perdi a oportunidade de entrar prós quadros da nokia, 1ª vez, razões de estupidez.
Basicamente falhei a TV de plasma, o computador novo, a reabilitação da PS3, reabilitação do tag, congelador, cortinas para a banheira, cortinas para os voyeurs do prédio em frente, um sofá novo e a assinatura do Canal+. A faye falhou roupas novas, perfumes, cremes, um gato e a assinatura da vogue.
Em suma podia ter dado um passo em frente na minha vida e ser finalmente um cidadão, talvez assentar e casar dentro de 2/3 anos mas deitei tudo a perder.
vou dissecar a falha para ajudar outras como eu no futuro.
Intro. houve uma entrevista surpresa, foi com os gajos que mandam no R&D, que não apareceram na semana passada no momento oficial de 7 horas de entrevista - acho que é assim que as coisas funcionam, não faz sentido sacar reacções e ímpetos quando o sujeito entrevistado estudou tudo, ou pelo menos deveria ter estudado.
Eles são dois gajos, bucha russo e estica romeno, presença e olhar eloquente. Quando começam a falar já tás de rastos com a bandeira branca/do sporting hasteada. Expectável.
1. Hábitos pessoais Logo à entrada da sala o romeno agarra-me no pulso e diz "what's this? no tattoos allowed here..." - era o carimbo do zapata, de há duas noites. Tá bué frio e eu não tenho paxorra de tomar banho mas curiosamente a faye tinha me chamado a atenção para o facto de a ter ainda, é por estas coincidências que devemos casar com uma gaja e ter filhos.
É óbvio que a nokia é uma empresa moderna, a tatuagem era irrelevante mas a entrevista tinha começado ali, na minha reacção.
"It's not a tattoo, it's a club stamp"
- "Oh... you were on a club last night?"
duas opções: admitir que vou pró trabalho sem reunir condições de higiene e corrigir para "No, 2 nights ago" ou simular que fui hoje trabalhar de ressaca
"Yes" - escolhi proteger a minha imagem pessoal acima da profissional, espero que seja uma marca de carácter.
- "ah... which club?"
"Zapata"
- "nice.."
2. Background académico matemáticoprosseguimos com leis de kirchoff, prova formal de R1R2/R1+R2 e leis de maxwell. Eu não acho que fosse obrigatório saber isto mas talvez fosse importante ver primeiro a minha abordagem lógica, segundo a minha perseverança, terceiro a minha permeabilidade à pressão, quarto a minha reacção ao falhanço, porque só descansaram quando falhei uma merda (não me lembrava das leis de maxwell).
Fui severamente criticado por ter levado 2 minutos a provar formalmente a cena das resistências e talvez fosse também um teste - e acho que falhei porque desculpei-me ("haven't dealt with this for a long time, lost the routine") e acho que a cena é comer e tar calado.
O meu momento negro da entrevista de qualquer maneira teve a ver com a obssessão que estes gajos têm com números primos. Já há 1 semana houve um gajo que passou 1 hora a me perguntar cenas sobre números primos inclusivamente criar um programa em C para testar números primos (muito mais complexo do que parece à primeira vista - um exemplo típico dum problema de custo muito baixo em termos lógicos mas de custo elevado em termos de implementação técnica). Umas perguntas introdutórias sobre números primos:
Sabes o que é um número primo?
- Sim, é um número que só é divisível por si e pela unidade
Dá me um exemplo
- 11
Quantos números primos existem?
- Infinitos
Consegues me provar isso?
- Formalmente?
Sim
- Não, já não me lembro de análise matemática
Então vamos fazer o seguinte, vou te dar um problema pra resolveres.
O gajo perguntou-me uma merda extremamente simples, mas eu tava ainda a pensar na merda das leis de maxwell e mais concretamente na razão porque não me lembrava delas (e daí divaguei para o consumo excessivo de alcóol que tem vindo a me condicionar a desenvoltura no raciocínio - se calhar é só uma mania que tenho).
