olha, consegui... podia dizer que nao foi fácil e essas merdas mas a verdade é que durante a maior parte das horas não tive de fazer o frete de falar com alguém e me relembrar continuamente o quão anti-social sou em primeiras abordagens, o que foi refrescante.
em Berlim, pão de lim e é dia 18
farto de introduções prossigo: tudo comecou há 25 anos mas para aquilo que interessa serve fazer o spawn histórico às 4 da manhã do 18 de dezembro live aus berlin. naturalmente nao preguei olho só a catalogar as diferentes tonalidades da pele dela quando iluminadas pelo reflexo nebuloso da luz metropolitana. contudo rapidamente percebi que só tem uma: é a do amor (brutal pedro). de qualquer maneira, após concluir isto dá-se o inevitável e o telemóvel dela começa a bombar som com a mania que é um despertador - eu à primeira nota, como que mostrando que sou um gajo decidido e sem meias merdas, dou-lhe um beijo levanto-me e vou tratar da minha higiene pessoal. normalmente salto este passo mas penso que esta é a tal e portanto quero a impressionar suprimindo o meu odor biológico com um de maior apreciação sensorial, de acordo com os mais recentes cálculos matemáticos (mel e cereais, aloe vera, mango com batatas e por aí fora). desejo profundamente a máquina de barbear do cabeças, pareço um urso de peluche mas não tão querido, tipo do género do estilo do bruno aleixo. ainda assim quero dar uma última imagem digna da minha estética mas não tou a ver hipóteses. desisto dessa ideia, como sempre, e volto à base. absorvo as direcções que ela me transmite para o aeroporto: vindo dela, naquela voz, parece um poema do baudelaire mas de natureza invertida (leiam - eish que arrogante assumir que não perceberam!). de qualquer forma sempre soube, secretamente, que ia lá parar ao aeroporto mesmo sem direcções, safo-me sempre. tenho a certeza que no meio do catujal sem água e sem mapa chegava ao seixal num dia, provavelmente arrastado pelo para-choques dum type-r kitado. considero-me verdadeiramente um mcgyver do século XXI, mas sem aquele cabelo paneleiro e cujo único instrumento é a casualidade positiva de processos (ou sorte, para os intelectuais). ela não tendo ainda conhecimento deste meu talento particular optou por escrever as direcções numa folha de papel. um gesto sensato, descobri mais tarde.
é assim neste clima de dúvida pessoal que me despeço e deixo para trás uma mala (sim o truque de deixar algo para trás como as gajas fazem, mas a 3000 km de distância - uma variante inovadora que idealizei), alegadamente porque não consigo pagar o seu bilhete (11 euros ainda são 5 + 6, em portugal ou no zimbetname). ela sorri quando faço o truque portanto acho que ela percebeu, o que foi bom ter sorrido então, digo eu para o meu fecho eclair. ele nao retorquiu, como é hábito, mas senti especial empatia, sabia que ele tinha percebido e ambos nos sentimos confortáveis com o silêncio, como os verdadeiros amigos fazem por cliché. era tempo de despedida e eu continuava incrédulo de tudo o que se tinha passado no últimos três 52 avos de ano (obrigado por lhe terem pago). por outro lado era a nossa primeira despedida e não sabia como proceder: largava-lhe um linguado e um apalpão na nádega ou ficava-me pelo abraço e chocho cerimoniais? deixei as coisas correrem, go natural over rational li uma vez numa cosmopolitan no dentista. granda merda go natural o caralho, demos um abraço, um palavrão e um beijo (o que equivaleu ao mínimo do meu rational) e féfé varanda arrancava deixando bikini preto pra trás. como queria outra oportunidade de despedida pró apalpão joguei reconditamente o meu passaporte para cima da cama e ao chegar à porta simulo o esquecimento do passaporte. funcionou. quem me dera ter me lembrado de fazer isto com as minhas chaves de casa também... com efeito, elas ficaram em berlim na mala que deixei, por legítimo lapso de responsabilidade. "só para aprenderes a não te armares em engraçadinho" ecoam na minha nuca as sábias palavras dum deus desconhecido (desculpa o plágio ó john - que não é porque falta o "a" antes, chupa). despeço-me dela então com um olá inverno de berlim e penso nas épocas climáticas e como ou tá muito calor ou muito frio nestes dias. conclui que o outono e primavera foram cancelados sem aviso prévio, depois de 3 biliões de épocas de sucesso. uma pena já que ambas as séries climáticas eram apreciáveis , tendo sido galardoadas inclusive com músicas celebrativas alusivas (lembro-me de repente da primavera das felores ou do dia do pão pror deus) e que de certa forma faziam uma transição adequada e de gradiente mercurial razoável entre as mais polarizadas (e não nos vamos enganar a nós próprios - populares) "verão" e "inverno". toda esta divagação dá me tempo e espaço de me perder no tempo e espaço, tenho comboio da estação de Sudkreuzfelt-Jakob (aha inventei um bocado do nome, qual?!) às 5 da mantina e os 30 minutos que demorei a sintetizar todo o raciocínio das séries climáticas pareceram-me suficientes, pelas indicações, para me cruzar com a estação (até porque ela disse que era a 10 minutos). o mcgyver do século XXI decidiu então fazer o que sabe