Carlos, bom post/texto. Eu discordo em dois pontos: 1) Que o
Messi seja portador do futebol bonito e romântico 2) A associação de
rentabilidade e eficácia ao capitalismo. Para além disso concordaria
mais com o autor do texto original se tivesse substituido
"originalidade" por "autenticidade". O Maradona era autêntico (e
original), o Ronaldo é autêntico (há quantos anos deve tar a comer nos
cornos de assessores de imagem para mudar o estilo em campo para apelar a
uma sociedade crescentemente julgadora e moralista? Mas continua igual,
isto é ser autêntico, independentemente de se o estilo agrada ou não), o
Messi não é autêntico, é um menino treinado desde pequenino para ser o
melhor do Mundo em todos os aspectos por uma entourage altamente
qualificada. O Messi é um actor principal dum argumento chamado FC
Barcelona que prega uma série de valores como que um veículo de
auto-exultação moral e ética, como se por alguma razão os seus valores
de humildade, sobriedade e cultura grass-roots de formação de jogadores
imediatamente lhes conferissem superioridade humana, futebolística e
institucional. O mais irónico de tudo é que a forma como tentam impor
esses valores como a referência a seguir (frequentemente apontando não
observância nos diversos adversários), é, em si, em oposição aos seus
próprios valores. É arrogante rejeitar a pluralidade de filosofias e
estilos (e isto se calhar é um pecado que associo mais aos apoiantes
culés do que à instituição em si), em particular quando frequentemente
eles próprios cometem os mesmos erros que apontam (Daniel Alves, Piqué,
Busquets são todos filhos da puta hipócritas).
Voltando ao Messi. Acho que há 4-5 anos o Messi tinha
realmente um estilo de futebol mais estético e romântico. Isto porque o
que fazia em campo era ao mesmo tempo que altamente imprevisível, também
inalcancável, pelo menos por qualquer pessoa que percebesse remotamente
de bola (e esta parte acho que tem a ver com o físico próprio dele, não
nos esqueçamos que, tal como Ronaldo - embora numa forma diferente -, o
corpo de Messi foi desenhado para ser como é, recorrendo até à
utilização de hormonas de crescimento etc). Hoje em dia o Messi é tão ou
mais máquina do que o Ronaldo. Uma máquina não é necessariamente forte
mas é necessariamente eficaz, e é isso que o Messi é. É uma máquina de
flectir da direita para o meio, esquivar-se por 2-3 médios a caminho,
precipitar-se para o espaço criado pela movimentação vertical do iniesta
e do xavi, mudar de direção com a bola colada ao pé em frente ao
central e colocar mecanicamente a bola na rede, normalmente num ponto
qualquer na baliza, não necessariamente sequer num canto. Nada mais
funcional e pragmático, é efectivamente uma máquina de fazer golos a
partir duma fórmula bem definida, tão bem definida que é neste momento
altamente previsível mas não contrariável, em parte pelas suas
características físicas, e em parte pela fluidez posicional do sistema
do barça, na minha opinião. Isto dele se tornar eficaz acima de tudo
acho que começou com o Guardiola, e tornou-se crescentemente verdade com
o tempo. De qualquer forma, o que quero dizer é que, como o Ronaldo, o
Messi foi moldado às necessidades do futebol actual e transformado num
produto que maximiza as suas características de forma sistémica, embora
isto seja desconfortável de admitir a quem admire particularmente o
messi/barça, exactamente porque a funcionalidade é vista como uma
característica menos humana do que a arte e estética, e esta distinção -
exactamente a que tu fazes - é a base de muita argumentação pró-FC
Barcelona. Mas ya, acho que foram os dois programados para ser máquina,
cada um à sua maneira, a diferença entre um e outro é esta: o Messi,
enquanto carácter e personalidade, começa e acaba numa filosofia e forma
de estar exógena a ele: ele come e vive um guião que lhe é imposto pelo
pai, entourage e instituição, que nunca deverá ser questionado. É muito
interessante vê-lo em momentos de frustração, porque mostra que é
suscetível também ele às fragilidade inerentes à condição humana: ele é
também capaz de gerar emoções conducentes a comportamentos negativos
(tão mas tão reprimidas na sociedade actual, como se ficar razoavelmente
fodido de vez em quando não fizesse parte da natureza humana), e cospe,
pontapeia e faz merdas que normalmente não são circuladas nos media
porque é muito mais consumível que se protega o dualismo cliché entre o
bem e o mal, é esta polarização que vende, que gera discussões
incrivelmente superfluas, subjectivas e intermináveis nos comentários da
marca ou do sport. A parte mais interessante de tudo é que quando o
Messi fica fodido, é me fascinante, porque a mim dá-me a impressão duma
máquina com um bug que foi levada a uma situação para a qual não foi
especificado. Ele nem sabe muito bem expressar estas emoções negativas
(talvez em parte pelo asperger, ya), porque passa a vida ou longe delas
ou a reprimi-las, porque o comportamento que delas se gera é desajustado
ao paradigma "més que un club". O Ronaldo, por outro lado, impõe o seu
guião, nasceu numa ilha pequena, com um entourage mal educada, cheio de