Dados dois números primos consecutivos P1 e P2, existe alguma combinação de P1 e P2 tal que P1+P2/2 seja um número primo?
É um problema de resposta imediata, SE houver compustura e discernimento na identificação do problema. Eu precipitei-me na abordagem. Na verdade tava à nora com o gin do costa, com a oktoberfest, o interrail, o absinto e o pós-jogo dos british lions - e começei por assumir que fosse um problema de resolução complexa, o que serve unicamente para dessintonizar a solução. Tentei várias merdas, desde brincar com as propriedades dos números pares e ímpares até sacar conclusões palhaças, de quem nem olhou para o caralho do problema (um exemplo foi dizer que nunca vai ser um número primo porque os números primos à excepção do 2 são todos ímpares e a soma de dois ímpares é sempre um par e um par nunca è primo à excepção do dois - o que não tinha nada a ver com o problema). O gajo deve ter pensado que burro do caralho que tá aqui, nem olha prá merda do problema. E depois o gajo já fodido dá a dica "Man, consecutive, consecutive prime numbers"
E percebi logo.. tava me a falhar a merda do consecutive... pior que não saber a resposta é não saber ler o problema. Falhanço grave.
a soma de dois números primos consecutivos diz tudo basicamente. O dividir por dois é o turn do problema: a operação resulta na média dos dois primos consecutivos - e se são primos consecutivos não existe nenhum primo entre eles. river. que merda tão simples caralho....
comunico desolado a solução, com a consciência no timbre de que pouco servia
"of course.... if their are consecutive primes then no number between them can be a prime.. dividing by two you get the average of them so..."
game over
3. Background académico técnicoContinuamos a entrevista num ambiente soturno. Sabiamos todos o quão pueril era a merda da entrevista do momento em que cavei a minha própria sepultura para a frente. Assistirem ao meu funeral era uma obrigação protocolar.
Passamos para programação e a cena era mandar uma função em C que sacasse o número de fibonacci com a ordem como argumento. Acho que falhei outra vez porque disse que não me lembrava da série de fibonacci mas talvez isto fosse outra fase da entrevista em que matemática fosse secundária. O gajo escreveu-me isto 1 1 2 3 5 8 11 e disse-me pra deduzir o padrão. Os 7 primeiros termos eram óbvios, eram a soma dos dois anteriores, nada de especial, mas o filha da puta do 11 não cabia ali, nestes moldes lógicos. E fico 5 minutos naquela merda. E o gajo pergunta "So, such long time?"
E eu digo "hmmm, i feel like i'm almost there"
- "Well, any given term is the sum of the preceding two" - filha da puta antecipou-se pra quê?
"Yeah, i know that but what is the 11 doing there then?"
- "I was bullshitting you, it's a 13"
Isto não podia ser um teste dentro dum teste pelo simples facto de que se um gajo me dá uma série e eu a tenho que decifrar, ele não me pode exigir que simultaneamente encontre termos inválidos, senão qualquer série pode ser qualquer merda. Acho que ele se enganou e é possível que isto seja uma variação da incerteza de heisencyborg. Dado um objecto da classe dos problemas lógicos(P) é impossível resolver objecto recursivo da mesma classe contido em P e o corolário é que P é de resolução impossível. o Andriy devia saber esta merda.
Com Fibonacci decifrada, passar pra C foi trivial. Pró gajo tudo o que foi perguntado foi trivial naturalmente mas talvez ele não teja tão rodado em C quanto isso suspeito que tenha sido o único momento de positivismo dentro daquela sala ao largo da hora. Talvez tenha mesmo brilhado porque só precisei de 5 linhas de código pra mandar um fibonacci duma ordem arbitrária. E tive que explicar ao engenheiro russo como.
O romeno, a se cagar neste ponto prá entrevista e a ver pr0n no comp, ficou curioso: "he did it?"
