caro rofpressor matias silveira,
não elaborei a tese de doutramento a que me propus por mera distração pelo que lamento ter faltado à confiança que depositou em mim. Não sei se lhe serão relevantes as razões que apresento mas passo-lhe a explicar, na esperança que seja solidário com a minha situação:
tava a planear fazer a tese nesta última sexta-feira pela noite e inclusive tinha tomado providências no sentido de que me iria deitar mais tarde que ao normal. Não obstante, quando me deslocava ao supermercado, por mera aleatoriedade, escapou-se me do cálice consciencial o porquê não só da minha viagem ao supermercado como de toda a jornada que normalmente rodeia estas pequenas idas ao supermercado - vida, ou destino, dependendo da sua convicção, que assumo, sendo o senhor ropfessor da área de telecomunicações e portanto com uma certa afinidade à visão estocástica da natureza, ser a primeira.
Nesta viagem notei, paralelamente, que as diferentes tecnologias de transmissão de informação em rede não são mais que meras metáforas para as diferentes crenças canónicas sobre como a vida se desdobra. Dentro dessa alegoria maior, um circuito virtual pode-se equiparar a um destino e um internet protocol a um quasi-livre arbítrio, digamos.
durante o tempo que me desencontrava na mencionada dissertação tecnofilosófica, o meu corpo divagou sem peias pelos andadores do supermercado. Sei que ao início eu fiquei a tocar nos mangos à entrada como sempre faço com os meus 65 anos de suspeição mas a ele o meu corpo não lhe consigo ao certo descrever a trajectória - e dou particular atenção a este pormenor porque parece-me decisivo para o desfecho não só da viagem como da jornada. Se me permite entrar em queda livre por abismos especulativos, talvez tenha depois consultado, suspicaz, o brilho eternista das golden smith, ou a curvatura modelar da banana chiquitita do equador, mas recolecto ao certo que ao recuperar a orientação encontrei-me, por multincidência provavelmente obra do acaso, junto à secção das bebidas.
Perante este desfecho, decidi então consciente - mas assumo que por reflexo condicionado -- que não combati -- -, me dosificar em alcóol. Desta feita, contudo, sobre formas novas nunca dantes navegadas - nomeadamente babashkoff laranja e limão. Naturalmente, e na tentativa de exumar partículas de vida atoladas no cemitério temporal, introduzi, com motivação catalizadora de nostalgia, um red bull e dois frascos de vodka no meu registo consumista. estava de volta a novalja e a todo o recomfortante degredo que isso para sempre significará para a minha vida.
Num grosseiro e irrelevante àparte, talvez justificado por um ímpeto bifurcado de ingenuidade-tipo e exaltação-infantil (tudo sublinhado por uma provável dose de jactância inata), gostaria de aproveitar a oportunidade para lhe fazer uma sugestão quanto à melhor maneira de obter nostalgia. Digo isto porque imagino que para outros, como o Caro rofpressor neste particular, seja tão grande uma aspiração como a minha conseguir atingir nostalgia e sorvê-la de coração remoído. O segredo consiste na activação neuronal localizada através de estímulação sensorial, basta só descobrir a chave para cada fragmento mnemésico e experiência da sua vida. Talvez isto não lhe seja novo, mas a minha grande descoberta recente, no entanto, é outra. Curiosamente, ressalta duma antiga crença minha de que o olfacto era o único dos sentidos que poderia ser dado como facultativo à nascença. Na realidade, representa o mais eficiente (com a audição) dos canais teletransportativos no nosso mapa cerebral. Música e cheiros, tenho vindo a descobrir, são o combustível do psiconauta.
Voltando ao supermercado, apresentei-me de tal maneira alienado do meu próprio entendimento na caixa registadora e o seu apêndice humano que resolvi, por precaução, reservar uma pausa para mim próprio com o motivo de recomposição racional. Resulta que neste processo de pausa me é solicitada pela psique uma reavaliação dos conteúdos da minha caixa de produtos a adquirir, mormente pela ausência de substâncias sólidas que me pudessem manter consciente nas horas subsequentes ao consumo hiperbólico de alcóol. Retrocedo corredores até ao pão e regresso triunfante ao local de pagamento. Sinto-me confiante socialmente porque tenho suporte financeiro para a operação comercial que irei propor ao estabelecimento de distribuição alimentar. Sou, para todos os efeitos, mais que um humano, um cidadão cumpridor de protocolos. Trabalho e consumo, como acabaria por fazer em qualquer sistema de organização colectiva, do tribalismo ao fascismo mas infelizmente o sistema em que estou mergulhado não é o da moda, porque é o vigente, e importa renegá-lo e estigmatizá-lo para se sobrepor à maioria ignorante. O mourinho tá para o futebol como o capitalismo democrático para as doutrinas socio-económicas - servem como trampolins para a elevação crítica pseudo-intelectual, daquela que se faz sentado numa esplanada, de calças justas ao tornozelo, bigode irónico, um iPhone numa mão e um café biológico em cima da mesa.
Isto leva-me à questão dos paradigmas, senhor ropfessor, e da minha parte favorita dos paradigmas - a de refutação popperiana e consequente - adoro esta parte - ruptura, rutura, rotura, destruição, aniquilação de paradigmas e seus apoiantes, mas penso que isto será uma tentação média a qualquer cientista de renome como eu, tanto que muitas vezes nos precipitamos na ansia de contrariar. perigoso, atenção.
Volvi à minha habitação à procura de conforto, seduzido pelos três aquecedores do quarto e o magnetismo abstrato que paira em frente ao meu ecrã de computador. Inspirava alcóol e permutava a atenção entre 3 buracos negros sobre a forma de facebook, google reader e Marca. A mulher que conheci em 2003 no rato e que tive breve período de contacto humano tem um gato novo a 7000 km de distância, uma miúda imersa em filosofias subversivas fringe encontrou uma fotografia duma vagina desfigurada e publicou no blog. ela gosta destas coisas porque vive aborrecida no meio do wisconsin. o cristiano ronaldo continua a bater recordes de golos e o mourinho, mercurial como sempre, fez cócó na boca do presidente juan carlos de castela.
Que mais fazer senão beber? Eu sóbrio estou desalinhado caro ropfessor. Estou desalinhado e regularmente no comboio questiono-me sobre porque é que não namoro com uma modelo em madrid ou sou CEO da maçonaria, as coisas que mais quero. Bêbedo estou no estado quântico fundamental, estou em harmonia com o mundo. a minha namorada passa a ser uma modelo de várias nacionalidades fetiche e a maçonaria passa a ser uma organização inofensiva para velhos que gostam de se vestir de forma estúpida, como na realidade.
E foi assim que justificadamente me escapou o enquadramento de responsabilidade que se exige e espera para se fazer uma tese. Não fui eu, foi o mundo senhor matias. Eu só sou uma peça e a edita vilkeviciute de kaunas, capricórnio nascida a 1 de janeiro de 1989 é outra. Tenho de dar outra oportunidade a ac milão, porque das outras 120 vezes nao vi corno disto.