquer coisa semelhante a um bonsai hidropónico (já adubado!) na loiça sanitária.

informar-vos-ar-e-ei do sucedido

hall of fame #22 - caso verídico

meu pai, primeiras palavras após acordar de anestesia geral:

- oh senhora enfermeira, traga-me uma sandes e um copo de vinho que tou com fome

confusio #6 - hiper pós-moderno

post monofrásico a explorar relações semânticas obscuras culminando em humor negro e incluindo a palavra coiso.

new york knicks #6 - a whine a day...

AV 3x a mesma musica no sensations??? devem tar a gozar cmg.