- "Yes"
"Is it beautiful?"
- "I wouldn't call it beautiful... but it's very fast"
Eu próprio tinha apresentado a hipótese com o disclaimer de que a solução não era elegante, mas ao mesmo tempo tava orgulhoso com a economia do programa.
4. Background profissionalSérie de perguntas locais, porque é que sou o gajo pró trabalho e vice-versa, o que tenho feito, como podemos melhorar, quem é o melhor colega e o pior. Fazem sempre esta merda também.. tentam que um gajo se descasque a acusar malta individualmente, mas este trickshot até eu sei. Mesmo assim admiti que a minha equipa não trabalha a um nível fantástico, naturalmente para abrir espaço à solução pedro campos. Assumi fome por responsabilidade e sugeri umas merdas que tenho vindo a desenvolver na cabeça nos 3 minutos trabalho-casa. Disse que não tava particularmente impressionado com ninguém até agora, isto talvez tenha sido um error, pode passar como arrogância. A merda é que um gajo nestas entrevistas acaba no complexo americano em eurotrip/gap year na europa. Tentas tanto ser a merda que os outros querem que sejas, tentas tanto não ser a cena que os outros não querem que sejas (i.e. um inútil para a empresa/um americano burro e parvo) que acabas por derivar para fora da tua esfera de personalidade. E navegar por águas desconhecidas é um bocado random, um gajo não sabe bem como as coisas vão acabar e é bem provável que acabes no lugar que tavas a tentar evitar em primeiro lugar. É a cena dos americanos, os gajos tentam tanto parecer conscientes globalmente e ter um humor inteligente que acabam sendo americanos. E eu talvez tenha tentado tanto ser inteligente e ambicioso, duas merdas que tenho dificuldades em transmitir, que acabei parecendo limitado e arrogante.
Em suma afina a personalidade e depois stick to it, é a melhor arma que um gajo pode usar numa entrevista é a própria personalidade pro bem e pró mal. E se for pró mal talvez na verdade não fossemos feitos praquele trabalho.
E é isso que me fode, que eu não fui eu. Também por intimidação. Mas outra vez aí está, faz parte do jogo a resistência à pressão, a impavidez perante figuras de poder.
Talvez não teja preparado ainda para ser um homem, cidadão e pai. Talvez tenha de acalmar o grelo e recuperar critério na abordagem ao meu percurso.
E é a primeira vez que me lembro de escrever uma merda que entra em total ruptura com outra merda que escrevi aqui em tempos. Foi pra isto que criei esta merda de blog, pra monitorizar as curvas e contracurvas da minha existência.
5. Cultura geralos bosses, particularmente os bosses têm a pancada de perguntar merdas do nada. A fase final da entrevista acho que é reservada pra isso. Qualquer merda que lhes venha a cabeça perguntam. É habitualmente precedido de "Hummm...", a banda sonora que um gajo faz por assimilação social, quando quer indicar pensamento que irá necessitar de atenção já numa fase prévia.
"Hummm...what's your favourite book?"
- "The process"
"I don't know it..."
- "Kafka"
"Ah.. Kafka... Ok...hummmm... What's the radius of the earth?"
- "6400 km"
"What's the distance to the moon?"
- "400.000 km"
"What's the distance to the sun?"
- "Not sure but let me think about it...
"Take your time"
- "Light travels at 300.000 km/s and it takes 8 minutes for the sun's light to get to earth. That's basically 6 times 8 times 3 and then let's add 6 zeros in the end.. so....hummmmm... 144 million kms so let's say 150 million kms"
"Distance to the center of the galaxy?"
piada que o outro gajo já me tinha perguntado esta. Na altura disse errado mas fui à net ver quando cheguei a casa.
- "150 thousand light years"
continuo sem perceber pra que servem estas perguntas astronómicas.
amanhã há resultados.