melhor: esperar que alguma coisa aconteça. dito e feito: aparece uma humanoide com, seguramente, pracima de 100 enfeites epidermais de todos os géneros e o cabelo daquela cor que na Luz não é sinónimo de nada. falo do verde. infiro que uma pessoa com um nível de avanço tecnológico tão grande deverá falar toda e qualquer língua do mundo e então abordo-a em inglês, língua padrão para relações intergalácticas. ela diz "follow me" mas não percebi bem para que lado tava virada pelo que esperei pelo seu movimento. felizmente, o ser humano tem um sistema de controlo diferencial com retroacção pelo que foi me possível rapidamente me situar quanto à direcção e sentido da sua locomoção. mesmo assim ainda suspeitei para mim próprio que ela pudesse tar a andar de costas. era perfeitamente possível que até possuisse visão nocturna pelo olho do rabo. na alemanha, com siemens, mercedes e o bayern de munique, são todos dados a esses gadgets tecnológicos, vi na televisão. mas isso era irrelevante, só queria chegar à estação da s-banhos para me despachar para o aeroporto mas era, porque perder o avião pela 2ª vez, embora uma opção largamente preferencial do ponto de vista inmonsional não era razoável familiarmente por um lado nem viável financeiramente por outro. ok lá chegamos sem trocar mais palavra. arrependi-me: podia ter perguntado em que fábrica ela tinha sido produzida pra comprar uma igual para o meu irmão quando ele fizesse 16, em vez dum helicóptero telecomandado ou o pro evolution soccer 2016 mas escapou-se-me a oportunidade e também não sou grande coisa em inglês. imagino de qualquer forma que seja de marca branca pois não apresentava em nenhum sítio a etiqueta de produto aprovado pela união europeia.
convergimos nesta minha imagem já lá dentro: "danke schon" espremo por entre os lábios timidamente, à espera da reprovação quanto à pronúncia por parte da minha adjuvante mas ao invés solta um condescendente "ja! very good! tschuss...". boas maneiras na programação, que têm na alemanha. tudo muito giro só que preciso de saber se ainda venho a tempo do malogrado comboio que principia o meu regresso desta viagem nupcial e não tenho nem relógio nem telemóvel. felizmente os arquitectos do complexo ferroviário suspeitaram que poderia ser útil a alguém saber as horas naquele espaço e dispuseram, numa quantidade talvez exagerada, de relógios atómicos pelas paredes e tectos de cada sala. é uma medida ardilosa no sentido em que assim asseguram-se de que até os mais desconfiados podem ter a certeza sobre a vizinhança temporal em que se encontram, podendo consultar pracima de 10 relógios diferentes no espaço de 1 minuto (se calhar até chegam ao último e ficam baralhados porque tá 1 minuto adiantado em relação ao primeiro e voltam a verificar: ciclo infinito... ah e outra coisa já pensaram como se pode dizer no espaço dum determinado tempo e nunca no tempo duma determinada distância? chamem a PJ pode ser que decapitem mais um inspector-geral e com sorte em 2012 tou no lugar). tou a 5 minutos do comboio e, consultando as minhas românticas notas, descubro que não estou na plataforma correcta. movimento-me e ponho-me em posição. o comboio vem. hesito em me mandar para a frente da massa metálica em movimento rectilíneo uniforme, como resposta aos recentes acontecimentos mas achei que seria inconsistente com o argumento. se isto é o reality show secreto que penso que é tenho que estar agradecido a quem o produziu, e a melhor forma de o demonstrar é tornando a minha vida mais interessante, continuando vivo. a figura do meu cadáver desfeito nos carris no distrito berlinense de schoneberg seria uma perspectiva interessante para as audiências mas eu tou seguro de que consigo fazer melhor.
meto-me no quimboio e vivo 40 minutos cinematográficos. um flashback retrospectivo dos acontecimentos que se tinham passado nas últimas semanas, mas com contornos poéticos, edificando nostalgia mas sem ser suscitada por uma música que ouvimos, como é hábito agora e outra vez, mas sim pelo trak trak dos carris (e tantas memórias dos diferentes trak traks pela europa) e o meu reflexo nas janelas interiores do s-bahn, desta vez sozinho com a minha espectacular mala preta com rodinhas comprada quando eu era puto, em março deste ano, no aeroporto de newark, desta vez todo vestido. imagino o quão humano e bonito seria se eu vertesse uma lágrima mas deixo-me de utopias e lamento o tempo perdido a invocar na imaginação músicas de kelly family e o cabelo do rui santos. saio do comboio e faço me à estrada. não tenho tempo para baboseiradas, sou um viajante nato que despreza facilmente as emoções que o enraizam a pontos geográficos. sou o mcgyver do século XXI caralho. no aeroporto nada de particularmente interessante se passou à excepção de que não encontrei revistas noutra língua que não a alemã. nem time nem newsweek nem usa today. comprei pastilha elástica que acaba por ser a mesma coisa mas é preciso mexer os maxilares. assim ainda queimo umas calorias e fortaleço as bochechas, facto que estou seguro me trará maior aceitação feminina. não que a procure actualmente, só pra que conste oficialmente.