abutres à volta e subiu a pulso. Adaptou-se às necessidades das suas
equipas, moldou um corpo no limiar do surreal com visitas obssessivas ao
ginásio, era e ainda é o primeiro a chegar e o último a sair dos
treinos. Quando foi para Lisboa foi sozinho, viveu na academia do
zporten e era gozado pela pronúncia. O guião sugeria que ele mudasse a
pronúncia mas ele não o fez, em vez de se envergonhar da pronúncia e
tentar se integrar no ambiente rendendo-se à assimilação (como
infelizmente acontece com muitos madeirenses quando vão para Lisboa e
sucumbem à pressão), viu isso como um factor de diferenciação, uma
característica inata não sujeita à validação duma particular sociedade
ou cultura. Conhecendo a Madeira e os madeirenses como conheço,
conhecendo o perfil do Ronaldo (tão comum nas zonas altas do Funchal,
ele enquadra-se, ainda hoje em dia num dos maiores palcos mediáticos do
globo, num estereótipo das zonas altas do Funchal - é autêntico), não
tenho dúvidas de que esta auto-aceitação veio de conversas ao telefone
com a mãe - "Filho, não mudes, tu és o que és e o que os outros têm é
inveja". Aliás, tenho a certeza que isto é a justificação que o Ronaldo
mais ouve para ser odiado. Quando chega a casa de Bilbao ou Dortmund ou
Sarajevo e se senta no sofá à espera que o cunhado lhe traga um cozido à
portuguesa para ver a repetição do jogo deve perguntar à irmã, magoado e
confundido: "porque é que eles não gostem de mim?". E a resposta é de
certeza invariavelmente "eles têm mas é inveja de ti, nã ligues" - a
inveja é um tópico maior e recorrente na sociedade madeirense, e embora
grosseiro, é provável que isto seja, pelo menos em parte, verdade. Acho
que é aqui que o CR e o Maradona se tocam (embora a história do Maradona
seja muito - mas muito - mais romântica e interessante), são o que são,
e o que são é rastreável às origens, existe uma história e um percurso
de vida que justifica o que são e isso torna-os autênticos,
independentemente de se a forma agrada ou não. O Messi nesse aspecto é
mais tipo Pelé, malta que se conformou às normas morais e institucionais
do ambiente, mais ... "agradável" aos media, organismos da bola etc,
porque vendem uma história pré-fabricada e controlável e transmitem uma
séries de valores que as elites/aristocracias há muito muito tempo
tentam incutir em massa nas sociedades - é mais fácil lidar com um povo
auto-oprimido emocionalmente, bem comportado e previsível. Eu diria que
essencialmente, o problema do Ronaldo não é ele, o problema
do Ronaldo é uma sociedade ultra-moralista e arrogante no seu moralismo
que rejeita múltiplos paradigmas e tem uma obssessão com apontar não
conformidades comportamentais, em especial no que diz respeito a
celebridades (veja-se miley cyrus, justin bieber - mas o que é que me
interessa a mim ou à sociedade se andam mamados em cerimónias de
atribuições de prémios ou concertos?).
A cena da rentabilidade e eficácia vs capitalismo percebo
a associação mas acho que a rentabilidade e eficácia não são
características do capitalismo mas características de qualquer sistema.
Um sistema que diga pá pessoal vamos fazer X mas que sa foda se fazemos a
ritmo Y ou quantidade Z, não é um sistema, é só um objectivo solto. O
futebol tem, para além dum objectivo bem definido, um sistema montado
para o qual o incentivo claro é ganhar o máximo possível.
Colateralmente, existe a noção, que vai ganhando crescente popularidade
nos dias que correm, de que é preciso também agradar a uma certa facção
de adeptos que se vê no direito de ver o futebol como uma forma de
alimentar os seus requisitos estéticos pessoais. A verdade é que o
futebol não começou por ser uma arte e progrediu para um desporto
competitivo - se é verdade que hoje existe uma componente "artística"
para a bola, esta foi adquirida com o tempo (especulo que o Brasil 58
massificou a apreciação estética do futebol, alguém sabe mais sobre
isto?). Alías, no futebol competitivo, a parte artística e estética não é
propriamente motivada pela perspectiva romântica dum campo de futebol
como uma tela mas pelo aspecto funcional da imprevisibilidade associada a
essa componente artística (salvo raras exceções, como por exemplo, os
truques que o Ronaldo gosta de fazer para nada - exceptuando que, quando
ele faz qualquer merda do género é imediatamente condenado, porque "tá a
gozar com o adversário" - esse sacana deve viver tão mas tão confundido
com a vida...). Há muito poucos jogadores que são capazes neste momento
de aliar naturalmente arte à funcionalidade, e o Messi não é um deles. O
Ozil é talvez o expoente máximo disso neste momento - acho que ainda
ninguém falou aqui mas tá numa forma incrível também.
De qualquer forma, para finalizar, quando um dia o futebol for acima
de tudo uma arte, para mim está morto, porque culminou-se a
transformação dum desporto plural englobando vários estilos - cada um
apreciável à sua maneira, desde as bolas longas do bolton ao tiki-taka
do barça, passando pelo contra-ataque relâmpago do real madrid, no
futebol-xadrez do matic ou a hiper-polivalência/plenitude do katsouranis
- num cliché.