como se sabe mascar estimula o sistema neuronal, particuarlmente quando se trata de mascar produtos com origem na alemanha e então divago dentro do meu limitado alcance racional: só tenho comigo exactamente duas coisas: um passaporte e um cartão multibanco. e é o suficiente pra viajar na easyjet. que me custou 80 euros com return trip, lisboa-berlim (ok fodi essa viagem mas originalmente foi isso). bons dias que vivemos, a mobilidade é tão fluída dentro das fronteiras da nossa ex-CEE que até me apetece abrir as portas da minha casa a qualquer personagem que o peça pela internet e seja do sexo feminio e tenha uma figura invejável. foi assim que conheci a minha futura ex-namorada. foi assim que vim aqui parar, e por causa dos meus pais também. entro no avião, sento-me irreflectidamente num lugar, o primeiro que me chamou ( <3 free seating). erro crasso. calho com duas pitas espanholas com a mais estridente e nauseante pronúncia madrileña. e tinham bebido red bull ao que parece. loucas. desculpem-me o estilo special one mas parecia-me que queriam travar conhecimento com o meu cabelo. num acto de vingança por todas as miudas que nunca se meteram comigo quando eu era novo por causa do tamanho desproporcionado do meu nariz e da separação nos dentes fui parco em palavras e interacção. também porque não tinha paxorra de as aturar. também porque tinha sono. e também porque tinham poucas mamas. nisto entra uma banda punk toda maluca. foi a primeira vez que vi ao vivo uma banda mista, de humanos e animais. o ouriço cacheiro era claramente o guitarrista, e trouxe-me memórias infantis felizes da minha primeira namorada, a jacqueline, com quem namorei em troca da sua megadrive pra jogar ao sonic. o coitado foi a raspar com os espinhos no tecto do avião o que lhe valeu a atenção da cabine inteira, não fosse alguém não ter notado que ele não era um convencional passageiro da vida. tou certo que todos ficaram na dúvida se se tratava dum entidade suprahumana qualquer. um suíno, por outro lado, fazia-se valer pelo à vontade com que se expressava em altos decibeis, para que ninguém duvidasse da sua superioridade enquanto ser especial de corridas. decidi perguntar se algum deles me sabia explicar o que era o niilismo e como se enquadrava na filosofia punk da banda. responderam que não apreciavam futebol, e foi o mote para retirar nenhuma conclusão. com isto o filha da puta do comandante começa a falar em língua germanica e prolonga-se. imaginei que nao constituisse o protocolar abstract que fazem a cada voo e tive bem uma vez na vida para além daquela em que decidi beijar a polaca (todos concordamos). de facto comutou para o anglo-saxónico e ilucidou-me quanto ao motive: tinhamos peso a mais para a bagagem que tinha sido registada. não sei precisar se fui o único mas soltei um grito histérico de pânico. imaginei as brigadas vermelhas italianas a fazerem o avião a explodir sobre solo francês por causa da cabeçada do zidane e imediatamente pensei em como o melhor seria abdicarmos de toda a nossa liberdade individual e privacidade pessoal com vista a combater o colossal monstro da ameaça terrorista. até cameras pelo meu rabo acima podem meter, solto tourreticamente em voz alta, confundido pela desordem emocional. é então perante este cenário apocalíptico que somos informados de que terão que retirar todas as bagagens do avião e contabilizá-las. na eventualidade de não serem identificadas as malas que estão a mais, todo e cada passageiro terá que identificar a sua própria mala lá fora, em condições sobrehumanas de temperaturas abaixo dos zero graus, sem comer e sem beber durante 20 mintuos, caso contrário será alvo de execução sumária pelas forças especiais alemães. para os judeus a bordo a identificação da mala não é um requisito para a execução, adicionou o comandante de forma redundante. esperamos de mãos dadas ao longo da totalidade dos 5 minutos que se seguiram e finalmente o alívio: só os judeus serão executados e as malas que tavam a mais só tinham notas de 500 euros (eram deles). dou graças a deus por não ser judeu e indago sobre a possibilidade desse deus a quem agradeço ser o mesmo que o dos judeus. faço rewind na cabeça e penso noutra coisa rapidamente, certo de que os alemães poderiam dispor dum aparelho de leitura de mente qualquer. penso no benfica e vem me logo à cabeça execuções sumárias outra vez. tou perdido no pensamento. levantamos vôo, às 10 horas tamos em merdrid e tou tão partido disto tudo que vou seguramente dormir, mas com um olho aberto, não por causa da camera no rabo mas por causa das STASI e a possibilidade de detectarem telepaticamente o meu pensamento semítico erróneo. (...)
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